CASO IPREV/BANCO MASTER

Quem deixou passar? Documentos revelam caminho dos R$ 97 milhões do Iprev até o Master

PF aponta banco sem habilitação no primeiro aporte, falta de estudos independentes e deliberação com apenas quatro assinaturas; documentos também registram JHC como responsável legal da unidade gestora e com poder para nomear e exonerar a cúpula do Iprev

Por Redação Publicado em 13/09/2026 às 15:29
Quem deixou passar? Documentos revelam caminho dos R$ 97 milhões do Iprev até o Master

Quando R$ 97 milhões de um fundo responsável pelas aposentadorias e pensões dos servidores de Maceió são aplicados em uma instituição financeira que posteriormente acaba liquidada, a discussão rapidamente entra no terreno político. Mas os documentos da investigação permitem seguir outro caminho: o rastro do papel.

Atas, políticas de investimentos, pareceres, ofícios, relatórios da Polícia Federal e decisões judiciais ajudam a reconstruir como o dinheiro do Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Maceió (Iprev) chegou ao Banco Master e, principalmente, quais instâncias administrativas participaram ou deveriam ter fiscalizado as decisões.

A investigação se concentra em dois aportes: R$ 80 milhões em 6 de dezembro de 2023 e outros R$ 17 milhões em 13 de maio de 2024, totalizando os R$ 97 milhões que hoje estão no centro das apurações conduzidas pela Polícia Federal.

O dinheiro foi aplicado em Letras Financeiras, títulos emitidos por instituições financeiras destinados a investimentos de prazo mais longo. Pelas normas do Banco Central, esses papéis possuem, como regra, vencimento mínimo de 24 meses e não podem ser resgatados antes do prazo pactuado, ressalvadas hipóteses específicas previstas na regulamentação. Ou seja: trata-se de uma aplicação que naturalmente reduz a liquidez imediata do recurso investido.

Foi justamente a combinação entre valor elevado, concentração dos recursos, características dos títulos e procedimentos administrativos utilizados para aprovar os investimentos que chamou a atenção dos investigadores.

Primeiro aporte ocorreu quando Master não constava da lista de instituições aptas

Um dos pontos mais graves apontados pela investigação está no primeiro e maior investimento.

Segundo a Polícia Federal, quando os R$ 80 milhões foram direcionados ao Master, em dezembro de 2023, a instituição não constava da lista do Ministério da Previdência de instituições elegíveis para receber recursos de regimes próprios de previdência.

A PF também apontou ausência de estudos técnicos independentes suficientes para justificar a escolha e questionou as comparações utilizadas para sustentar a operação. De acordo com a investigação, foram confrontadas instituições financeiras com perfis de risco diferentes, criando aquilo que os investigadores classificaram como uma aparência documental de competitividade.

O problema não se resumiria, portanto, ao resultado posterior do investimento.

A Polícia Federal investiga como a decisão foi construída antes de o dinheiro sair das contas do Iprev.

Documento decisivo teria apenas quatro assinaturas

Outro ponto que chama atenção no rastro documental é uma reunião do Conselho de Administração realizada no fim de dezembro de 2023.

A investigação aponta que a documentação referente à política de investimentos registrava apenas quatro assinaturas.

A legislação municipal mencionada nos autos exigiria presença mínima de sete integrantes para instalação do colegiado e seis votos favoráveis para aprovação das propostas.

Mesmo assim, a política de investimentos avançou.

A irregularidade formal é relevante porque os colegiados existem justamente para impedir que decisões envolvendo milhões de reais do patrimônio previdenciário fiquem concentradas em poucas mãos.

Se são necessárias várias manifestações para que uma decisão dessa dimensão avance, a existência de somente quatro assinaturas deixa uma pergunta objetiva para a investigação:

como a cadeia administrativa permitiu que os atos seguintes continuassem sendo praticados?

Nomes da Fazenda aparecem na engrenagem

É nesse ponto que o caso deixa de se restringir aos operadores diretos do Iprev e chega a integrantes da estrutura administrativa municipal.

Entre os alvos da operação autorizada pelo ministro André Mendonça estão João Felipe Alves Borges, atual secretário municipal da Fazenda, que integrava o Conselho de Administração do Iprev à época dos fatos, e Marília Alexandre de Lima Alves, vinculada à estrutura de governança do instituto e à administração municipal.

João Felipe é investigado no contexto das atribuições exercidas pelo Conselho de Administração, órgão relacionado às diretrizes e à política de investimentos do instituto.

Marília aparece na apuração como integrante do núcleo de governança e signatária de deliberações relacionadas aos investimentos.

Também são investigados o ex-presidente do Iprev Ronnie Reyner Teixeira Mota; o ex-coordenador-geral de investimentos Gustavo Antônio Rodrigues de Souza; Marcelo Brasileiro Santos, integrante do Comitê de Investimentos; e Renan Foglia Calamia, dirigente da consultoria Crédito & Mercado.

O desenho apresentado pela PF, portanto, não aponta apenas para quem apertou o botão final da transferência.

A investigação procura reconstruir quem propôs, quem analisou, quem recomendou, quem aprovou, quem deveria fiscalizar e quem ocupava posições de comando dentro da estrutura administrativa que permitiu que os R$ 97 milhões chegassem ao Master.

E onde entra JHC?

