POLÍTICA EM ALAGOAS

JHC precisa dialogar com Lula reeleito: haverá espaço para Alfredo Gaspar e seu grupo no governo?

PL participou da vitória estadual, elegeu dois deputados e ajudou no tempo de rádio e TV; filho de Gaspar já ocupou secretaria de JHC, mas o cenário nacional impõe novos cálculos à aliança

Por Redação Publicado em 28/10/2026 às 08:52
Gaspar ficará sem mandato, mas seu partido continuará com presença na Assembleia, onde JHC precisará negociar projetos e construir sustentação

O PL esteve ao lado de JHC, contribuiu para a estrutura da campanha e ajudou a compor o tempo de rádio e televisão da coligação vencedora. Alfredo Gaspar também integrou essa aliança. Agora, derrotado na disputa pela Vice-Presidência e sem novo mandato para fevereiro, o deputado se encontra diante de uma pergunta que interessa à política alagoana: haverá lugar para ele, para o filho ou para seu grupo no governo JHC?

A questão tem antecedentes concretos. A aproximação entre os dois não ficou restrita ao palanque. Em julho de 2023, Carlos Mendonça Neto, filho de Alfredo Gaspar, foi anunciado para a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Habitacional de Maceió, na gestão de JHC. A própria prefeitura registrou sua atuação à frente da pasta. Ele anunciou a saída em abril de 2024.

Portanto, discutir espaços para o grupo de Gaspar não é inventar uma relação política. Ela já teve expressão no primeiro escalão municipal. O que permanece em aberto é se essa participação será retomada no governo estadual, por quais nomes e com qual dimensão.

O PL não saiu de mãos vazias da eleição em Alagoas. Conquistou duas cadeiras na Assembleia Legislativa: Cabo Bebeto, com 99.165 votos, e Leonardo Dias, com 17.178. Bebeto foi o estadual mais votado do estado. Na Câmara dos Deputados, porém, a legenda não elegeu nenhum representante por Alagoas. Delegado Fábio Costa, frequentemente associado ao mesmo campo político, foi reeleito pelo PP, não pelo PL.

Essa distinção é decisiva. Gaspar ficará sem mandato, mas seu partido continuará com presença na Assembleia, onde JHC precisará negociar projetos e construir sustentação. Há peso político a considerar, embora os mandatos de Bebeto e Dias não possam ser tratados como patrimônio pessoal de Gaspar.

Também existe a contribuição eleitoral. O documento do TRE-AL sobre a distribuição da propaganda registra o PL na composição do horário da coligação Alagoas Gigante. Não foi uma cessão pessoal de tempo pelo deputado, mas participação partidária na estrutura que levou JHC à vitória.

Reconhecer essa contribuição, entretanto, não significa admitir que uma campanha produza direito adquirido a cargos públicos. É justamente na passagem do palanque para o governo que as prioridades ficam mais claras.

O cenário nacional acrescenta uma dificuldade. Na terça-feira (27), Gaspar reafirmou solidariedade a Flávio Bolsonaro, falou em “perseguição implacável” e prometeu lealdade ao aliado. Não houve, portanto, afastamento político após a derrota da chapa presidencial.

A narrativa de perseguição não se torna comprovada porque um aliado a repete. Questionar decisões judiciais é um direito; transformar investigações em uma conspiração exige demonstração. Ao aderir a esse discurso, Gaspar assume uma posição que ultrapassa a solidariedade pessoal e o mantém identificado com o confronto do bolsonarismo com as instituições.

Para JHC, uma eventual nomeação de Gaspar poderia representar reconhecimento à parceria eleitoral. Mas também colocaria dentro do governo uma das principais figuras da chapa derrotada por Lula, precisamente quando o governador eleito terá de construir uma relação institucional com o presidente reeleito.

Isso não autoriza prever retaliações de Brasília nem afirmar que Lula vetaria qualquer nome. A relação entre União e estado deve servir à população, não às conveniências partidárias. O problema é o sinal político: qual mensagem JHC pretende transmitir com a composição de sua equipe?

Há mais de um caminho. O governador eleito pode dialogar com o PL por meio de sua bancada, incorporar outros integrantes do grupo ou eventualmente abrir espaço ao próprio Gaspar. O histórico municipal mostra, inclusive, que a participação política pode ocorrer por intermédio de familiares, como aconteceu com Carlos Mendonça Neto. Nada disso está confirmado para a futura administração estadual.
É essa escolha que torna a pergunta relevante. JHC acomodará um aliado que participou da campanha ou buscará marcar distância do discurso nacional ao qual Gaspar continua vinculado? E, se decidir preservar essa parceria dentro do governo, o espaço será do deputado, do filho ou de outro nome de seu grupo?

Não há anúncio de convite ou negociação nas fontes consultadas. Há uma aliança comprovada, um histórico de participação na prefeitura e uma decisão política por tomar.

O PL tem dois deputados estaduais. Gaspar ficará sem cadeira no Congresso. JHC terá de mostrar quanto da parceria eleitoral pretende levar para dentro do Palácio República dos Palmares.