Globo de Ouro estreia no Brasil sob clima de conquista, mas expõe desafios
Primeira edição do Globo de Ouro fora dos EUA celebra avanços do cinema brasileiro, mas revela obstáculos do setor.
O clima era de encantamento entre os convidados do Golden Globe Tribute Gala, primeira edição do Globo de Ouro realizada fora dos Estados Unidos, na noite da última quarta-feira, 18. Atores, atrizes e produtores presentes relataram ao Estadão que enxergam o evento como um reconhecimento ao bom momento vivido pelo cinema brasileiro.
O momento escolhido para a realização do evento não foi por acaso. 'Ainda Estou Aqui' conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025 e, no Globo de Ouro de 2026, Wagner Moura recebeu o prêmio de Melhor Ator em Filme de Drama por 'O Agente Secreto' — um ano após Fernanda Torres vencer na categoria feminina. Para os presentes no Copacabana Palace, a noite parecia uma consequência natural dessas conquistas.
"Acho que é a consolidação de um processo lindo que já está acontecendo há alguns anos", afirmou Lázaro Ramos, que apresentou a cerimônia ao lado de Bruna Marquezine. Ele destacou uma frase marcante dita pelos organizadores ao convidá-lo: "A gente quer celebrar a excelência do cinema brasileiro." Para Ramos, o evento sinaliza novas oportunidades. "Espero que seja um anúncio de mais atenção para os próximos filmes. Em 2026, ainda temos muito filme bom para mostrar."
O clima festivo dominava os bastidores, impulsionado não apenas pela farta oferta de comidas e bebidas — com champagne à vontade e um bar movimentado —, mas também pela sensação geral de celebração do cinema nacional. Entre os convidados, estavam nomes internacionais como Kaya Scodelario, Daniela Melchior e Famke Janssen, além de grandes nomes da dramaturgia brasileira, como Antonio Fagundes, o homenageado Antonio Pitanga e Marjorie Estiano.
O escritor e roteirista Raphael Montes, autor da novela 'Beleza Fatal', resumiu o sentimento: "Só o fato de ter esse evento já mostra interesse no que a gente está fazendo aqui. É uma atenção que não vem à toa. Estamos chamando a atenção do mundo inteiro."
Sophie Charlotte lembrou que os dois filmes brasileiros mais celebrados recentemente têm forte carga política. "Estamos em um ano de eleição, então não é à toa. O cinema tem um papel importante nessa construção. Precisamos entender nossa história para fazer escolhas acertadas", pontuou.
Desafios persistem
Apesar do clima de celebração, nem todos estavam apenas comemorando. O diretor Bruno Barreto, com décadas de experiência na indústria, trouxe um dado preocupante: 55% dos filmes brasileiros lançados no último ano não chegaram a mil espectadores. "Indústria sem público não existe", afirmou. Para ele, o reconhecimento internacional é legítimo, mas convive com uma contradição ainda não solucionada pelo mercado doméstico. "Isso aqui são exceções. Você está fazendo um filme para quem?"
Vera Fischer compartilhou do alerta, mas com tom de urgência. "A gente faz cinco filmes e eles fazem milhões por ano", comparou, referindo-se à indústria americana. "Não podemos realmente decolar se produzirmos tão pouco." Para ela, a atual janela de oportunidades não pode ser desperdiçada. "Quanto mais eu puder estar dentro, quero estar. O Brasil só está subindo", afirmou.
Para Suely Franco, atriz com décadas de carreira no teatro, cinema e televisão, o saldo da noite foi claro. "Isso valoriza nosso trabalho", disse, emocionada. "A alegria dos colegas, todo mundo junto. Isso é muito legal e aumenta nosso prestígio."