JHC parabeniza Lula após silêncio na campanha, enquanto Rodrigo Cunha segue sem se manifestar
Prefeito de Maceió não comentou publicamente a vitória presidencial; silêncio chama atenção porque Jair Bolsonaro defendeu, em 1999, a permanência no mandato de Talvane
O comportamento das duas principais lideranças do grupo que governa Maceió tomou caminhos diferentes depois da confirmação da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). JHC (PSDB), governador eleito de Alagoas, rompeu o silêncio mantido durante a campanha presidencial e parabenizou Lula. Rodrigo Cunha (Podemos), atual prefeito da capital, ex-vice-prefeito de JHC e ex-senador da República, permaneceu sem se manifestar publicamente até agora.
Durante o segundo turno, JHC não declarou voto nem anunciou apoio formal a Lula ou a Flávio Bolsonaro (PL). A neutralidade provocou cobranças de setores da direita, especialmente porque a coligação que o elegeu governador contava com a participação do PL.
A manifestação de JHC somente ocorreu depois da confirmação do resultado das urnas. Em publicação feita próximo da meia-noite de domingo (25), o governador eleito reconheceu a vitória do presidente e defendeu uma relação institucional entre Alagoas e o governo federal.
“Parabenizo o presidente Lula pela vitória nas urnas. Alagoas estará ao lado do Brasil, fortalecendo uma parceria institucional baseada no diálogo, no respeito e no compromisso com a população”, escreveu.
Depois de receber críticas de eleitores bolsonaristas, JHC voltou às redes sociais e afirmou que a campanha havia terminado. Segundo ele, seria o momento de “desarmar os palanques” e trabalhar por toda a população alagoana.
A declaração representa uma mudança de postura em relação ao período eleitoral. JHC atravessou o segundo turno sem dizer publicamente em quem votaria e sem aderir formalmente a nenhum dos dois presidenciáveis. Após o resultado, porém, procurou abrir imediatamente um canal político e administrativo com o Palácio do Planalto.
Rodrigo Cunha permanece em silêncio
Rodrigo Cunha, que assumiu definitivamente a Prefeitura de Maceió depois da renúncia de JHC para disputar o governo estadual, ainda não havia se manifestado sobre a reeleição de Lula até a consulta realizada nesta terça-feira (27).
Não foi localizada nas redes sociais do prefeito qualquer publicação parabenizando o presidente, reconhecendo o resultado das urnas ou comentando a eleição nacional. Também não havia nota institucional nos canais oficiais da Prefeitura de Maceió.
Na segunda-feira (26), o portal do município publicou diferentes notícias administrativas, incluindo uma matéria sobre a antecipação do salário dos servidores, mas não registrou qualquer declaração do chefe do Executivo municipal sobre o resultado presidencial.
O silêncio ganha peso político porque Rodrigo Cunha não é apenas o prefeito da capital. Ele exerceu mandato no Senado entre 2019 e 2024, foi vice-prefeito e secretário municipal na gestão de JHC e integra o grupo que continuará controlando a Prefeitura de Maceió depois da posse do governador eleito.
Também chama atenção porque Rodrigo carrega uma história familiar diretamente relacionada a Jair Bolsonaro, pai do candidato derrotado Flávio Bolsonaro.
O assassinato de Ceci Cunha
A mãe de Rodrigo, a médica e então deputada federal Ceci Cunha, foi assassinada em 16 de dezembro de 1998, logo depois de ser diplomada para um novo mandato na Câmara dos Deputados.
Ceci foi morta junto com o marido, Juvenal Cunha, e outros dois familiares. O crime ocorreu no bairro da Gruta de Lourdes, em Maceió, e ficou conhecido nacionalmente como Chacina da Gruta.
As investigações concluíram que o assassinato foi encomendado por Talvane Albuquerque, primeiro suplente interessado em assumir o mandato de Ceci na Câmara. Após a morte da deputada, Talvane chegou a tomar posse na vaga, mas teve o mandato cassado em abril de 1999.
Em 2012, ele foi condenado como mandante da chacina a 103 anos e quatro meses de prisão.
Posteriormente, a pena foi reduzida para 92 anos, nove meses e 27 dias. O próprio registro biográfico da Câmara dos Deputados informa que Talvane perdeu o mandato por sua condição de autor intelectual do assassinato de Ceci Cunha.
Bolsonaro defendeu o mandato de Talvane
Em 7 de abril de 1999, quando a Câmara analisou a cassação, Jair Bolsonaro, então deputado federal pelo PPB do Rio de Janeiro, foi o único parlamentar a discursar publicamente contra a retirada do mandato de Talvane Albuquerque.
Na época, Talvane ainda era acusado formalmente, pois sua condenação judicial aconteceria somente anos depois. Bolsonaro alegou que não havia certeza de que o parlamentar tivesse ordenado o assassinato e considerou injusta a cassação.
“Praticamente estamos condenando o deputado Talvane Albuquerque por ser o mentor ou autor do assassinato de uma companheira — e não concordo com o assassinato de ninguém nesta Casa”, afirmou Bolsonaro durante o pronunciamento.
O então deputado também declarou que ficaria com a “consciência pesarosa” se não apresentasse seus argumentos contrários à perda do mandato.
A Câmara aprovou a cassação por 427 votos, contra 29, além de 21 abstenções e um voto em branco. Como a votação era secreta, não é possível provar documentalmente qual voto foi depositado por Bolsonaro. O registro oficial comprova, entretanto, que ele se posicionou publicamente contra a cassação e em defesa da permanência de Talvane no mandato parlamentar.
Rodrigo já havia rejeitado Bolsonaro
A relação entre Jair Bolsonaro e Talvane Albuquerque já havia influenciado diretamente uma decisão eleitoral de Rodrigo Cunha.
Em 2018, quando acabava de ser eleito senador por Alagoas, Rodrigo rejeitou apoiar Bolsonaro no segundo turno presidencial. À época, declarou voto nulo e mencionou o comportamento do então candidato em relação ao assassinato de sua mãe.
Rodrigo também criticou o que classificou como propostas extremistas e posições que poderiam fragilizar a democracia. Em 2022, adotou novamente uma postura de neutralidade e afirmou que não apoiaria nem Jair Bolsonaro nem Lula.
O cenário de 2026, contudo, apresenta uma diferença. Desta vez, o adversário de Lula era Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro. Mesmo depois da derrota do candidato do PL e da confirmação do resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral, Rodrigo Cunha ainda não havia se pronunciado.
A ausência de manifestação não permite concluir qual foi o voto do prefeito nem se ele apoiou algum dos candidatos. Politicamente, porém, o silêncio contrasta com a postura de JHC e recupera uma ferida que permanece viva na história de Alagoas.
Mais do que uma disputa partidária, o episódio remete à memória de Ceci Cunha, ao combate à impunidade e a um dos crimes políticos mais graves já registrados no estado.