Presidente Lula deverá ganhar dois palanques em Alagoas
Como em Pernambuco, onde João Campos representa o palanque mais próximo do lulismo e Raquel Lyra tenta acenar ao presidente, Alagoas pode repetir a fórmula com Renan Filho no palanque oficial e JHC buscando agradar Lula após deixar o PL pelo PSDB
A política de Alagoas começa a desenhar um cenário que lembra, em escala local, o tabuleiro de Pernambuco. Lá, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a ser disputado por dois campos competitivos na eleição estadual: o do ex-prefeito do Recife, João Campos, do PSB, aliado histórico do lulismo; e o da governadora Raquel Lyra, do PSD, que tenta se aproximar do governo federal e capturar parte do eleitorado lulista.
Em Alagoas, a movimentação ainda não está formalizada nesses termos, mas os sinais políticos já permitem a comparação. O ministro dos Transportes, Renan Filho, é o nome naturalmente associado ao palanque oficial de Lula no Estado. Ex-governador, aliado do presidente e integrante do primeiro escalão do governo federal, Renan reúne as condições políticas para representar, em Alagoas, o campo lulista tradicional.
A novidade está no outro lado do tabuleiro. João Henrique Caldas, o JHC, deixou o PL, rompeu com a engrenagem política que vinha sendo articulada em torno de Arthur Lira e migrou para o PSDB. A saída do partido de Jair Bolsonaro, especialmente num contexto de divergência com Lira, muda a natureza da candidatura de JHC ao governo estadual. Ele deixa de estar preso ao palanque bolsonarista mais explícito e passa a ocupar uma faixa de centro, mais flexível e menos incompatível com o eleitorado de Lula.
O movimento ganha ainda mais relevância porque o PSDB vive um momento de indefinição nacional. A sigla convidou Ciro Gomes para disputar a Presidência da República, mas a construção ainda é incerta e depende de uma série de fatores políticos. Caso o partido não consiga consolidar uma candidatura presidencial competitiva, candidatos tucanos nos estados poderão buscar arranjos locais mais pragmáticos.
É nesse espaço que surge a possibilidade de um palanque paralelo. JHC não precisa, necessariamente, transformar-se em lulista. Mas pode tentar reduzir a rejeição no eleitorado de Lula, adotar discurso menos alinhado à direita bolsonarista e explorar gestos de aproximação institucional com o governo federal. Em Pernambuco, Raquel Lyra tenta fazer movimento semelhante: mesmo sem ser a candidata orgânica do campo lulista, busca mostrar parceria administrativa, elogiar entregas federais e disputar votos de eleitores do presidente.
No caso alagoano, há ainda um ingrediente sensível: a nomeação de Maria Marluce Caldas Bezerra para o Superior Tribunal de Justiça. Procuradora de Justiça em Alagoas, Marluce foi nomeada ministra do STJ por Lula em 2025. A imprensa nacional registrou que ela é tia de JHC.
Embora a nomeação tenha seguido rito institucional, com lista tríplice, aprovação no Senado e decreto presidencial, o episódio teve repercussão política local e passou a ser lido como um gesto capaz de diminuir distâncias entre o grupo de JHC e o governo federal.
Essa leitura não significa adesão automática. A política estadual raramente obedece a linhas retas. JHC ainda carrega histórico recente de filiação ao PL, relação com setores da direita e proximidade anterior com Arthur Lira. Mas sua mudança para o PSDB reorganiza o campo eleitoral. Ao sair do partido que abriga o bolsonarismo e assumir uma legenda de centro, ele abre uma porta para tentar dialogar com diferentes públicos, inclusive com parte do eleitorado lulista que não esteja totalmente fechado com o grupo de Renan Filho.
Para Renan, o desafio será impedir que esse espaço cresça. Como ministro de Lula e nome do MDB para a disputa estadual, ele tende a reivindicar a exclusividade política do palanque presidencial em Alagoas. A presença do presidente, a força da máquina federal e a relação histórica com o PT devem ser ativos centrais de sua campanha.
Para JHC, o desafio será outro: convencer o eleitorado de que sua candidatura não é apenas uma dissidência da direita alagoana, mas uma alternativa capaz de dialogar com o centro e com setores que aprovam o governo Lula. A ruptura com Arthur Lira pode ser apresentada como sinal de autonomia. A filiação ao PSDB, como tentativa de reposicionamento. E a ausência de uma candidatura presidencial tucana forte, caso se confirme, pode dar ao ex-prefeito de Maceió margem para construir uma estratégia estadual menos amarrada à disputa nacional.
O paralelo com Pernambuco, portanto, não é perfeito, mas é politicamente útil. Lá, João Campos tenta impedir que Raquel Lyra divida com ele o eleitorado de Lula. Aqui, Renan Filho pode enfrentar uma tentativa semelhante de JHC: não a de tomar o palanque oficial, mas a de criar um palanque alternativo, ambíguo e pragmático, capaz de dizer ao eleitor lulista que a eleição estadual não precisa ser decidida apenas pela lógica nacional.
Em 2026, Alagoas pode assistir a uma disputa em dois níveis. No primeiro, a briga tradicional pelo governo estadual. No segundo, uma batalha simbólica pelo direito de aparecer próximo ao presidente mais popular entre os eleitores nordestinos. Renan entra nessa disputa com a credencial de ministro. JHC tenta entrar pela brecha aberta por sua própria mudança de rota: saiu do PL, afastou-se de Lira e agora busca um lugar menos desconfortável no centro do tabuleiro.
A pergunta que fica é se Lula aceitará, em Alagoas, uma lógica parecida com a de Pernambuco: um palanque oficial e outro tolerado. Se isso ocorrer, a eleição estadual deixará de ser apenas uma disputa entre governo e oposição. Passará a ser também uma disputa pela sombra política do presidente.