ELEIÇÕES

Alfredo diz que “bandidagem vota no Lula”; e os 45% dos alagoanos que votam na reeleição do presidente?; veja vídeo

Vice de Flávio Bolsonaro associa criminosos ao eleitorado de Lula e contrapõe grupo a “homens e mulheres de bem”; pesquisa divulgada nesta semana mostra petista 15 pontos à frente do filho de Bolsonaro no Estado

Por Vladimir Barros Publicado em 27/08/2026 às 20:46
Na terra de Alfredo, Lula tem 45%, o candidato dele 30%; ele diz que “bandidagem vota no Lula”

Uma declaração do deputado federal alagoano Alfredo Gaspar (PL), candidato a vice-presidente da República na chapa de Flávio Bolsonaro, colocou no centro da campanha presidencial uma pergunta incômoda: afinal, como o próprio Alfredo classifica os milhares de alagoanos que pretendem votar em Luiz Inácio Lula da Silva?

Durante a passagem de Flávio Bolsonaro por Alagoas, escolhida para marcar o início de sua campanha presidencial no Nordeste, Alfredo fez uma dura associação entre criminalidade e preferência eleitoral pelo petista.

No vídeo, ele afirma:

“Quem é que não vai gostar de Flávio Bolsonaro? Eu vou dizer: quem não vai gostar de Flávio Bolsonaro é o bandido, o caba que estupra, o caba que mata, o caba que trafica, que desgraça a família.”

Em seguida, Alfredo amplia a declaração:

“Tá vendo o presídio do Agreste lá? Meu irmão, é topado no Lula. A maloqueiragem e a bandidagem votam no Lula.”

E conclui contrapondo esse grupo aos que chama de pessoas de bem:

“Agora os homens e as mulheres de bem do Brasil...”

VEJA VÍDEO AO FIM DA MATÉRIA


A declaração ganha dimensão ainda maior justamente em Alagoas, terra natal de Alfredo Gaspar, onde a pesquisa Quaest divulgada na segunda-feira (24) mostra Lula liderando com ampla vantagem a disputa presidencial.

Em um dos cenários estimulados - o que inclui Pablo Marçal - Lula aparece com 45% das intenções de voto, enquanto Flávio Bolsonaro tem 30%. Renan Santos registra 2%, Pablo Marçal e Augusto Cury têm 1% cada. Brancos, nulos e eleitores que dizem não votar somam 10%, enquanto 11% estão indecisos. Em outro cenário testado, Lula tem 44% e Flávio, 29%. Em ambos, a diferença é de 15 pontos percentuais.

Isso significa que não é correto afirmar que “a maioria dos alagoanos” declarou voto em Lula - 45% não constitui maioria absoluta. Mas representa quase metade de todo o eleitorado pesquisado e, sobretudo, o maior contingente eleitoral do Estado.

Há outro dado da mesma Quaest que torna o contraste ainda mais evidente: 52% dos entrevistados aprovam o governo Lula, contra 40% que desaprovam. Nesse indicador, portanto, há efetivamente uma maioria de alagoanos favorável à administração do presidente.

A pesquisa apresentada pela Quaest traz ainda outro elemento relevante. Setenta e oito por cento dos entrevistados disseram que sua escolha para presidente já é definitiva, enquanto somente 22% admitem mudar de candidato. O percentual considera o conjunto do eleitorado, e não apenas os eleitores de Lula, mas revela um cenário de escolhas presidenciais bastante consolidadas.

A pergunta que Alfredo deixa no ar


É preciso fazer uma distinção para não atribuir ao candidato a vice uma frase que ele não pronunciou literalmente.

Alfredo Gaspar não disse expressamente que todo eleitor de Lula é bandido.

Mas a sequência de seu próprio raciocínio é politicamente explosiva: primeiro afirma que quem não gosta de Flávio Bolsonaro é “bandido”, citando estupradores, homicidas e traficantes; depois declara que “a maluqueiragem e a bandidagem votam no Lula”; e, finalmente, contrapõe esse universo aos “homens e mulheres de bem”.

É justamente essa construção que transforma uma crítica política em uma espécie de divisão moral do eleitorado brasileiro.

De um lado estariam, pelas palavras utilizadas pelo próprio candidato, a “maloqueiragem” e a “bandidagem”. Do outro, os “homens e mulheres de bem”.

E é aí que os números de Alagoas impõem uma pergunta inevitável: onde Alfredo Gaspar coloca os 45% dos eleitores alagoanos que, segundo a Quaest, pretendem votar em Lula?

São quase metade dos eleitores ouvidos pela pesquisa. Trabalhadores, servidores públicos, empresários, agricultores, comerciantes, profissionais liberais, aposentados, estudantes e moradores das mais diferentes regiões de Alagoas estão estatisticamente contidos naquele percentual.

É razoável submetê-los a uma retórica que aproxima preferência política de criminalidade?

Peso maior pelo histórico de Alfredo


A declaração também chama atenção pelo histórico profissional de quem a pronunciou.

Alfredo Gaspar foi promotor de Justiça em Alagoas entre 1996 e 2020, procurador-geral de Justiça e ocupou por duas vezes o comando da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Atualmente exerce mandato de deputado federal e é candidato a vice-presidente pelo PL.

Ou seja, não se trata apenas de uma frase pronunciada por um militante durante um ato eleitoral. Parte de alguém que ocupou algumas das mais importantes funções do sistema de Justiça e de segurança pública de Alagoas.

Justamente por sua trajetória, seria de se esperar de Alfredo uma distinção elementar entre criminosos e cidadãos que fazem uma opção eleitoral diferente da sua.

A democracia permite - e pressupõe - críticas duríssimas a Lula, a Flávio Bolsonaro ou a qualquer outro candidato. Permite denunciar governos, confrontar ideias, questionar políticas públicas e disputar votos.

O que merece questionamento é quando a fronteira entre adversário político e criminoso começa a desaparecer no discurso eleitoral.



Flávio começou pelo Nordeste justamente em Alagoas


O episódio ocorreu em um momento de forte simbolismo para a campanha do PL. Flávio Bolsonaro escolheu Alagoas para sua primeira incursão ao Nordeste como candidato à Presidência e esteve acompanhado permanentemente por Alfredo Gaspar, seu vice. A programação incluiu carreata, encontros com apoiadores e empresários e compromissos religiosos.

O paradoxo é que o discurso foi feito justamente em um Estado onde Flávio Bolsonaro está atrás de Lula por 15 pontos percentuais.

Segundo a Quaest, no cenário apresentado, são 45% para Lula contra 30% para Flávio.

A pesquisa ouviu 804 eleitores de Alagoas entre 20 e 23 de agosto, tem margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos e nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado na Justiça Eleitoral sob os números AL-05503/2026 e BR-09091/2026.

Diante dos números, a questão deixa de ser apenas eleitoral.

Se “a bandidagem vota no Lula” e os “homens e mulheres de bem” estão do outro lado, como Alfredo Gaspar enxerga os quase metade dos alagoanos que dizem votar no presidente?

É uma pergunta que, depois da declaração, cabe ao próprio candidato a vice responder.