Rodrigo Cunha herda e mantém repasses milionários ao Fundo do IPREV, mas gestão não diz até quando Tesouro bancará insuficiência milionária
Prefeitura confirma transferências que somaram R$ 58,5 milhões entre janeiro e abril, invoca patrimônio de R$ 1,6 bilhão, mas não apresenta projeção para o restante de 2026
A Prefeitura de Maceió respondeu à reportagem da Tribuna do Sertão sobre os quase R$ 59 milhões transferidos pelo Tesouro municipal ao Fundo Financeiro (FUFIN) nos quatro primeiros meses de 2026, mas a resposta encaminhada ao jornal não esclarece as principais questões levantadas pelos documentos oficiais.
A gestão municipal afirmou ser “absolutamente falsa” a afirmação de que a Prefeitura estaria pagando para “cobrir um déficit do Instituto de Previdência” e destacou que o Maceió Previdência possui investimentos superiores a R$ 1,6 bilhão.
Ao mesmo tempo, entretanto, a própria Prefeitura confirmou a existência das transferências mensais do Tesouro para o FUFIN.
E é exatamente sobre essas transferências que tratam os documentos obtidos pela Tribuna.
Os Demonstrativos de Informações Previdenciárias e Repasses (DIPR), encaminhados oficialmente ao Ministério da Previdência Social, registram a rubrica “Transferência para Cobertura Insuficiência Financeira”.
Foram R$ 10,51 milhões em janeiro e R$ 16,56 milhões em fevereiro.
Em março, outros R$ 14,99 milhões, e em abril, R$ 16,51 milhões.
Somados, os valores chegam a R$ 58.578.730,52 em apenas quatro meses.
Prefeitura cita patrimônio de R$ 1,6 bilhão
Na resposta enviada à Tribuna, a Prefeitura procurou destacar a situação patrimonial do fundo previdenciário capitalizado.
“A afirmação que a Prefeitura de Maceió pagaria para ‘cobrir um déficit do Instituto de Previdência’ é absolutamente falsa. O Instituto, hoje, é um dos mais capitalizados do país, somando investimentos que ultrapassam R$ 1,6 bilhão”, afirmou a gestão.
A Prefeitura acrescentou que o Fundo de Previdência do Estado de Alagoas teria R$ 1,2 bilhão e sustentou que, por isso, o instituto de Maceió supera o patrimônio do regime estadual.
Esse argumento, entretanto, não altera os números encontrados pela Tribuna sobre o FUFIN, porque os próprios documentos previdenciários distinguem o Plano Financeiro das demais estruturas do regime.
Gestão confirma repasses ao FUFIN
Na sequência da resposta, a própria Prefeitura explica que o Fundo Financeiro (FUFIN) recebe recursos provenientes das contribuições previdenciárias e também do Tesouro Municipal.
“O Fundo Financeiro (FUFIN), citado no texto, possui caráter estritamente provisório e transitório. Trata-se de fundo remunerado pelas contribuições previdenciárias e transferências do Tesouro Municipal”, afirmou.
A administração também sustentou que o FUFIN não possui vinculação com o fundo previdenciário capitalizado nem com a gestão dos investimentos do instituto.
Portanto, a existência das transferências não é objeto de divergência.
Ela está demonstrada nos DIPRs e é reconhecida pela própria Prefeitura.
A questão que permanece é outra: qual é a dimensão dessa necessidade financeira, por quanto tempo ela continuará e quanto custará ao Tesouro municipal?
Resposta não informa quanto será necessário em 2026
A Tribuna havia questionado a administração sobre a recorrência e a projeção desses repasses.
A resposta enviada pela Prefeitura, porém, não informa quanto o Município espera transferir ao FUFIN até dezembro.
Também não apresenta uma projeção indicando se os valores mensais, que chegaram a R$ 16,5 milhões, devem subir, diminuir ou permanecer no mesmo patamar.
Não esclarece ainda por quantos anos o Tesouro municipal deverá continuar realizando transferências dessa magnitude.
Essas informações são relevantes porque, em apenas quatro meses, o desembolso já alcançou quase R$ 59 milhões.
Mantida apenas como exercício matemático a média mensal observada no primeiro quadrimestre — cerca de R$ 14,6 milhões —, o total anual ultrapassaria R$ 175 milhões. A projeção não representa previsão oficial, justamente porque a Prefeitura não informou à reportagem qual é sua estimativa para os meses seguintes.
O que os documentos efetivamente dizem
Os demonstrativos oficiais não deixam dúvida sobre a classificação das transferências.
No DIPR de janeiro e fevereiro, o valor aparece no item 4.2 — “Transferência para Cobertura Insuficiência Financeira”, integralmente relacionado ao Plano Financeiro.
A mesma classificação é repetida no documento de março e abril.
No quadro de ingressos do regime, os valores também aparecem contabilizados entre os aportes. Em janeiro foram aproximadamente R$ 10,52 milhões e em fevereiro R$ 16,56 milhões.
Nos dois meses seguintes, foram aproximadamente R$ 15,01 milhões e R$ 16,51 milhões.
Ou seja: a terminologia “cobertura de insuficiência financeira” não foi criada pela Tribuna. É a nomenclatura utilizada no próprio demonstrativo oficial apresentado ao Ministério da Previdência.
R$ 1,6 bilhão não responde à questão do FUFIN
A Prefeitura optou por destacar os R$ 1,6 bilhão em investimentos administrados pelo regime previdenciário.
O número é relevante, mas responde a uma questão diferente.
A reportagem da Tribuna trata da quantidade de dinheiro que o Tesouro municipal vem transferindo mensalmente ao FUFIN.
Por isso, citar o patrimônio acumulado em outra estrutura do regime não esclarece:
por que foram necessários R$ 58,57 milhões em quatro meses;
quanto ainda será necessário transferir em 2026;
qual é a projeção para os próximos anos;
e qual será o impacto desses pagamentos sobre o orçamento municipal.
São essas as questões que permanecem abertas após o posicionamento da Prefeitura.
Duas gestões atravessam o período
Os documentos analisados abrangem janeiro, fevereiro, março e abril de 2026.
Por isso, os repasses alcançam períodos de duas administrações municipais: JHC comandou a Prefeitura até 4 de abril, e Rodrigo Cunha assumiu posteriormente a chefia do Executivo.
A responsabilidade da gestão atual é, sobretudo, explicar qual é a situação que recebeu, qual a necessidade presente do FUFIN e qual será a política adotada daqui para frente.
Nos demonstrativos mais recentes, Rodrigo Santos Cunha aparece como representante legal do ente e Guilherme Emmanuel Lanzillotti Alvarenga como representante da unidade gestora.
Perguntas continuam sem resposta
Após o posicionamento encaminhado pela Prefeitura, permanecem três questões objetivas:
Qual é a projeção oficial de transferências do Tesouro para o FUFIN até dezembro de 2026?
Por quanto tempo a Prefeitura estima que serão necessários repasses mensais na faixa registrada atualmente?
Qual será o impacto anual e de médio prazo dessas transferências sobre o orçamento municipal?
A Tribuna do Sertão mantém espaço aberto para que a Prefeitura de Maceió e o Iprev apresentem essas informações.
A resposta será incorporada à reportagem tão logo seja encaminhada.