“Eu não gosto de Flávio e não sou bandido”: professor da Ufal reage a Alfredo Gaspar
Cícero Albuquerque acusa candidato a vice de criminalizar quem pensa diferente e dispara: “Aprenda a respeitar quem pensa diferente de você”
A declaração de Alfredo Gaspar (PL) de que “a maluqueiragem e a bandidagem votam no Lula” ganhou uma resposta dura do professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Cícero Albuquerque, ex-coordenador regional da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
Em vídeo, Cícero se apresenta nominalmente e responde diretamente ao deputado federal alagoano, candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro.
“Eu sou professor Cícero Albuquerque e quero dizer ao Alfredo Gaspar que eu não gosto de Flávio Bolsonaro e conheço milhares de pessoas que não gostam de Flávio Bolsonaro”, afirmou.
O professor acrescentou que a rejeição ao candidato do PL não transforma ninguém em criminoso.
“Não é porque nós estupramos, não é porque nós matamos, não é porque somos bandidos. É porque nós temos valores que são diferentes dos valores que Flávio e Alfredo Gaspar promovem”, declarou.
A resposta ocorre após Alfredo Gaspar afirmar, durante a passagem da campanha de Flávio Bolsonaro por Alagoas, que quem não gosta do presidenciável seria “bandido”, citando estupradores, homicidas e traficantes. Em outro momento da mesma declaração, Alfredo disse que o Presídio do Agreste estaria “topado no Lula” e completou: “a maluqueiragem e a bandidagem votam no Lula”.
“Fala criminosa, covarde e canalha”, diz Cícero
Cícero Albuquerque não economizou palavras ao avaliar a declaração.
“A fala de Alfredo Gaspar, que é uma fala no mínimo criminosa, covarde, canalha, não dá para ser assim. Não dá para tratar quem pensa diferente como bandido, como criminoso”, afirmou.
A classificação de “criminosa” é uma avaliação feita pelo professor, e não significa que exista, até o momento, decisão judicial reconhecendo crime na declaração do candidato.
Para Cícero, porém, o problema ultrapassa a disputa eleitoral. Segundo ele, o discurso que associa determinada preferência política à criminalidade contribui para criar um ambiente de hostilidade contra quem pensa diferente.
“Esse tipo de comportamento de um candidato a vice-presidente da República demonstra claramente quem ele é”, declarou.
O professor também fez uma crítica pessoal a Alfredo:
“Quem o conhece de perto e quem o conhece na intimidade sabe que ele não é o que aparenta ser.”
Cícero declara voto em Lula
Ao contrário de tentar esconder sua posição eleitoral, Cícero Albuquerque fez questão de explicitá-la.
“Nós que votamos em Lula — e eu voto em Lula no primeiro turno, sim, já votei em outras eleições — não alimentamos esse tipo de postura e não devemos silenciar diante desse tipo de postura”, disse.
A reação do professor ganha peso quando confrontada com os números mais recentes da disputa presidencial em Alagoas.
Pesquisa Quaest divulgada nesta semana mostra Lula com 44% das intenções de voto contra 29% de Flávio Bolsonaro em um dos cenários de primeiro turno. No cenário que inclui Pablo Marçal, Lula chega a 45% e Flávio a 30%. O levantamento ouviu 804 eleitores entre os dias 20 e 23 de agosto, tem margem de erro de três pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
Ou seja: a declaração de Alfredo Gaspar atinge um debate que envolve praticamente metade do eleitorado alagoano, justamente no estado de origem política do próprio candidato a vice.
Professor relaciona discurso a episódios de violência
Cícero Albuquerque também associou a retórica política a episódios de intolerância registrados durante a passagem de Flávio Bolsonaro por Maceió.
Ele citou o caso da estudante da Ufal Anastácia Neruda, que participou de uma manifestação contra a presença do candidato do PL nas proximidades da Universidade Federal de Alagoas.
“Essa semana, na vinda de Flávio Bolsonaro aqui, uma apoiadora de Flávio Bolsonaro agrediu a querida Anastácia Neruda [...] apenas porque ela manifestou uma opinião diferente”, afirmou Cícero.
A estudante relatou publicamente dois episódios durante o protesto. Segundo Anastácia, em uma das situações um homem teria apontado o dedo em seu rosto e precisado ser contido por outras pessoas. Em outro momento, uma mulher teria tentado cortar uma faixa dos manifestantes com uma tesoura e, durante a confusão, teria arranhado a estudante. Até a publicação da reportagem que registrou o relato, não havia informação sobre boletim de ocorrência relacionado ao episódio.
Portanto, a agressão mencionada por Cícero deve ser tratada jornalisticamente como um episódio relatado pela estudante, e não como fato já submetido à conclusão policial ou judicial.
“Você está promovendo a violência”
Na parte mais contundente do vídeo, Cícero fala diretamente com Alfredo Gaspar.
“Alfredo Gaspar, você está promovendo a violência e essa postura não é a postura que um candidato a vice-presidente deve ter.”
Em seguida, cobra respeito às divergências políticas:
“Aprenda a respeitar quem pensa diferente de você. Aja com lealdade e deixe de covardia, porque esse tipo de coisa nós não vamos tolerar.”
E termina dizendo que as declarações não ficarão sem resposta:
“Você não pense que vai ficar impune. Vai ter reação, sim, a cada atitude covarde que vocês cometerem.”
A fala de Cícero coloca mais pressão sobre Alfredo Gaspar para explicar o alcance de suas próprias palavras.
Afinal, o candidato a vice não disse literalmente que todo eleitor de Lula é bandido, mas construiu uma sequência em que associou criminosos à rejeição a Flávio Bolsonaro, afirmou que “a bandidagem vota no Lula” e, em seguida, contrapôs esse grupo aos “homens e mulheres de bem”.
É exatamente essa divisão que Cícero Albuquerque contesta.
E os números da Quaest tornam a discussão ainda maior: se Lula alcança 45% das intenções de voto em Alagoas, como Alfredo Gaspar classifica os alagoanos que, como Cícero Albuquerque, dizem abertamente não gostar de Flávio Bolsonaro e escolher o petista nas urnas?
É uma pergunta que a declaração do próprio candidato a vice colocou no debate eleitoral.