POLÍTICA

Mendonça autoriza viagem de mulher ligada a Sicário

Ministro do STF nega pedido da PF para impedir Nathana Figueiredo de ir a Dubai.

Por Estadao Conteudo Publicado em 12/09/2026 às 08:29
Ministro André Mendonça © Foto / Luiz Silveira / STF

O ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, negou um pedido da Polícia Federal para impedir que uma mulher que estava com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário, quando ele foi preso em março, viajasse a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

Trata-se de Nathana Lopes Figueiredo. Dias após a prisão e a morte de Sicário, ela ligou para um delegado da Polícia Federal, relatou que estava "muito abalada" e questionou se haveria problema em realizar a viagem.

A mulher também solicitou para depor por videoconferência após chegar ao país árabe, justificando que a viagem era necessária em razão da fratura no pé de sua mãe.

Não há informações no processo sobre o retorno de Nathana Figueiredo ao Brasil ou se ela permanece no exterior. Até a publicação deste texto, o Estadão tentou contato com ela, mas não obteve sucesso.

Após a ligação, o delegado pediu a André Mendonça, relator do caso, que ordenasse a apreensão do passaporte de Nathana e proibisse que ela deixasse o país sem autorização judicial.

Segundo o policial, a mulher seria considerada uma "testemunha-chave" dos fatos relacionados a Mourão, e sua viagem ao exterior, sem que o endereço de destino fosse conhecido, poderia "comprometer a descoberta da verdade real".

Mourão, apontado como um dos líderes da "Turma", grupo responsável por atuar com violência contra desafetos de Daniel Vorcaro e por cooptar servidores públicos, morreu após ser preso em março. De acordo com a polícia, ele tentou suicídio na carceragem da PF em Belo Horizonte e não resistiu.

A ligação de Nathana ao delegado ocorreu no dia 9 de março, seis dias após a prisão e três dias depois da morte de Sicário.

Mendonça recusou o pedido de apreensão do passaporte, justificando que Nathana demonstrou disposição de colaborar com as investigações ao informar e explicar os motivos da viagem com antecedência.

"A reunião dessas circunstâncias permite a conclusão no sentido da intenção de Nathana Lopes Figueiredo de colaborar com as investigações. Caso contrário, a ligação não teria sido feita e seria difícil que sua viagem fosse conhecida antes de ocorrer", assinalou o ministro.

A decisão faz parte do conjunto de documentos que tiveram sigilo levantado por Mendonça na última sexta-feira, dia 11.

Os documentos não detalham a relação de Nathana com Luiz Phillipi Mourão, mas os policiais se referem a eles como "moradores" do apartamento onde o homem foi preso.

Um relatório da Polícia Federal informa que ela estava no local quando os policiais cumpriram o mandado de prisão contra Mourão, às 6 horas do dia 3 de março deste ano.

Nathana teve o celular apreendido, assim como Mourão, que estava com dois aparelhos. Ambos se recusaram a fornecer as senhas. Ainda segundo a polícia, Sicário tentou entregar, disfarçadamente, um relógio de luxo a Nathana para evitar que fosse apreendido.

"Decidiu-se pela apreensão do aparelho celular alegadamente utilizado por Nathana, tendo em vista a possível cumplicidade com o alvo, inclusive por ter recebido e permanecido dissimuladamente com o relógio de alto valor pertencente a LUIZ PHILLIPI", relatam os policiais.

Nos documentos acessados pelo Estadão, não há informações sobre Nathana ter prestado depoimento ou sobre o conteúdo do que ela teria declarado aos policiais.

Arquivamento do caso

Entre os documentos que tiveram o sigilo levantado está o relatório da Polícia Federal que investigou a causa da morte de Mourão. A conclusão, já divulgada anteriormente, é que ele se enforcou com a camisa que utilizava.

A conclusão baseia-se nas imagens das câmeras de segurança, 17 laudos periciais - incluindo exames toxicológicos, necropsia e análise do circuito de vigilância.

Depoimentos de 17 pessoas, entre agentes da Polícia Federal e outros presos na carceragem no dia do ocorrido, também foram colhidos.

No relatório, há frames das filmagens que mostram a chegada de Mourão à PF, tentativas de ligar para a mãe, e pedidos de comida, água e café, atendidos pelos agentes.

"Não há registro de aproximação física, entrega de instrumento, orientação, estímulo, constrangimento, ameaça ou manipulação do ambiente que possa indicar responsabilidade penal", escreveu André Mendonça ao arquivar o caso, considerando a atuação dos policiais federais adequada.

"A investigação esgotou razoavelmente as principais linhas de apuração penal, analisando a possibilidade de intervenção direta de terceiros e as condições de custódia. Nenhuma evidência foi encontrada para sustentar imputação penal", acrescentou o ministro.

A PF afirma que Sicário recebia R$ 1 milhão mensais de Daniel Vorcaro para pagar os membros da "Turma". O grupo teria acessado um sistema interno da PF e realizado pesquisas sobre inquéritos contra o banqueiro.

Uma imagem dessas buscas foi enviada em 15 de setembro de 2025 ao banqueiro por Mourão.

Para a PF, tal imagem é evidência de que a organização criminosa acessou indevidamente informações restritas.

Sicário recebeu a informação de um policial federal aposentado, Marilson Roseno, também integrante da "Turma". A PF rastreou mensagens de Joana Mourão, irmã de Sicário, para o pai de Daniel Vorcaro, Henrique Vorcaro, solicitando ajuda financeira.

Nas mensagens, Joana alertou que possuía documentação suficiente "para acabar com a família inteira". A PF alega que Henrique autorizou repasses para silenciá-la.