CULTURA

Enquanto o mundo redescobre "A Odisseia", atores com deficiência na Grécia exploram a dor da guerra

Por Por PETROS GIANNAKOURIS e DEREK GATOPOULOS Associated Press Publicado em 09/08/2026 às 11:32
Eirini Kourouvani, dançarina de cadeira de rodas, Evi Saoulidou e Lydia Fotopoulou se apresentam durante um ensaio geral da tragédia de Eurípides, as mulheres de Tróia, encenado pelo Teatro Nacional da Grécia, no antigo Teatro de Epidauro, na Grécia AP Foto/Petros Giannakouris

EPIDAURO, Grécia (AP) — Enquanto "A Odisseia", de Christopher Nolan, renova o fascínio mundial por Homero, um elenco composto por artistas com e sem deficiência na Grécia encena a outra face dessa guerra.

Não se trata do triunfo dos heróis que retornam, mas do sofrimento que deixaram para trás.

"As Troianas", com um elenco de 22 pessoas, foi encenada em Epidauro, a antiga arena de pedra ao ar livre no sul da Grécia. A apresentação marcou o que os organizadores chamaram de primeiro espetáculo totalmente acessível nos 2.300 anos de história do antigo teatro.

Enquanto Homero acompanhou os guerreiros que navegavam de volta de Troia, o dramaturgo Eurípides — escrevendo cerca de três séculos mais tarde — voltou seu olhar para as ruínas da cidade e para as mulheres, forçadas ao exílio e à escravidão.

O antigo teatro ofereceu uma gama completa de serviços de acessibilidade para a apresentação de 2 de agosto. O público cego recebeu programas em Braille, maquetes táteis e audiodescrição ao vivo, enquanto espectadores surdos acompanhavam as legendas projetadas no alto. Adaptações físicas também melhoraram o acesso em todo o local.

"É a primeira vez que uma apresentação no antigo teatro de Epidauro se torna acessível a todos", disse Greg Polychronidis, medalhista de ouro paralímpico que compareceu ao evento. "Hoje foi uma celebração da igualdade, e isso deve servir de exemplo para todos, para sempre."

Para muitos dos artistas, estar naquele palco antigo já fazia parte da mensagem: uma voz para aqueles frequentemente ignorados. Eirini Kourouvani, integrante do elenco de 58 anos que usa cadeira de rodas, nunca havia pisado no teatro antes.

"É simplesmente grandioso", disse ela. "Sinto meu coração se abrindo na mesma imensidão deste teatro."

Ioanna-Maria Gertsou, uma psicóloga cega, compareceu acompanhada de Babu, seu cão-guia.

"Nós também temos o direito de assistir a espetáculos em pé de igualdade", disse ela, aliviada pelo fato de seu cão ter permanecido quieto durante a peça.

O Teatro Nacional da Grécia produziu o espetáculo, e os serviços de acessibilidade foram elaborados pela organização sem fins lucrativos Liminal, com apoio financeiro do Alpha Bank, da Grécia.

Argyro Chioti, diretora artística do Teatro Nacional, afirmou que esse tipo de produção deveria se tornar a norma, e não a exceção. “Isso foi complexo, não simples. Exigiu meses de planejamento. Custou dinheiro. E exigiu uma expertise organizacional muito específica”, disse ela. “Mas esse é o padrão e são esses os locais que precisamos alcançar — os grandes palcos e os grandes teatros.”