Flávia Iriarte lança o livro 'Instruções para desaparecer devagar'
Conhecida por formar milhares de autores, editora estreia no romance com suspense psicológico que desafia os recortes de privilégio e gênero.
Após passar mais de uma década moldando os bastidores da literatura nacional, orientando mais de 8 mil escritores e publicando centenas de novos nomes, Flávia Iriarte faz o movimento inverso em sua carreira. Aos 40 anos, a consagrada editora e mentora assume o papel de romancista com o livro Instruções para desaparecer devagar, lançado pela editora Faria e Silva.
A obra se afasta do universo corporativo dos livros para cravar o dedo em uma ferida social incômoda: a consciência do privilégio é capaz de gerar mudanças reais ou se traduz apenas em culpa mal digerida? O suspense psicológico — que já conta com elogios de escritoras como Carola Saavedra e Bruna Maia — utiliza uma tensão constante para expor as fraturas invisíveis da sociedade brasileira.
Uma tragédia contemporânea sobre classe e gênero
A trama de Instruções para desaparecer devagar Flávia Iriarte acompanha a relação entre duas jovens com realidades opostas. Alice é branca, rica e carrega o peso de uma culpa difusa por sua condição social. Em uma tentativa de reparação simbólica, ela convida Bárbara, sua colega de classe nascida na periferia, para uma viagem custeada por sua família. O que se desenha como um gesto de generosidade transforma-se rapidamente em um jogo silencioso de poder, hierarquia e ressentimentos, interrompido por um forte episódio de violência.
Para construir a atmosfera sufocante do livro, a autora se inspirou em uma experiência pessoal de vulnerabilidade vivida durante uma viagem ao Camboja em 2016. "Acho que toda mulher conhece esse estado. A sensação de que o perigo está sempre à espreita", explica Flávia. O livro funciona como uma releitura da estrutura trágica aristotélica, mas com uma roupagem atualizada: o destino das personagens não provém da fúria dos deuses, mas das forças estruturais do capital, do gênero e da raça.
A escrita adota um tom deliberadamente seco e contido, sem floreios, bebendo diretamente de influências cinematográficas do diretor Michael Haneke e da prosa visceral de J.M. Coetzee e Ottessa Moshfegh.
Do bastidor para o centro da cena literária
A transição de Flávia para a ficção de fôlego longo é um marco natural para quem dita tendências no setor. Fundadora da Editora Oito e Meio e da Carreira Literária — comunidade digital que impacta cerca de 100 mil pessoas diariamente —, ela também atuou na implementação da pós-graduação em Escrita Criativa da Uniítalo/NESPE e venceu o Prêmio Jovens Talentos da Indústria do Livro em 2016.
Com essa bagagem, a autora não se esquiva de criticar a própria indústria onde opera. Para Flávia, o mercado editorial tradicional ainda concentra muito poder nas mãos de poucas famílias ricas do eixo Rio-São Paulo. É nesse cenário que ela enxerga a urgência das editoras independentes e das ferramentas de formação de autores, espaços capazes de descentralizar o debate público e trazer novas vozes para o papel.
Com o lançamento de Instruções para desaparecer devagar, Flávia Iriarte consolida sua transição dos bastidores para os holofotes da literatura contemporânea. A autora já se dedica ao próximo projeto, focado nos impactos de uma tragédia comum na vida de três amigos.
Sobre a autora: Carioca que adotou Brasília como lar, Flávia Iriarte é graduada em Cinema pela UFF e mestre em Literatura pela PUC-Rio. É fundadora da Carreira Literária e autora da coletânea de contos Todo homem naufraga.
