DIREITOS TRABALHISTAS

Centrais sindicais articulam pressão nos estados para antecipar votação da PEC do fim da escala 6x1

Entidades acusam cúpula do Senado de ceder ao setor patronal e planejam ofensiva nas ruas e redes para forçar deliberação antes do primeiro turno das eleições de 2026

Por Redação Publicado em 05/09/2026 às 09:54
Centrais sindicais articulam pressão nos estados para antecipar votação da PEC do fim da escala 6x1 Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial

As principais centrais sindicais do país decidiram unificar forças para pressionar senadores em todas as unidades da federação e antecipar a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC 221/2019). O texto põe fim à escala de trabalho de seis dias por um de descanso (6x1) e reduz a jornada semanal máxima para 40 horas.

A mobilização começou neste fim de semana e visa reverter a decisão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), de pautar a matéria apenas para depois das eleições de 2026. A mudança no cronograma ocorreu logo após a proposta ter sido aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) na última quarta-feira (2).

Para os líderes sindicais, o adiamento serve aos interesses de setores empresariais que buscam evitar o desgaste dos parlamentares durante o período eleitoral.

"Os empresários falam que querem que vote depois da eleição porque sabem que o senador vai trair o povo. Fala que vota a favor do povo e, no dia seguinte, trai a população. É isso que nós vamos denunciar", afirmou o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Sérgio Nobre. "Se os senadores forem cobrados nos estados, eles vão querer resolver essa situação. Vai pedir voto? Cadê a 6x1 primeiro?"

Plano de ação e busca por audiência

A estratégia das entidades foi desenhada em reunião emergencial do Fórum das Centrais Sindicais, que reúne as seis maiores representações do funcionalismo e da iniciativa privada no Brasil.

Entre as medidas aprovadas pelo fórum estão:

Panfletagem intensa em polos comerciais e centros urbanos onde a escala 6x1 é predominante;

Campanhas de conscientização e cobrança direta aos parlamentares em redes sociais;

Organização de manifestações e atos públicos de rua;

Pedido formal de audiência com a presidência do Senado para requerer a inclusão da matéria na pauta antes do primeiro turno.

O presidente da Força Sindical, Miguel Torres, classificou a decisão do Senado como uma "surpresa negativa", destacando que pesquisas indicam aprovação de mais de 70% da população à medida. "Se deixar para depois da eleição, podemos voltar para a estaca zero", alertou.

A frustração também é compartilhada por outras lideranças. Paulo de Oliveira, diretor executivo da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), considerou a medida "desleal com os trabalhadores", argumentando que a mudança tira a responsabilidade dos parlamentares perante seus eleitores.

Já o presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Ricardo Patah, lembrou que a adequação da jornada é uma reivindicação histórica. Ele ressaltou a expressiva vitória na CCJ — onde a proposta teve apenas quatro votos contrários, todos de senadores que não disputarão o pleito deste ano —, o que reforçaria o viés favorável da casa à pauta.

Procurada pela reportagem para se manifestar sobre os questionamentos dos sindicatos, a assessoria do senador Davi Alcolumbre não retornou até o fechamento desta edição.

Qualidade de vida versus custo empresarial

No centro do debate estão visões opostas sobre a sustentabilidade econômica e social da mudança:

Argumento sindical: As centrais sustentam que o fim da jornada 6x1 é fundamental para a saúde mental, o bem-estar e o convívio familiar do trabalhador. Defendem ainda que a elevação de custos para os empregadores é marginal e facilmente absorvível pelo mercado, repetindo a dinâmica vista durante a promulgação da Constituição de 1988, quando a jornada caiu de 48 para 44 horas semanais.

Argumento patronal: Por outro lado, confederações empresariais alertam para o risco de aumento do custo Brasil, potencial de retração no Produto Interno Bruto (PIB) e pressões inflacionárias.

Em nota, o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, representando a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), defendeu o adiamento do debate.

"Mudanças constitucionais nas relações de trabalho exigem análise técnica, diálogo e previsibilidade. Não é uma discussão que deva ser conduzida sob a pressão do calendário eleitoral, mas sim em um ambiente que permita avaliar com responsabilidade seus impactos em empresas, empregos e trabalhadores", pontuou Tadros.