LITERATURA

Igor dos Santos Mota lança livro Se essa Rua fosse minha

Finalista de prêmios internacionais, o poeta baiano e radicado na Inglaterra usa a linguagem da construção civil para destrinchar o Brasil.

Por Redação com Assessoria Publicado em 03/06/2026 às 15:08
Igor dos Santos Mota Cullen Marshall

O que sustenta a estrutura de um país quando decidimos olhar para baixo do asfalto de sua história oficial? No livro Se essa Rua fosse minha Igor dos Santos Mota, o jovem poeta, professor e pesquisador baiano propõe uma resposta contundente: o Brasil se ergue e se mantém pela força braçal e invisibilizada da classe trabalhadora. Publicada pela Editora Mondru, a obra constrói um mosaico lírico potente, fazendo do poema uma ferramenta de escavação social, racial e política.

O projeto gráfico e literário chega ao mercado chancelado por grandes nomes da cultura nacional. A capa é ilustrada por Gabriel Bastos, e o texto de quarta capa traz a assinatura da consagrada escritora Jarid Arraes — vencedora dos prêmios APCA e Biblioteca Nacional. Arraes não poupou elogios ao livro de Mota, definindo a escrita do autor como uma manifestação "nova, corajosa e de uma genialidade chocante", sintetizando o que há de mais desejável na poesia contemporânea brasileira.

A arquitetura do livro inspirada nos canteiros de obras

O grande diferencial estético de Se essa Rua fosse minha reside em sua divisão estrutural. O livro é deliberadamente organizado em três partes batizadas de "fiadas" — termo técnico que designa as fileiras de tijolos assentadas em uma parede de alvenaria. Essa escolha formal não é um mero capricho estético, mas uma homenagem direta às origens do autor. Nascido no povoado de Bela Vista, em Cansanção, no sertão da Bahia, Igor cresceu cercado por familiares que dedicam a vida à construção civil, ao trabalho nas minas e às estradas como caminhoneiros.

A primeira parte da obra, intitulada Confissões do Lodo, revisita o passado nacional a partir dos traumas históricos que ainda ecoam no cotidiano, partindo da premissa de que todo poema genuíno nasce de um engasgo social. A segunda fiada, Autópsia das Entranhas, lança mão de uma sátira afiada ao criar um crítico de arte fictício. Por meio dessa metalinguagem, o autor ironiza e tenciona o purismo acadêmico que tenta separar a obra da biografia do artista, um mecanismo que, segundo ele, historicamente serviu para marginalizar as produções fora do eixo dominante.

Por fim, a Poética das Fissuras adota um tom radical ao quebrar as normas gramaticais tradicionais para abraçar a oralidade e dar espaço àquilo que o autor conceitua como a "língua caatingueira". É nesse bloco onde surgem nomes próprios e as vozes reais da periferia que quase nunca ocupam o centro das atenções literárias.

O olhar do imigrante e as feridas do colonialismo

Com apenas 26 anos, Igor dos Santos Mota já acumula bagagem em importantes certames literários, figurando como finalista do DPF Prize for Poetry e conquistando o topo no Concurso Noite da Poesia. Licenciado em Letras pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), o autor atualmente reside no Reino Unido, onde desenvolve seu doutorado em Educação na Universidade de Derby.

A experiência como imigrante na Europa foi o catalisador definitivo para os temas do livro. Ao escrever os poemas cruzando fronteiras geográficas ao longo de três anos, Mota percebeu o peso contínuo do preconceito e do passado colonial, mas também identificou pontos de conexão essenciais. "Foi fora do país que enxerguei a permanência da dor colonial e, ao mesmo tempo, uma rede de solidariedade possível entre os trabalhadores de diferentes nações", conclui o autor.

Sobre o autor: Igor dos Santos Mota nasceu no sertão baiano no ano de 2000. Poeta LGBT+, professor e tradutor, pesquisa as vertentes da educação e da literatura sob uma perspectiva decolonial. É autor das obras Gravar o Instinto e meu pescoço cansado de seguir teu rastro.