Onde está JHC? Após operação da PF no Iprev, silêncio do ex-prefeito vira versão alagoana de “Onde está Wally?”
Ex-prefeito de Maceió ainda não veio a público dar explicações sobre aplicações milionárias feitas no IPREV durante sua gestão; informações de bastidores dizem que ele estaria em São Paulo, mas localização não foi confirmada
Quem se lembra do famoso “Onde está Wally?”, série de livros em que o leitor precisa encontrar um personagem de camisa listrada perdido no meio de uma multidão, talvez esteja diante de uma versão alagoana da brincadeira.
Só que, desta vez, o assunto é sério e envolve milhões de reais pertencentes à previdência dos servidores públicos municipais.
Onde está JHC?
Desde que a Polícia Federal cumpriu, na segunda-feira (10), mandados de busca e apreensão em Alagoas e São Paulo no âmbito das investigações sobre as aplicações do Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Maceió (Iprev) no Banco Master, o ex-prefeito João Henrique Caldas, o JHC, ainda não apareceu publicamente para explicar sua posição sobre o episódio. O secretário de Fazenda de sua gestão João Luiz Borges, homem forte de seu governo e que se indispunha com outros secretários, teve os bens bloqueados. Agora JHC, não pode alegar que não tem nada a ver com o pato, pois, ao menos seu secretário, importado da cidade de Campos, no RJ, está envolvido e indiciado.
A investigação da PF tem como objeto duas aplicações realizadas em 2023 e 2024, durante a administração de JHC na Prefeitura de Maceió, que somaram R$ 97 milhões em letras financeiras do Banco Master. Os investigadores procuram esclarecer aspectos relacionados ao credenciamento da instituição financeira, às análises de risco, à governança e ao processo de decisão que levou o dinheiro previdenciário ao banco.
Há informações circulando nos bastidores políticos de que JHC estaria em São Paulo. Até o momento, porém, a Tribuna do Sertão não encontrou confirmação pública ou documental capaz de assegurar sua localização.
E é justamente aí que começa a inevitável analogia.
Onde está JHC?
Estaria na Avenida Paulista?
Na Faria Lima?
Em alguma reunião política?
Em um hotel?
Ou simplesmente decidiu permanecer distante do epicentro de uma crise que nasceu dentro de uma instituição - mesmo que autônoma - mas vinculada à administração municipal, onde seu secretário da fazenda comandava como presidente do conselho, quando os investimentos foram realizados?
A diferença entre o personagem dos livros e a política de Maceió é que, no primeiro caso, encontrar Wally é apenas diversão.
No caso do Iprev, encontrar respostas é obrigação pública.
JHC renunciou à Prefeitura de Maceió em abril deste ano para disputar as eleições de 2026. Embora atualmente não exerça mais o cargo de prefeito, as duas aplicações investigadas pela Polícia Federal ocorreram quando ele comandava o município.
Isso não significa que JHC seja investigado nem que tenha participado diretamente das decisões financeiras — até o momento, não há informação pública nesse sentido.
Mas existe uma questão política que permanece.
O Iprev integrava a estrutura administrativa do município durante seu governo e administrava dinheiro destinado à aposentadoria e às pensões dos servidores municipais.
Por isso, diante da dimensão do episódio, espera-se que o ex-prefeito explique o que sabia sobre as operações, quais informações recebeu de sua equipe e que avaliação faz agora das decisões tomadas naquela época.
R$ 97 milhões no centro da investigação
Segundo a Polícia Federal, foram realizadas duas aplicações em letras financeiras do Banco Master: uma de R$ 80 milhões, em dezembro de 2023, e outra de R$ 17 milhões, em maio de 2024.
A investigação busca saber se foram cumpridos adequadamente os procedimentos de análise de risco, credenciamento, governança e tomada de decisão antes da aplicação do patrimônio previdenciário.
A operação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, e contou com participação da Controladoria-Geral da União.
Também foram determinadas medidas patrimoniais contra investigados.
A Polícia Federal trabalha com hipóteses investigativas e, nesta fase, não existe condenação dos envolvidos. A responsabilidade individual de cada pessoa deverá ser estabelecida ao longo do inquérito e eventualmente do processo judicial.
Silêncio começa a produzir ruído
Politicamente, entretanto, quanto mais o tempo passa, maior fica o espaço ocupado pelo silêncio.
O caso já ganhou repercussão nacional e trouxe para o centro do debate uma pergunta que interessa principalmente aos aposentados, pensionistas e servidores de Maceió:
como R$ 97 milhões da previdência municipal foram parar em letras financeiras do Banco Master?
É uma pergunta que precisa ser respondida pelos dirigentes e técnicos que participaram das decisões, mas que também inevitavelmente alcança a administração municipal sob a qual os investimentos ocorreram.
JHC construiu parte importante de sua trajetória política com forte presença nas redes sociais. Vídeos, transmissões, anúncios e manifestações públicas sempre fizeram parte de sua estratégia de comunicação.
Por isso mesmo, seu silêncio neste episódio chama atenção.
E transforma uma pergunta simples numa espécie de jogo político que Maceió acompanha desde a operação:
Onde está JHC?
Se realmente estiver em São Paulo, como dizem interlocutores políticos, a pergunta sobre sua localização provavelmente será resolvida rapidamente.
A pergunta muito mais importante, porém, continuará esperando resposta:
o que JHC tem a dizer sobre os R$ 97 milhões da previdência de Maceió aplicados no Banco Master durante sua gestão?
Neste caso, diferentemente de “Onde está Wally?”, não basta encontrar o personagem.
É preciso encontrar as respostas.