Versão de JHC desmorona: ex-prefeitos afirmam que gestores sabiam onde milhões do Iprev eram aplicados
Rui Palmeira, Cícero Almeida e Kátia Born contestam alegação do candidato de que desconhecia investimentos; recursos teriam saído de instituição considerada segura e seguido para o Banco Master durante sua administração
A tentativa de JHC de se afastar do escândalo envolvendo os investimentos milionários do Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Maceió (Iprev) encontrou um forte contraponto vindo de quem já administrou a capital alagoana.
Em seu guia eleitoral, divulgado na última sexta-feira (4), o ex-prefeito e atual candidato ao Governo de Alagoas afirmou que não sabia da aplicação de recursos previdenciários no Banco Master. A versão, porém, foi diretamente contestada pelos ex-prefeitos Rui Palmeira, Cícero Almeida e Kátia Born.
Os três afirmam que, durante suas administrações, os prefeitos tinham conhecimento das instituições nas quais eram aplicados os recursos pertencentes aos servidores municipais. As declarações enfraquecem a tentativa de JHC de atribuir exclusivamente à autonomia administrativa do Iprev a responsabilidade pela movimentação milionária.
A pergunta passa a ser inevitável: se os gestores anteriores acompanhavam os investimentos do instituto, como JHC, durante cuja administração ocorreu a transferência para o Banco Master, afirma que nada sabia?
Recursos foram transferidos durante a gestão de JHC
Entre 2023 e 2024, período em que JHC comandava a Prefeitura de Maceió, o Iprev aplicou, segundo as informações divulgadas, R$ 117 milhões de seu fundo previdenciário em títulos relacionados ao Banco Master.
O investimento passou a ser investigado pela Polícia Federal, que realizou buscas na sede do instituto para apurar possíveis irregularidades na administração e na aplicação do dinheiro dos servidores.
Entre os investigados estão João Felipe Alves Borges, então secretário municipal da Fazenda; Ronnie Reyner Teixeira Motta, ex-presidente do Iprev; Gustavo Antônio Rodrigues, ex-coordenador de investimentos; Renan Foglia Calamia, dirigente da Crédito & Mercado; Marília Alexandre de Lima, integrante do núcleo de governança; e Marcelo Brasileiro Santos, do Comitê de Investimentos.
Tratam-se de integrantes ou agentes ligados à estrutura administrativa responsável por analisar, autorizar e executar a movimentação dos recursos previdenciários. Alguns deles ocupavam postos estratégicos durante a administração de JHC.
Dinheiro deixou instituição considerada segura
Rui Palmeira, Cícero Almeida e Kátia Born sustentam que os recursos do Iprev permaneceram, durante seus mandatos, aplicados no Banco do Brasil, apontado por eles como uma instituição de maior segurança.
A mudança ocorreu na gestão de JHC.
Os valores foram direcionados inicialmente ao BTG Pactual e, posteriormente, transferidos para o Banco Master. A operação não envolveu uma quantia secundária ou uma decisão burocrática sem importância: foram milhões pertencentes ao patrimônio previdenciário dos servidores municipais.
Em 5 de maio de 2024, o então dirigente do Iprev, Ronnie Motta, autorizou a transferência de R$ 100 milhões aplicados em letras financeiras do BTG para o Banco Master. Além dessa movimentação, também teria autorizado uma nova aplicação de R$ 17 milhões na instituição.
O volume de recursos transferidos e a importância dos agentes envolvidos tornam ainda mais difícil aceitar, sem questionamentos, a versão de que o prefeito simplesmente não tinha conhecimento do que acontecia.
Autonomia não significa ausência de responsabilidade
JHC tenta sustentar que o Iprev possui autonomia para decidir sobre seus investimentos e que não cabia a ele determinar onde o dinheiro seria aplicado.
A autonomia do instituto, contudo, não apaga o contexto político e administrativo das decisões. Os dirigentes do Iprev, os integrantes dos comitês e os secretários municipais não surgiram espontaneamente nos cargos. Faziam parte da estrutura administrativa que funcionava sob o comando político do então prefeito.
Também existe uma diferença evidente entre afirmar que o prefeito não realizava pessoalmente cada operação financeira e sustentar que ele desconhecia uma movimentação que alcançou R$ 117 milhões.
A versão de JHC, portanto, não encerra o assunto. Ao contrário, abre novas perguntas: quem tomou a decisão? Quem avaliou os riscos? Quem acompanhou as operações? Quais autoridades municipais foram informadas? E como uma transferência dessa dimensão teria ocorrido sem chegar ao conhecimento do chefe do Executivo?
Ex-prefeitos desmontam argumento
As declarações de Rui Palmeira, Cícero Almeida e Kátia Born atingem diretamente o principal argumento apresentado por JHC para se distanciar do caso.
Os ex-gestores sustentam que acompanhavam a destinação dos recursos previdenciários e tinham conhecimento das instituições escolhidas. Não se tratava, portanto, de uma área completamente isolada, invisível ou inacessível ao chefe da administração municipal.
Se essa era a prática nas gestões anteriores, JHC precisa explicar por que sua administração teria funcionado de maneira diferente justamente quando uma quantia milionária foi transferida para o Banco Master.
Dizer que não sabia pode ser uma estratégia eleitoral para afastar responsabilidades. Mas, diante das declarações dos ex-prefeitos e da dimensão da operação, a justificativa está longe de ser suficiente.
Quanto mais JHC tenta se apresentar como alguém alheio aos investimentos, mais se expõe a uma escolha desconfortável: ou sabia da movimentação milionária, ou admite que não acompanhava o destino de parte expressiva do patrimônio previdenciário dos servidores de Maceió. Em qualquer das hipóteses, a sociedade continua esperando respostas.