Júri da Bienal de Veneza renuncia em protesto contra participação de russos e israelenses
Decisão coletiva ocorre dias antes da abertura do evento e expõe tensões sobre presença de artistas de países investigados por crimes de guerra
O júri internacional da 61ª Bienal de Arte Contemporânea de Veneza apresentou sua renúncia nesta quinta-feira, 30, a apenas nove dias da abertura oficial do evento na cidade italiana. O protesto revela a crescente tensão nos bastidores após a confirmação da participação de artistas da Rússia e de Israel na exposição, considerada a mais relevante do setor. A comissão era presidida pela brasileira Solange Farkas, fundadora e diretora da Associação Cultural Videobrasil.
O anúncio da renúncia foi divulgado pelo site e-flux, especializado em notícias de arte contemporânea. No comunicado, os jurados afirmam: "A partir de 30 de abril de 2026, nós, o júri internacional selecionado por Koyo Kouoh, Diretora Artística da 61ª edição da Bienal de Veneza — In Minor Keys (Em Tons Menores) —, renunciamos aos nossos cargos. Fazemos isso em reconhecimento à nossa Declaração de Intenções emitida em 22 de abril de 2026".
Além de Farkas, assinam o documento os jurados Zoe Butt, Elvira Dyangani Ose, Marta Kuzma e Giovanna Zapperi.
A organização da Bienal de Veneza foi procurada para comentar a decisão, mas não respondeu até a publicação desta matéria. O mesmo ocorreu com Solange Farkas, que também foi contatada. O espaço segue aberto para manifestações.
Na declaração de intenções mencionada, a comissão expressava o desejo de excluir da premiação artistas provenientes de países acusados de crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia.
Embora o texto não cite nações diretamente, o TPI mantém investigações contra o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e seu ex-ministro da Defesa, Yoav Gallant, além de ter expedido mandado de prisão contra o presidente russo, Vladimir Putin, por crimes de guerra.
Entre os representantes de Israel, o artista Belu-Simion Fainaru participará com uma obra no Arsenale, o espaço mais prestigiado da Bienal. Em entrevista ao The New York Times, Fainaru declarou que não deve ser discriminado e pediu que sua arte seja avaliada apenas pela "qualidade e mensagem". A delegação russa conta com cerca de 40 artistas confirmados.
Em publicação no Instagram há cinco dias, Fainaru compartilhou uma foto da preparação de sua instalação e comentou que "infelizmente, a Bienal pode acabar sendo menos sobre arte e mais sobre o mundo turbulento que a rodeia". "Mas ainda estamos fazendo arte e acreditando no diálogo", completou.
Após a renúncia do júri, a Bienal de Veneza transferiu a cerimônia de premiação de 9 de maio para 22 de novembro. Segundo nota oficial, serão concedidos dois prêmios que seguirão "o princípio de inclusão e igualdade de tratamento".