Isadora Canto transforma palpites não solicitados sobre a maternidade em canção-manifesto
Em "Me Deixa Maternar", artista reúne frases dirigidas diretamente às mães e defende o direito de cada mulher conduzir a criação dos filhos com autonomia, respeito e acolhimento
Isadora Canto lança, no dia 14/8, a canção autoral “Me Deixa Maternar”, faixa que coloca em evidência a pressão exercida sobre as mulheres desde a gestação até os primeiros anos de criação dos filhos. Disponível nas plataformas digitais, a música chega durante o Agosto Dourado, período dedicado à conscientização sobre o aleitamento materno, e aborda temas como amamentação, parto, colo, sono, alimentação, disciplina e as mudanças vividas no corpo e na rotina das mães.
A letra foi construída a partir de comentários que atravessam gerações e ainda são repetidos como verdades absolutas: “seu leite é fraco”, “deixa chorar para se acostumar”, “seu colo vai atrapalhar”, “um tapinha não faz mal” e “se fosse meu filho”. Organizadas em sequência, essas frases revelam a contradição entre opiniões que se apresentam como ajuda e a falta de escuta direcionada à mulher que vive a maternidade.
“Essa música nasceu do acúmulo de frases que muitas mães escutam desde a gestação. São comentários que costumam chegar disfarçados de conselho ou preocupação, mas que, repetidos o tempo inteiro, fazem a mulher duvidar do próprio corpo, do próprio instinto e da relação que está construindo com o filho”, explica Isadora Canto.
Inserida no campo da canção autoral brasileira, “Me Deixa Maternar” é conduzida pela oralidade e pela estrutura de uma canção-manifesto. Os versos reproduzem o ritmo insistente das cobranças externas, enquanto o refrão interrompe esse fluxo com uma frase direta: “Me deixa maternar”. A repetição funciona como desabafo, posicionamento e retomada da própria voz diante de tantas interferências.
“Eu quis colocar essas falas uma atrás da outra porque, para muitas mulheres, é exatamente assim que elas chegam: sem pausa, de todos os lados e, muitas vezes, de maneira contraditória. O refrão nasce quando essa mãe já está cansada de justificar cada escolha e precisa estabelecer um limite”, conta a artista.
A composição também percorre experiências ligadas ao parto e ao puerpério. Expressões como “você não sabe parir”, “fica quietinha aguentando a dor” e a referência ao chamado “ponto do marido” apontam para práticas, discursos e violências ainda normalizados. A cobrança sobre a aparência, a vida sexual, o casamento e o tempo necessário para o corpo se recuperar também ganha espaço na narrativa.
Ao escolher o Agosto Dourado para apresentar a música, Isadora amplia a discussão sobre o apoio oferecido às mulheres que amamentam. A obra questiona tanto a desvalorização do leite materno quanto a fiscalização constante sobre o corpo da mãe, lembrando que orientação adequada não deve ser confundida com culpa, pressão ou invasão.
O verso final — “Mas com quem ficou seu filho para você sair assim?” — mostra que o julgamento não termina quando a mãe deixa de estar ao lado da criança. Em “Me Deixa Maternar”, Isadora Canto expõe uma cobrança que muda de forma, mas permanece presente, e reivindica algo simples: que mães possam fazer suas escolhas, pedir ajuda, errar, aprender e existir para além das expectativas impostas por outras pessoas.
Sobre a Isadora Canto
Cantora, compositora e pesquisadora das relações entre música, infância e afeto, Isadora Canto, indicada ao Grammy, é reconhecida por sua atuação delicada e profunda no diálogo entre arte e maternidade. O álbum Vida de Bebê (2006) tornou-se referência entre famílias e educadores por abordar com sensibilidade o vínculo entre pais e filhos. Com voz marcante e composições que tratam da escuta e do cuidado, Isadora transita entre o universo autoral e a reinvenção de clássicos, sempre guiada pela emoção e pela autenticidade.