É justamente nesse ponto que os documentos levantados pela investigação atingem um nível superior da cadeia administrativa.

Peças do inquérito registram que João Henrique Caldas, JHC, então prefeito de Maceió, figurava formalmente como responsável legal da unidade gestora perante o Ministério da Previdência Social.

Os mesmos documentos destacam que o chefe do Executivo possuía poder de nomeação e exoneração da cúpula do Iprev.

Até o momento, os elementos divulgados não equivalem a uma prova de que o então prefeito tenha expedido uma ordem direta para comprar as Letras Financeiras.

Mas os documentos colocam uma pergunta diferente - e institucionalmente relevante: até onde vai a responsabilidade de quem escolhe e pode afastar aqueles que administram centenas de milhões de reais de um regime previdenciário?

A investigação passa, assim, a examinar não apenas o executor de cada operação, mas a própria estrutura de governança que cercava o Iprev.

Por que o caso chegou ao Supremo

Também exige precisão a explicação sobre a presença do caso no Supremo Tribunal Federal.

Não é correto reduzir a questão à afirmação genérica de que um prefeito necessariamente seria julgado pelo STF.

Na manifestação que antecedeu a mudança de competência, o Ministério Público Federal apontou a conexão instrumental e teleológica com investigações mais amplas sobre o Banco Master que já estavam sob supervisão da Suprema Corte, além do possível envolvimento de JHC, que naquele momento exercia a Prefeitura de Maceió e possuía prerrogativa de foro.

A 13ª Vara Federal acolheu o pedido e determinou a remessa integral da investigação ao Supremo.

JHC deixou posteriormente a Prefeitura para disputar o Governo de Alagoas, mas isso não provoca automaticamente a devolução da investigação à primeira instância. A definição da competência depende do próprio Judiciário e também da conexão do núcleo de Maceió com o caso mais amplo do Banco Master.

Ofício posterior também entrou na mira da PF

O rastro documental não termina nos atos de 2023 e 2024.

Já em 2026, o atual presidente do Iprev, Guilherme Emmanuel Lanzillotti Alvarenga, encaminhou à Polícia Federal o Ofício nº 212/2026, sustentando que o Banco Master estava plenamente habilitado e integrava a lista de instituições elegíveis quando os investimentos foram realizados.

A PF, entretanto, questionou a informação.

Segundo a investigação, no momento do primeiro aporte — os R$ 80 milhões transferidos em dezembro de 2023 — o Master ainda não figurava naquela relação.

A Polícia Federal passou então a apurar se o documento de 2026 poderia ter produzido uma tentativa de conferir posteriormente regularidade à operação realizada anos antes.

Há, entretanto, outro dado importante: ao analisar os pedidos da PF, André Mendonça não autorizou busca e apreensão contra Guilherme Lanzillotti, seguindo manifestação da Procuradoria-Geral da República no sentido de que não havia, naquele momento, elementos suficientes indicando participação direta dele nos atos ilícitos investigados.

A distinção é fundamental: o ofício está sob questionamento, mas isso não equivale a afirmar responsabilidade criminal de seu signatário.

Banco acabou liquidado

O risco que parecia abstrato quando os investimentos foram realizados acabou transformado em problema concreto.

Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, apontando violações às normas do Sistema Financeiro Nacional e grave crise de liquidez.

A partir daí, aquilo que poderia parecer apenas uma discussão sobre escolhas de investimento passou a colocar sob risco concreto recursos destinados às aposentadorias e pensões dos servidores municipais.

Foi também nesse contexto que a investigação ganhou força.

Em agosto de 2026, a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União cumpriram oito mandados de busca e apreensão autorizados pelo STF. André Mendonça também determinou bloqueio patrimonial de até R$ 97 milhões contra seis investigados, com objetivo de resguardar eventual recomposição do dano.

A pergunta que os documentos deixam

Seguir o rastro do papel muda a perspectiva do caso.

A investigação não se resume a perguntar quem assinou uma transferência bancária.

Ela procura compreender como um investimento desse tamanho venceu sucessivamente as barreiras administrativas que deveriam proteger o patrimônio previdenciário.

Por que o primeiro aporte ocorreu quando o banco não aparecia na lista de instituições elegíveis?

Por que faltaram estudos técnicos independentes considerados suficientes pela investigação?

Como uma deliberação com apenas quatro assinaturas avançou se as regras mencionadas pela PF exigiam quórum maior?

Qual foi efetivamente a atuação dos integrantes dos conselhos e comitês?

E qual era o grau de conhecimento, supervisão e responsabilidade das autoridades situadas acima deles na cadeia administrativa?

Os autos ainda não oferecem resposta definitiva para todas essas perguntas.

Também não existe condenação de JHC nem dos demais investigados pelos fatos relatados.

Mas o conjunto de documentos já mostra que o caso dos R$ 97 milhões do Iprev não pode ser reduzido à decisão isolada de um servidor ou à assinatura de uma única pessoa.

O que a Polícia Federal tenta reconstruir é uma engrenagem administrativa inteira.

E é justamente essa engrenagem — quem indicava, quem analisava, quem aprovava, quem fiscalizava e quem tinha poder para escolher ou retirar os ocupantes dos postos estratégicos — que passa a ocupar o centro da investigação sobre o dinheiro dos aposentados e pensionistas de Maceió.