PROJETO

Ufal fortalece rede de proteção aos povos de terreiro em Alagoas

Projeto Estratégia Mãe Bernadete chega ao estado com foco no enfrentamento ao racismo religioso e na valorização das comunidades tradicionais de matriz africana

Por Ascom UFAL Publicado em 11/05/2026 às 15:26
Projeto Estratégia Mãe Bernadete chega ao estado com foco no enfrentamento ao racismo religioso e na valorização das comunidades tradicionais de matriz africana

A última sexta-feira (8) marcou um momento histórico para os povos e comunidades tradicionais de terreiro e de matriz africana com a chegada do escritório do Projeto Estratégia Mãe Bernadete ao estado. A cerimônia de assinatura do Termo de Cooperação Técnica aconteceu no auditório do Campus A.C. Simões, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), e foi marcada por celebração, memória e legado.

A ação é uma iniciativa do Ministério da Igualdade Racial (MIR), do Governo Federal, junto à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e chega ao estado graças à parceria com o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi) da Ufal. Com a assinatura, Alagoas se torna o segundo estado a receber o projeto.

Na mesa de assinatura estiveram presentes a vice-reitora da Universidade Federal de Alagoas, Eliane Cavalcanti, o secretário de Políticas para Quilombolas, Povos e Comunidades Tradicionais e Matriz Africana, Povos de Terreiro e Ciganos do MIR, Ronaldo dos Santos, a diretora de Políticas para Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro e Matriz Africana do MIR, Luzineide Borges, a delegada titular da Delegacia de Vulneráveis Yalorixá Tia Marcelina, Rebecca de Paula Cordeiro, o coordenador-geral de Mediação e Conciliação de Conflitos da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, Rui Leandro da Silva Santos, e o desembargador do Tribunal de Justiça de Alagoas e primeiro Obá de Xangô em Alagoas, Tutmês Airan Melo.

Além deles, participaram o defensor público e coordenador do Núcleo de Proteção Coletiva da Defensoria Pública de Alagoas, Othoniel Pinheiro, o representante dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana e de terreiro de Alagoas, Babalorixá Wagner do Xoroquê, a superintendente de Assistência Social da Secretaria de Estado da Assistência e Desenvolvimento Social, Genilda Leão, a vice-coordenadora do Neabi/Ufal, Rosa Correia, o representante da instituição parceira Instituto do Negro de Alagoas, Pedro Gomes, e a gerente de Articulação Social e Relações Públicas do Gabinete Civil de Alagoas, Edenilsa Chagas.

Como representantes dos povos das religiões de matriz africana, estiveram presentes a yalorixá das Religiões de Matriz Africana do Estado de Alagoas, Patrimônio Vivo de Alagoas e doutora honoris causa pela Ufal, Mãe Mirian, e a representante da instituição parceira Centro de Formação e Inclusão Social Ináe, iyalorixá e Patrimônio Vivo de Alagoas, Mãe Nilde Oyá D’Oxum.

Resistência e resiliência

A vice-reitora, Eliane Cavalcanti, destacou a cerimônia como a representação da força, coragem, resistência e resiliência de um povo que, durante muitos anos, foi massacrado, excluído e privado de direitos, dignidade, paz e vida, reforçando que a universidade deve se abrir para espaços como esse.

“Esse povo precisa ocupar os seus espaços, ocupar as universidades, ocupar os lugares de liderança. Esse é o momento. Juntos seremos sempre fortes. Juntos mostraremos que a nossa religião é intrínseca ao povo brasileiro. Não existe povo brasileiro sem Axé. Este momento representa a Universidade Federal de Alagoas dizendo ao seu povo: estamos construindo novos espaços, novos tempos e uma nova história. Estamos trazendo a universidade para vocês, porque ela é nossa”, afirmou.

Ela acrescentou, ainda, o trabalho essencial que o Neabi vem realizando nas atividades de valorização dos povos e comunidades tradicionais no estado, buscando combater a intolerância não apenas dentro da universidade, mas também fora dela: “Mesmo na terra marcada por profundas violências históricas, o Neabi está há mais de 30 anos dizendo: basta. Basta ao racismo, basta à intolerância, basta à violência. Parabéns ao Neabi, a todos os pais e mães de santo que lutam diariamente em seus territórios por existência, reconhecimento e resistência e a todas as pessoas que estão desarmando preconceitos e reconhecendo o poder transformador da educação e a força das religiões de matriz africana”, destacou.

Para a vice-coordenadora do Neabi, Rosa Correia, o projeto representa a manutenção da história do povo afro-brasileiro, da formação social e, principalmente, da identidade. “A Estratégia Mãe Bernadete representa um cuidado voltado às pessoas de matriz africana e aos terreiros, mas é muito mais do que isso. A matriz africana é um sistema cultural baseado na filosofia, na música, no canto, na arte e na culinária, mas, principalmente, na ecologia e no respeito à natureza. Cuidar das pessoas e da cultura de matriz africana é compreender todo esse projeto pedagógico que herdamos do povo africano”, disse.

O secretário do MIR, Ronaldo dos Santos, ressaltou que, em tempos de crescimento do fundamentalismo religioso no Brasil, um fenômeno que hoje impacta diretamente instituições, espaços políticos e até estruturas de segurança pública, torna-se ainda mais necessária a construção de políticas públicas como a Estratégia Mãe Bernadete.

“A Estratégia Mãe Bernadete articula uma rede de proteção, e Alagoas já nasce um passo à frente, com instituições comprometidas com essa pauta. A universidade tem um papel fundamental nesse processo, não apenas na formulação de iniciativas, mas também na construção da memória, na sistematização das experiências e na produção de conhecimento sobre tudo o que essa estratégia irá gerar”, finalizou.

Sobre a Estratégia Mãe Bernadete

A Estratégia Mãe Bernadete é uma iniciativa do Ministério da Igualdade Racial, em parceria com a Fiocruz, voltada para a promoção dos direitos dos povos e comunidades tradicionais de terreiro e de matriz africana, com foco no enfrentamento ao racismo religioso, na proteção de territórios e na qualificação de redes locais de atendimento.

O projeto leva esse nome em homenagem a uma ialorixá, ativista e líder quilombola brasileira, Mãe Bernadete Pacífico, assassinada em 2023. Além de ialorixá respeitada, ela era uma liderança comunitária reconhecida internacionalmente, símbolo da resistência do povo negro e da luta pelo direito à terra. O assassinato está inserido em um contexto de violência contra comunidades tradicionais e da pressão por territórios quilombolas no Brasil.

Confira a cobertura fotográfica completa no Acervo Imagético Manoel Mota.