ANÁLISE POLÍTICA

Que ditadura é essa, Flávio, que elege seus dois irmãos, a madrasta e o tio?

Senador chama o Brasil de “regime de exceção” para justificar saída do país, mas o sistema eleitoral que ataca acaba de garantir quatro mandatos à sua família no Congresso

Por Redação Publicado em 31/10/2026 às 11:10
Que ditadura é essa, Flávio, que elege seus dois irmãos, a madrasta e o tio?

O Brasil descrito por Flávio Bolsonaro como um “regime de exceção” é o mesmo em que dois irmãos, sua madrasta e seu tio acabaram de conquistar mandatos no Congresso Nacional. Enquanto o senador tenta justificar sua saída para os Estados Unidos com alegações de perseguição, os resultados eleitorais apresentam uma pergunta que ficou sem resposta no pronunciamento: que ditadura é essa que permite à sua família disputar eleições e ampliar sua presença nas principais instituições políticas do país?

Não se trata de uma referência genérica a aliados. São parentes próximos. Michelle Bolsonaro, madrasta de Flávio, foi eleita senadora pelo Distrito Federal. Carlos Bolsonaro, seu irmão, conquistou uma cadeira no Senado por Santa Catarina. Ambos foram eleitos pelo PL e terão mandatos de oito anos.

Na Câmara dos Deputados, Jair Renan Bolsonaro, também irmão de Flávio, foi eleito por Santa Catarina. Renato Bolsonaro, irmão de Jair Bolsonaro e, portanto, tio do senador, conquistou uma vaga por São Paulo. São quatro integrantes da família eleitos no primeiro turno de 4 de outubro.

A suposta exclusão política do clã, portanto, encontra uma dificuldade bastante concreta: dois senadores e dois deputados federais escolhidos pelos eleitores. Faltou combinar a narrativa de uma família impedida de participar da vida política com os resultados que levarão seus integrantes ao Congresso.

Na transmissão de sexta-feira, 30 de outubro, Flávio afirmou que as instituições brasileiras estariam “completamente sequestradas e tomadas” e apresentou sua permanência no exterior como uma maneira de preservar a liberdade de expressão. Também voltou a levantar suspeitas sobre a eleição presidencial, sem apresentar provas de fraude durante o pronunciamento.

O contraste aparece dentro da própria fala. Ao agradecer a votação que recebeu, declarou que seus votos “realmente vieram de eleitores reais”. A formulação sugere uma distinção que ele não demonstrou: seus eleitores seriam autênticos, enquanto a escolha dos que votaram no adversário ficaria sob suspeita.

O eleitor de Lula não se torna menos real porque contrariou a vontade de Flávio. E a legitimidade do voto não pode depender do sobrenome de quem o recebe.
Segundo o resultado oficial divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral, Lula foi reeleito com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%. São quase 60 milhões de votos que lhe conferem representatividade política, mas não a maioria necessária para ocupar a Presidência.

O retrato institucional do Brasil também não se resume à avaliação do candidato derrotado. No relatório Freedom in the World 2026, a organização internacional Freedom House classifica o país como livre e o descreve como uma democracia com eleições competitivas. O documento não ignora problemas: aponta corrupção, violência política e riscos enfrentados por jornalistas e ativistas. Reconhecer essas dificuldades, porém, é diferente de declarar que o país deixou de ser uma democracia.

A eleição de familiares, isoladamente, não demonstra que toda decisão judicial seja correta nem torna as instituições imunes a críticas. Mas exige coerência de quem denuncia um sistema supostamente fechado à oposição enquanto seus parentes conquistam mandatos por esse mesmo sistema.
Flávio tem o direito de criticar o governo, questionar decisões e apresentar denúncias acompanhadas de provas. O que seu pronunciamento não oferece é uma demonstração de que a derrota eleitoral e as medidas judiciais contra ele sejam evidências de uma ditadura.

No caso de sua saída do país, há uma apuração concreta. A Polícia Federal informou que o senador foi intimado sobre medidas que incluíam a proibição de deixar o Brasil e que não entregou eventuais passaportes de outras nacionalidades no prazo determinado. A corporação investiga o descumprimento das ordens judiciais. A alegação de perseguição apresentada por Flávio não substitui o esclarecimento desses fatos.


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Há ainda outra contradição no pronunciamento: ao mesmo tempo em que descreve as instituições como tomadas, Flávio convoca aliados a disputar o comando do Senado e indica Rogério Marinho para a presidência da Casa. Ou seja, aposta na competição política dentro das instituições que procura desqualificar.

A democracia permite que Michelle, Carlos, Jair Renan e Renato vençam suas disputas. Permite também que Flávio perca a dele. Não existe obrigação de o eleitor entregar um pacote completo de mandatos a uma família.

O Brasil não vira ditadura porque um Bolsonaro perdeu. Democracia não é a garantia de vitória do clã - é o direito de o povo escolher, inclusive quando a escolha desagrada a ele.