Leonardo Garcez vive Jorge Laffond no teatro e estreia temporada em Salvador-BA com ingressos esgotados
Ator assume o papel principal de "Jorge Pra Sempre Verão" e relembra como o apelido usado para ofendê-lo durante a infância se transformou em um dos trabalhos mais importantes de sua carreira
Durante anos, Leonardo Garcez ouviu o apelido "Vera Verão" como uma forma de bullying. Ainda criança, antes mesmo de compreender completamente a própria sexualidade, era assim que colegas de escola tentavam diminuí-lo. No entanto, o que antes representava medo e insegurança hoje ganha um significado completamente diferente. Aos 30 anos, o ator, que já esteve em 3% (Netflix), No Mundo da Luna (MAX), Maníaco do Parque (Prime Video) e mais, estreou no teatro como Jorge Laffond, criador da icônica personagem Vera Verão, no espetáculo Jorge Pra Sempre Verão, em cartaz em Salvador até 02 de agosto, dando continuidade ao legado do astro.
O espetáculo, que já está com todas as sessões da temporada esgotadas, é dirigido por Rodrigo França e escrito pela dramaturga Aline Mohamad e Diego do Subúrbio, estrelado por Leonardo Garcez, Aretha Sadick e Aline Mohamad.
Leonardo lembra que, para ele, o ataque carregava dois preconceitos ao mesmo tempo. "Era uma tentativa de ofensa dupla. Por eu ser preto e por ser gay. Durante muito tempo aquilo me causou medo, insegurança e muita tristeza. Hoje eu entendo quem o Jorge foi para o Brasil e para mim. Voltar ao palco como ele é uma forma de mostrar que eles estavam errados e que ser comparado a ele, jamais será ofensivo."
Segundo o ator, revisitar essa história também permitiu compreender como Jorge Laffond ocupou um espaço importante na televisão brasileira em uma época em que a representatividade ainda era extremamente limitada.
"A gente vê o quanto o racismo e o preconceito são danosos. Hoje eu consigo entender a importância que ele teve para abrir caminhos. Interpretar o Jorge também é um processo de cura."
Muito além de Vera Verão
A preparação para o espetáculo foi construída a partir de entrevistas, livros, registros audiovisuais e relatos de pessoas que conviveram com Laffond, além de contar com a preparadora Érica Ribeiro. Leonardo conta que o principal objetivo nunca foi reproduzir a personagem conhecida pelo público, mas encontrar o homem por trás dela.
"A Vera já é muito conhecida. O que eu queria entender era quem era o Jorge quando as câmeras desligavam." Foi durante essa pesquisa que descobriu um aspecto de Laffond que mais o marcou.
"No fundo, ele só queria ser amado. Quando a gente pensa em pessoas pretas, principalmente pessoas LGBTQIA+, muitas vezes o amor também nos é negado. Eu sou casado com um homem preto e, estudando a vida do Jorge, percebi que, apesar de todo o talento e reconhecimento, ele buscava justamente esse acolhimento."
Para Leonardo, interpretar Laffond acabou se tornando uma forma simbólica de devolver esse reconhecimento. "Hoje eu me sinto uma continuidade dessa história. É como se eu pudesse acolher o Jorge e ajudar a manter vivo o legado dele."
Um papel que chegou quatro anos depois
O primeiro contato de Leonardo com o espetáculo aconteceu ainda em 2022, quando participou da seleção para interpretar Jorge Laffond. Na época, outro ator foi escolhido e o projeto seguiu seu caminho. Quatro anos depois, uma ligação mudou completamente os planos.
"O personagem voltou para mim. Às vezes a gente acha que perdeu uma oportunidade, mas ela só estava esperando o momento certo." Como assumiu o protagonista há pouco mais de um mês, precisou acelerar toda a preparação. Além de decorar o texto, aprender todas as marcações e coreografias do espetáculo e assumir a responsabilidade de construir o seu Jorge Laffond, Leonardo também enfrentou o desafio inédito de aprender a andar de salto alto.
Enquanto aguardava a chegada da bota do figurino, chegou a ensaiar com um par emprestado pelo pai de santo, exatamente o mesmo número do ator. "Foi um presente da espiritualidade", resume. "Nunca tinha andado de salto. Parece um detalhe, mas muda completamente o corpo. A forma de caminhar, de ocupar o espaço, de respirar. Quando tudo começou a fazer sentido fisicamente, o personagem também começou a aparecer."
O teatro como refúgio
A relação de Leonardo com a arte começou ainda na infância, na Vila Guacuri, bairro onde nasceu, por meio do projeto social Circo das Artes. Filho de uma educadora e cabeleireira que atuava no espaço, cresceu frequentando oficinas até descobrir o teatro, onde encontrou um ambiente completamente diferente daquele vivido na escola.
"O teatro foi meu refúgio. Enquanto a escola era um ambiente muito hostil, era ali que eu podia criar, brincar e descobrir quem eu era."
Depois vieram os cursos de cinema, teatro e audiovisual e produções como 3% (Netflix), No Mundo da Luna e B.A.: O Futuro Está Morto (HBO Max), além dos longas Behind You, Vale Night e Maníaco do Parque (Prime Video), além de campanhas publicitárias para grandes marcas como Sadia, 99, Google e Mc Donalds. No teatro, atuou em espetáculos como Ensaio para o Baile, Dom Quixote de La Mancha, Sonho de uma Noite de Verão e Quando Anoitece. Ainda assim, o ator afirma que a carreira vive apenas o começo.
"O meu personagem dos sonhos é o próximo. Quero continuar contando histórias que tenham propósito e que façam sentido para quem eu sou."
Ao falar sobre o espetáculo, Leonardo diz que pensa especialmente nos jovens que estarão na plateia e talvez estejam vivendo hoje conflitos semelhantes aos que enfrentou durante a infância.
"Quero que esses meninos saiam do teatro se sentindo abraçados. Que entendam que muitas pessoas vieram antes deles para abrir caminhos e que eles não precisam esconder quem são. O Jorge fez isso por muita gente. Agora é a nossa vez de continuar essa história. O futuro vai ser lindo!".