POLÍTICA

Flávio Bolsonaro se declara presidente em carta polêmica; Tarcísio apela à legalidade

Senador criticou resultados eleitorais após fugir para os EUA e recebeu resposta do TSE.

Por Melissa Duarte, Aguirre Talento, Naomi Matsui, Vinícius Valfré, Ricardo Corrêa, Marcelo Godoy, Bianca Gomes e Lavínia Kaucz Publicado em 29/10/2026 às 07:00
Flávio Bolsonaro Reprodução

Após deixar o Brasil em direção a Miami, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que foi derrotado na corrida presidencial, divulgou na quarta-feira, 28, uma carta na qual agradece aos presidentes da Argentina, Javier Milei, e dos Estados Unidos, Donald Trump. Em tom que muitos consideram golpista, ele se autodenominou o "verdadeiro presidente eleito do Brasil". Essa foi a primeira manifestação pública de Flávio após sua saída do País.

Flávio e sua família deixaram o Brasil de carro na terça-feira, 27. Eles cruzaram a fronteira com a Argentina e, no final da noite, embarcaram em um jato particular no Aeroporto Internacional de Puerto Iguazú, aterrissando na Flórida na quarta pela manhã, por volta das 10h30, no horário de Brasília.

Para sair do Brasil, Flávio utilizou seu passaporte italiano para entrar na Argentina e seu passaporte diplomático para chegar aos EUA, uma vez que a Polícia Federal havia cancelado seus documentos brasileiros, que não poderiam ser usados. A viagem ainda incluiu uma escala no Equador para abastecimento.

Logo após a chegada aos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro, sem fornecer provas, classificou o resultado do segundo turno das eleições brasileiras como uma "fraude eleitoral".

A carta do senador recebeu uma resposta formal do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, que afirmou que as eleições do último domingo foram realizadas "dentro da mais absoluta normalidade" e que foram "as mais inclusivas da história da República brasileira". O ministro também ressaltou que todos os questionamentos feitos dentro do devido processo legal serão analisados e respondidos.

Por outro lado, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que também é visto como uma figura proeminente para a eleição presidencial de 2030, discordou da postura adotada por Flávio. Apesar de reconhecer a indignação dele, Tarcísio reforçou a necessidade de respeitar os resultados eleitorais, afirmando: "A eleição acabou e agora é preciso olhar para a frente".

A carta de Flávio, que foi distribuída na internet por seus apoiadores e pelo próprio senador, existe em três versões diferentes até a noite de quarta. Na primeira versão, constava um brasão com a designação "Estados Unidos do Brazil" e a data de 15 de novembro de 1889, a qual foi posteriormente modificada nas versões subsequentes para corrigir o nome do país.

Em seus agradecimentos, Flávio menciona o presidente Milei e Trump, destacando a importância da liberdade de expressão. Questionado sobre a situação, Trump optou por não fazer comentários.

Nas eleições, Flávio Bolsonaro foi derrotado em uma disputa acirrada, obtendo 48,22% dos votos válidos, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito com 51,79% dos votos, o que representa uma diferença de 4,4 milhões de votos.

A Justiça Eleitoral e os partidos representados no Congresso reconheceram a vitória de Lula, incluindo o PL, do qual Flávio faz parte. Seu vice, Alfredo Gaspar (PL-AL), também confirmou o resultado.

No conteúdo da carta, Flávio criticou a prorrogação do horário de votação, caracterizando a medida como "atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula", e alegou que a decisão teria ampliado em 10 milhões o número de votos de Lula. O TSE, contudo, informou que os votos adicionais após o horário regular foram inferiores aos registrados em eleições anteriores.

Flávio também fez comparações com figuras históricas que partiram em exílio, mencionando políticos de diversas origens e eras, e fez acusações a um ministro do Supremo Tribunal Federal, embora não o tenha nomeado diretamente.

Um de seus advogados, Tracy Reinaldet, expressou surpresa com a fuga do senador, afirmando que havia um entendimento prévio para que ele entregasse seus passaportes à PF. Registros migratórios indicam que Flávio ingressou na Argentina com um passaporte italiano e deixou Puerto Iguazú em voo para os Estados Unidos.

Um dia após as eleições, Flávio havia gravado um vídeo afirmando que permanência no Brasil era sua intenção e de que entregaria o passaporte às autoridades.