LUTO NA LITERATURA

Raimundo Carrero, escritor e jornalista pernambucano, morre aos 78 anos

Autor estava internado no Recife e deixa mais de 20 livros, prêmios literários e trajetória ligada ao jornalismo e ao Movimento Armorial

Por Estadao Conteudo Publicado em 16/06/2026 às 14:59
Raimundo Carrero

O escritor e jornalista Raimundo Carrero morreu nesta terça-feira (16), aos 78 anos, no Recife, em Pernambuco. Reconhecido por sua trajetória na literatura brasileira, o autor deixa uma obra que atravessou gerações e consolidou seu nome entre os representantes da cultura nordestina contemporânea.

Segundo informações divulgadas pela TV Globo, Carrero estava internado havia cerca de uma semana no Hospital Esperança, no Recife. De acordo com familiares, ele procurou atendimento médico após sentir dores e recebeu o diagnóstico de um câncer em estágio avançado próximo ao pulmão. O escritor também convivia com sequelas e outras comorbidades decorrentes de dois AVCs sofridos em 2010 e 2015.

Natural de Salgueiro, no Sertão de Pernambuco, Raimundo Carrero construiu uma carreira marcada por romances premiados, atuação jornalística e formação de novos escritores. Ao longo da vida, publicou mais de 20 livros e recebeu reconhecimentos importantes, entre eles o Prêmio Jabuti de 2000, com a obra As Sóbrias Ruínas da Alma.

Entre seus trabalhos mais influentes está A Preparação do Escritor, considerado uma das principais referências sobre escrita criativa no Brasil. Na obra, Carrero apresenta técnicas narrativas, reflexões sobre a construção do texto literário e desafios enfrentados por quem deseja se dedicar à escrita.

Em 2010, o autor venceu o Prêmio São Paulo de Literatura com o romance Minha Alma é Irmã de Deus, publicado pela Record. O livro acompanha a trajetória de uma jovem personagem em uma jornada marcada por questões ligadas à fé, ao fanatismo religioso e à solidão.

A experiência pessoal do escritor também inspirou sua produção literária. Após sofrer um AVC em 2010, Carrero transformou parte do processo de recuperação em matéria-prima para O Senhor Agora Vai Mudar de Corpo, romance autoficcional publicado pela Record que retrata sua luta pela sobrevivência e pela reconstrução da própria identidade após a doença.

Em 2018, a Cepe publicou Condenados à Vida, volume que reúne a tetralogia formada por Maçã Agreste (1989), Somos Pedras que se Consomem (1995), O Amor Não Tem Bons Sentimentos (2008) e Tangolomango (2013). As obras ajudam a compreender a profundidade psicológica e a densidade narrativa presentes em sua produção literária.

O lançamento mais recente de Carrero foi A Vida é Traição, publicado em 2025 pela Record. A obra aborda conflitos humanos, contradições da existência e inquietações que marcaram grande parte da trajetória literária do escritor.

Além da literatura, Carrero teve uma longa passagem pelo Diário de Pernambuco, onde atuou como crítico literário e editor por mais de duas décadas. Ele também integrou o Movimento Armorial, liderado por Ariano Suassuna, a quem costumava se referir como mestre e grande influência intelectual.

Em nota conjunta, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco (Sinjope) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) destacaram que Carrero deixou sua marca no imaginário popular ao criar uma narrativa que atravessou gerações e permanece viva na memória dos pernambucanos.

Velório de Raimundo Carrero

O velório ocorre na Academia Pernambucana de Letras, instituição da qual o escritor era membro desde 2004. O enterro está previsto para ocorrer no Cemitério de Santo Amaro, no Recife, às 16h.

Em nota, a família agradeceu as manifestações de carinho recebidas e ressaltou que Carrero dedicou sua vida à literatura “com paixão, sensibilidade e compromisso”. A Academia Pernambucana de Letras lamentou a perda de “um dos mais importantes escritores pernambucanos de sua geração”.

Em reconhecimento à relevância de sua trajetória, o Governo de Pernambuco decretou luto oficial de três dias.