Mudanças bruscas de comportamento em idosos acendem alerta — caso de Roberto Carlos ajuda a ilustrar reflexão da geriatria
Uma publicação da médica geriatra Gizela Kelmann trouxe à tona uma reflexão importante e necessária sobre o comportamento de pessoas idosas e os julgamentos precipitados que frequentemente surgem nas redes sociais e no convívio familiar.
Ao comentar episódios recentes envolvendo o cantor Roberto Carlos, alvo de críticas após vídeos em que aparece mais ríspido durante apresentações, a especialista destacou que mudanças bruscas de comportamento em idosos que sempre foram afetuosos, educados e carismáticos devem ser encaradas como sinais de alerta, e não como falhas de caráter ou simples “mudança de personalidade”.
Segundo a médica, na geriatria é consenso que alterações comportamentais significativas em pessoas entre 70 e 80 anos dificilmente ocorrem de forma natural e isolada. “Não é personalidade e muito menos mudança de caráter”, reforça. Em muitos casos, essas atitudes estão relacionadas a alterações da chamada cognição social, função cerebral responsável pela empatia, pela percepção do impacto das próprias palavras e pela regulação das respostas emocionais e sociais.
Quando essa função é comprometida, explica Gizela Kelmann, o idoso pode passar a parecer insensível, inadequado ou ríspido, mesmo sem intenção de ferir. “É uma mudança que vem do cérebro, não da vontade”, pontua. Entre as possíveis causas estão demências, especialmente aquelas que afetam o comportamento, além de quadros de depressão, ansiedade, sofrimento psíquico ou até efeitos colaterais de medicamentos.
A geriatra também faz um alerta importante: não é possível estabelecer diagnósticos com base em poucos vídeos ou episódios isolados, que podem estar fora de contexto. No caso de figuras públicas, situações pontuais podem ter sido provocadas por fatores externos, como algo ocorrido no ambiente ou na plateia.
Ainda assim, Gizela reforça que a discussão vai muito além de casos famosos. “Essa reflexão vale, principalmente, para dentro de casa”, afirma. Quando um idoso que sempre foi respeitoso passa a humilhar cuidadores, maltratar familiares ou apresentar comportamentos agressivos, isso não deve ser normalizado nem rotulado como “jeito da idade”.
A orientação da especialista é clara: é preciso buscar avaliação médica e investigação adequada. Em muitos casos, com diagnóstico correto e tratamento, há melhora significativa do quadro, evitando o agravamento de doenças que, quando negligenciadas, podem trazer sofrimento tanto para o idoso quanto para quem convive com ele.
A publicação repercutiu positivamente por estimular empatia, informação e responsabilidade no olhar sobre o envelhecimento. Antes de julgar, a mensagem é entender — e, sobretudo, cuidar.