CONTRASTE

Propaganda oficial vende “novo mercado”, mas realidade expõe abandono e descaso no Mercado Público de Maceió

Enquanto gestão lançou ontem a primeira fase do espaço com discurso de modernização e comparação a um shopping center, reportagem in loco da Tribuna do Sertão encontrou comerciantes cercados por alagamentos, promessas não cumpridas e estrutura precária

Por Redação Publicado em 05/04/2026 às 15:34
Dona Clara, conhecida como "Flor do Mercado" revela ambiente precário

A propaganda oficial apresentada ontem pela Prefeitura de Maceió, ao lançar a primeira fase do chamado “novo Mercado Público”, tenta vender à população a imagem de um espaço moderno, reorganizado e comparável até a um shopping center. Mas a realidade encontrada pela Tribuna do Sertão, em reportagem in loco, contraria o discurso publicitário e escancara um cenário de precariedade, abandono e profundo descaso com os comerciantes que sobrevivem do mercado.

Longe da maquiagem institucional e da narrativa de modernização, o que a equipe de reportagem constatou foi um ambiente ainda marcado por problemas antigos, agravados em períodos de chuva, falta de estrutura adequada, promessas descumpridas e um sentimento generalizado de frustração entre trabalhadores que, há anos, aguardam melhorias que nunca chegam por completo.

No entorno da lagoa, onde o mercado está situado, a situação relatada por comerciantes mostra que a obra anunciada com entusiasmo oficial não corresponde à vida real de quem precisa diariamente do espaço para trabalhar e garantir sustento. A vitrine da inauguração não apaga o drama enfrentado por permissionários que convivem com alagamentos, prejuízos e improvisos.

Uma das vozes ouvidas pela reportagem foi a de Dona Clara, conhecida no local como a “flor do mercado”. Com a experiência de quem há muitos anos trabalha no espaço, ela relatou as dificuldades enfrentadas, especialmente quando chove.

“Ela fica precária, né? Nas condições de trabalho, horríveis. Enche muito as águas, não tem como caminhar muito, vender, clientes não vêm. Dessa ala não alaga, mas da esquina pra lá, das carnes, ela alaga tudo”, afirmou.

O depoimento desmonta o contraste entre a imagem oficial e a realidade concreta. Quando a água invade parte do mercado, o fluxo de clientes diminui, as vendas despencam e os comerciantes enfrentam prejuízos. Em vez da estrutura moderna prometida, o que se vê é um espaço ainda vulnerável, sem respostas eficazes para problemas básicos.

Questionada sobre o que diria ao prefeito, Dona Clara fez um apelo direto: “Que ele olhasse mais para os comerciantes, né? Porque há muitos anos eu trabalho aqui no mercado, a situação, como eu já vinha dito, é precária”.

Ela também relatou as dificuldades operacionais impostas pela falta de estrutura e pela ausência de melhorias concretas. “A gente tem que ficar fazendo ordeio muitas das vezes, não conseguindo atender o pessoal, levando o lanche, mercadorias e tal. Que ele viesse e olhasse o olhar humano para as pessoas, né? E melhorasse a situação da gente”, pediu.

As críticas não se limitam ao período de chuva. Segundo a comerciante, há falhas constantes de energia, promessas de suporte que não foram cumpridas, divisórias de bancas nunca entregues e ferragens que seguem sem reparo. “Falta de energia direto aqui. Realocação das bancas e prometeram que iriam dar todo o suporte que a gente tá tendo, que, se você for ver, banca por banca aqui, prometeram a divisória das bancas, não deram. Prometeram mexer nas ferragens, não mexeram”, denunciou.

O sentimento predominante entre os trabalhadores é o de abandono. “A gente luta por uma melhoria, mas infelizmente não somos ouvidos, não temos voz”, desabafou Dona Clara, resumindo a percepção de quem se sente excluído do discurso triunfalista apresentado pelo poder público.

A reportagem da Tribuna do Sertão mostra, portanto, que o mercado exibido na propaganda não é o mesmo enfrentado todos os dias pelos comerciantes. A fala final resume bem esse contraste entre a Maceió das peças publicitárias e a Maceió real: “Maceió é massa… até a primeira chuva chegar e mostrar a realidade que ninguém quer filmar.”

Enquanto a gestão tenta transformar a entrega parcial da obra em peça de marketing, a vida no Mercado Público continua exigindo dos trabalhadores resistência diante da precariedade. E a comparação com shopping center, diante do que foi encontrado no local, soa menos como celebração de uma conquista e mais como uma afronta a quem convive diariamente com o abandono.