VOLTOU ATRÁS

Aécio Neves, que deu procuração para mais de 100 ações contra jornalistas em Alagoas, volta atrás e será candidato ao Senado

Chefete do PSDB, partido de JHC, havia anunciado que não disputaria mais eleições; tucano muda de ideia e entra na corrida por uma vaga no Senado em Minas Gerais

Por Redação Publicado em 28/08/2026 às 14:39

O deputado federal e presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, mudou de ideia. Depois de anunciar no início de agosto que não disputaria nenhum cargo nas eleições de 2026, encerrando uma sequência de 40 anos de candidaturas, o tucano decidiu voltar às urnas e prepara sua entrada na corrida pelo Senado em Minas Gerais.


A reviravolta nacional tem uma conexão direta com Alagoas.


Aécio é hoje o principal dirigente do partido de JHC e foi personagem central na chegada do ex-prefeito de Maceió ao PSDB. Foi sob seu comando que a legenda abriu as portas para JHC, para a senadora Eudócia Caldas e para Marina Cândia, reorganizando o partido no estado para as eleições deste ano.


Mas Aécio também passou a ser conhecido no ambiente político e jornalístico alagoano por outro motivo.


Levantamento feito pela Tribuna do Sertão sobre a sucessão de ações eleitorais movidas contra jornalistas, veículos de comunicação, comunicadores e produtores de conteúdo aponta mais de uma centena de processos relacionados à estrutura jurídica da Federação PSDB-Cidadania, cuja representação nacional possui procuração assinada por Aécio Neves.


A assinatura do presidente nacional tucano aparece, portanto, na autorização dada aos advogados que passaram a representar judicialmente a federação também em Alagoas.


Em um dos casos mais emblemáticos, a Federação PSDB-Cidadania acionou a Justiça Eleitoral contra publicação da Tribuna do Sertão e chegou a pedir a suspensão integral do perfil do jornal no Instagram até o final do período eleitoral.


O pedido de suspensão da conta foi rejeitado pela Justiça, mas revelou a dimensão da estratégia jurídica adotada no ambiente eleitoral alagoano.


A mesma federação também ingressou com ações envolvendo publicações de jornalistas, veículos de comunicação, personagens de humor e produtores de conteúdo que fizeram críticas ou sátiras relacionadas ao grupo político de JHC.


Agora, o homem que nacionalmente comanda o partido e que assinou a procuração utilizada nessa ofensiva judicial contra críticos e comunicadores decidiu que quer voltar ao Senado da República.



Desistiu de desistir


No dia 4 de agosto, Aécio havia anunciado publicamente que não concorreria a qualquer cargo eletivo em 2026.


A decisão era apresentada como o encerramento de uma trajetória de quatro décadas de candidaturas sucessivas.


Menos de um mês depois, mudou de posição.


Com a desistência de candidatos que estavam inscritos na disputa por Minas Gerais, abriu-se espaço para que o presidente do PSDB assumisse uma das vagas na chapa ao Senado.


Aécio deverá integrar o grupo político ligado ao candidato ao Governo de Minas Alexandre Kalil.


A mudança transforma a anunciada despedida eleitoral em apenas uma curta pausa.



O chefe nacional do partido de JHC


Em Alagoas, a movimentação merece atenção também pelo peso de Aécio sobre a estrutura partidária que sustenta JHC.


Foi o próprio PSDB nacional que anunciou, em abril, que a filiação de JHC havia sido construída em movimento liderado por Aécio Neves, com apoio do ex-governador Teotonio Vilela Filho.


JHC deixou o PL e passou para o PSDB justamente no ano eleitoral, tornando-se uma das principais apostas nacionais da legenda para governos estaduais.


Aécio, portanto, não é apenas mais um dirigente distante da política alagoana.


É o presidente nacional e uma das principais referências políticas do partido escolhido por JHC para disputar o Governo de Alagoas.


E é também quem assinou a procuração que deu poderes aos advogados da federação partidária para atuar nas ações eleitorais.



Senado e liberdade de imprensa


A candidatura de Aécio recoloca ainda uma discussão que ultrapassa a disputa eleitoral de Minas Gerais.


O Senado é uma das instituições centrais na defesa das garantias constitucionais, entre elas a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa.


Em Alagoas, entretanto, a federação comandada nacionalmente pelo tucano ficou associada nos últimos meses a uma sequência inédita de ações judiciais contra conteúdos críticos.


Ações judiciais são instrumentos legítimos disponíveis a qualquer cidadão ou partido quando entende que seus direitos foram violados.


A discussão surge quando esse instrumento passa a ser utilizado reiteradamente contra jornalistas, jornais, humoristas e comunicadores, com pedidos que chegam até mesmo à suspensão integral das redes sociais de um veículo de imprensa durante uma eleição.


É nesse contexto que Aécio Neves retorna à disputa por uma cadeira no Senado.


O tucano que, no começo de agosto, dizia estar deixando as eleições agora volta ao jogo.


E, para os jornalistas de Alagoas que enfrentaram a avalanche de processos patrocinados pela estrutura jurídica de sua federação partidária, sua assinatura já não é propriamente desconhecida.