POLÍTICA

Pressão sobre Fachin aumenta e celulares de Vorcaro se tornam foco de disputa no STF

Ministros buscam adiar o julgamento sobre relações de Alexandre de Moraes com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Por Estadao Conteudo Publicado em 14/09/2026 às 07:00
Edson Fachin © Foto / Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

Ministros de diferentes alas no Supremo Tribunal Federal (STF) intensificaram, durante o fim de semana, a pressão sobre o presidente da Corte, Edson Fachin, para que seja adiado o julgamento que investiga indícios de que Alexandre de Moraes mantinha uma relação suspeita com Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master. Fachin, no entanto, não cedeu aos apelos dos colegas e manteve a sessão agendada para esta terça-feira, 15.

A pressão também se manifestou em uma verdadeira guerra de ofícios, na véspera da sessão. Em uma disputa interna acirrada, ministros próximos a Moraes tentaram obter acesso aos dados do celular de Vorcaro. Após várias negativas por parte de André Mendonça a pedidos de Moraes, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin, Fachin estabeleceu, no último sábado (12), um prazo de 24 horas para que a Polícia Federal (PF) apresentasse informações sobre o aparelho do banqueiro, que foi apreendido durante sua prisão, na primeira fase da Operação Compliance Zero.

No prazo estabelecido, a PF informou no domingo, 13, ao Supremo que possui condições técnicas para fornecer uma cópia idêntica dos dados extraídos do celular de Vorcaro aos gabinetes dos ministros. Mendonça criticou a situação, chamando-a de uma tentativa de "tumultuar" o julgamento. Zanin, por sua vez, solicitou que a PF entregasse a cópia da mídia do celular do banqueiro ao seu gabinete, até as 23h daquele dia.

A pressão para adiar o julgamento não surge apenas de aliados de Moraes, mas também de ministros que apoiariam a abertura de uma investigação contra o colega. Parte dos integrantes da Corte acredita que o caso poderá inflamar ainda mais o clima político do País, especialmente às vésperas da eleição presidencial. Uma alternativa considerada seria postergar o julgamento para novembro.

Diante da resistência de Fachin, ministros próximos a Moraes planejam solicitar um pedido de vista logo no início da sessão, antes que qualquer ministro vote. A expectativa é que, apesar de ser um julgamento potencialmente polêmico, a sessão não dure muito tempo.

No entanto, mesmo um pedido de vista pode não prevenir debates acalorados durante a sessão. Ministros do grupo de Mendonça podem antecipar seus votos, o que pode levar a disputas com a ala oposta.

Nos últimos dias, a pressão sobre Fachin manifestou-se em uma autêntica "batalha" de ofícios no tribunal. Aliados de Moraes pediram acesso à totalidade das investigações sobre o Banco Master, que estão sob a relatoria de Mendonça. No entanto, ele liberou apenas parte dos documentos, justificando que a divulgação total poderia comprometer as investigações. Em resposta, o grupo de Moraes acusou Mendonça de divulgação seletiva do material. O presidente da Corte, então, solicitou que Mendonça retirasse o sigilo do inquérito e enviasse os autos aos demais ministros.

Os dados do celular de Vorcaro, apreendido em novembro de 2025, tornaram-se um ponto crucial deste conflito. Segundo a PF, o arquivo original permanece sob custódia da instituição, com a cadeia de custódia formalmente documentada, lacres intactos e mecanismos de verificação da integridade digital. A corporação garantiu que o conteúdo "nunca deixou a custódia da instituição".

A PF acrescentou que a cópia enviada ao gabinete de Mendonça, em março, não corresponde ao arquivo original. O envio foi feito "mediante solicitação do próprio gabinete".

Após a manifestação da PF, Zanin requisitou uma cópia dos dados. Em ofício, ele informou ao presidente da Corte sobre a solicitação feita diretamente ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

Esse pedido adicionou mais um capítulo à tentativa de Fachin de conduzir a crise interna do Supremo. Em vez de pedir ao presidente que requisitasse o material à PF, Zanin determinou diretamente que a entrega ao seu gabinete ocorresse e posteriormente encaminhou a Fachin uma cópia da ordem "para conhecimento e eventuais providências".

Esse movimento ocorreu após Mendonça defender, em despacho no domingo, que o conteúdo inteiro do celular do banqueiro permanecesse em sigilo. Mendonça afirmou que todo o material necessário para a sessão de terça foi devidamente disponibilizado aos integrantes do Supremo.

Sem objeto definido

No ofício, Zanin informou que precisa conhecer o material para formar sua convicção antes da sessão extraordinária.

De acordo com ele, o julgamento ainda "não tem objeto definido" e poderá requerer a análise de elementos extraídos do celular de Vorcaro.

Zanin observou em seu ofício que Mendonça já havia requisitado uma cópia da mídia e que a própria Polícia Federal assegurou que é possível fornecer o mesmo material aos outros gabinetes do Supremo sem comprometer a preservação da cadeia de custódia.

O documento ressaltou que a mídia já havia sido compartilhada com os advogados de Vorcaro e com o Congresso Nacional, para instruir a CPI Mista do INSS, conforme determinação de Mendonça.

Zanin enfatizou, no entanto, que até domingo seu gabinete ainda não havia recebido a cópia integral do material disponibilizado ao atual relator, apesar de "inúmeras solicitações por ofício e outros meios".

Ao justificar a solicitação, Zanin sustentou que "não existe hierarquia entre os ministros do Supremo Tribunal Federal" e que não podem ser impostas restrições de acesso a informações que possam ser necessárias para o pleno exercício de suas funções.

Ele também afirmou que "os elementos de prova pertencem ao plenário do Supremo Tribunal Federal e a seus integrantes, e não a um integrante específico" da Corte. Zanin concluiu que precisa conhecer o material que originou o procedimento requisitado por Mendonça, "independentemente de outras implicações" que o conteúdo possa indicar.

Risco

No seu novo despacho, publicado também no domingo, Mendonça argumentou que "a inserção de elementos adicionais, que não estão nos autos até o momento, incluindo todas as informações contidas no celular do senhor Daniel Vorcaro, somente contribuiria para tumultuar o julgamento". Ele complementou que isso colocaria em risco todo o andamento e o sucesso das investigações, gerando questionamentos de toda ordem e desviando o feito do seu caminho natural.

No mesmo despacho, Mendonça recomendou que Fachin solicitasse informações à PF sobre como foi realizada a entrega do material sigiloso ao gabinete do ministro. O relator das investigações mencionou em sua decisão o nome de quatro delegados responsáveis pelo envio dos documentos.

Nos últimos dias, Fachin centralizou na presidência da Corte os procedimentos que envolvem ministros do STF, após uma série de decisões individuais e conflitantes envolvendo Moraes, Mendonça e Flávio Dino.

A defesa de Vorcaro pediu a Fachin que filtre o material contido no celular antes de torná-lo público, com o intuito de evitar uma "exposição indevida" do banqueiro. (Colaborou Gabriel Máximo)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.