Amanda Knox defende seu show de comédia no festival de Edimburgo, afirmando que ele homenageia sua ex-colega de quarto assassinada
LONDRES (AP) — Amanda Knox, a estudante americana que foi condenada e posteriormente absolvida pelo assassinato e pela agressão sexual contra sua colega de apartamento britânica Meredith Kercher, há 19 anos, na Itália, está se defendendo das acusações feitas pela irmã de Kercher de que seu espetáculo de comédia no festival Edinburgh Fringe, na Escócia, banaliza a violência contra as mulheres.
Knox, hoje com 39 anos, afirmou nesta quinta-feira, em uma publicação no Instagram, que seu espetáculo “homenageia a memória de Meredith Kercher e denuncia a violência que foi cometida contra ela e contra mim”.
O espetáculo se chama “Cartwheel” (“Cambalhota”, em tradução livre), uma referência a uma história segundo a qual Knox teria dado cambalhotas em uma delegacia após a morte de Kercher. A estreia acontece na noite desta sexta-feira, e a apresentação está prevista para permanecer em cartaz durante 11 noites consecutivas no festival anual da capital escocesa, que reúne atrações de comédia stand-up, teatro e música.
O espetáculo é divulgado como a história de uma mulher “se aproximando dos 40 anos, conciliando a maternidade e finalmente encontrando tempo para ficar furiosa com toda aquela história de prisão injusta. Especialmente quando metade do mundo diz para ela superar isso, enquanto a outra metade ainda acredita que ela é culpada”.
Knox era uma estudante de 20 anos em Perugia quando Kercher foi encontrada morta a facadas, em 2 de novembro de 2007, no quarto do apartamento que dividia com Knox e outras duas mulheres italianas.
O caso ganhou repercussão mundial quando as suspeitas rapidamente recaíram sobre Knox e seu namorado havia apenas alguns dias, Raffaele Sollecito. Ela passou quase quatro anos na prisão durante a investigação e o primeiro julgamento pelo assassinato, até ser libertada por um tribunal de apelação em Perugia. O casal foi absolvido pela mais alta corte da Itália em 2015.
Outro homem, Rudy Hermann Guede, natural da Costa do Marfim, acabou sendo condenado pelo assassinato depois que seu DNA foi encontrado na cena do crime. Ele foi libertado em 2021, após cumprir a maior parte de sua pena de 16 anos de prisão.
Knox retornou aos Estados Unidos em 2011, depois de ser libertada pelo tribunal de apelação de Perugia, e desde então se estabeleceu como uma ativista internacional em defesa de pessoas condenadas injustamente. Ela apresenta um podcast com o marido e, no ano passado, publicou um livro de memórias intitulado “Free: My Search for Meaning” (“Livre: Minha Busca por Sentido”, em tradução livre).
A publicação de Knox ocorreu após uma entrevista concedida por Stephanie Kercher, irmã de Meredith Kercher, à BBC, na qual ela afirmou que o espetáculo “normaliza e banaliza a violência contra as mulheres”.
Embora tenha ressaltado que Knox é “naturalmente livre para seguir sua vida como desejar”, Stephanie afirmou que “o problema com esse projeto específico é que se trata de uma comédia”.
“Não se trata de as pessoas acharem que ela é culpada ou inocente. Se outra pessoa estivesse fazendo um espetáculo especificamente sobre Meredith, eu ainda me sentiria da mesma forma. Obviamente, é uma ferida ainda maior pelo fato de isso estar vindo dela, mas acredito firmemente que isso não deveria receber espaço ou visibilidade”, declarou.
Uma petição online pedindo o cancelamento do espetáculo foi criada e, até o momento, reúne mais de 4,4 mil assinaturas. O documento afirma que a apresentação “zomba dos acontecimentos horríveis envolvendo o assassinato de Meredith e tenta, de alguma forma, transformar essa tragédia em entretenimento”.
Knox afirmou que “uma petição para cancelar um espetáculo que ninguém viu, baseada em falsas acusações destinadas a envergonhar e difamar uma mulher injustiçada até silenciá-la, não é um argumento contra ‘Cartwheel’”.
O Edinburgh Fringe, acrescentou ela, “é o lugar perfeito para um espetáculo como este”.