Rodrigo Cunha manterá secretário da Fazenda alvo da PF e atingido por bloqueio determinado pelo STF?
Prefeito construiu carreira política com discurso de combate à corrupção e transparência; João Felipe Alves Borges foi alvo de busca e apreensão e integra grupo submetido a indisponibilidade patrimonial de até R$ 97 milhões
Uma pergunta passa a ocupar o centro político da Prefeitura de Maceió nesta segunda-feira (10), após a divulgação dos detalhes da operação da Polícia Federal sobre os investimentos milionários do Iprev no Banco Master:
Rodrigo Cunha manterá João Felipe Alves Borges à frente da Secretaria Municipal da Fazenda depois de o secretário ter sido alvo de busca e apreensão da Polícia Federal e incluído em uma ordem de sequestro, bloqueio e indisponibilidade de bens determinada pelo Supremo Tribunal Federal?
A questão ganha peso especial por causa da própria trajetória política do atual prefeito.
Rodrigo Cunha construiu parcela importante de sua imagem pública associando seu nome ao combate à corrupção, à transparência e ao controle social dos recursos públicos.
Quando chegou ao Senado, em fevereiro de 2019, reportagem oficial da Rádio Senado apresentava literalmente o “combate à corrupção” como bandeira do senador Rodrigo Cunha e registrava que transparência e controle social estavam entre suas principais pautas
Mas o discurso vinha de antes.
Ainda como deputado estadual, em abril de 2017, Rodrigo Cunha foi à tribuna da Assembleia Legislativa de Alagoas defender as operações de combate à corrupção, manifestou apoio à Lava Jato e cobrou maior transparência dos poderes públicos. Na ocasião, defendeu mecanismos que permitissem à população fiscalizar a aplicação dos recursos públicos.
Agora, já sentado na cadeira de prefeito de Maceió, Rodrigo Cunha enfrenta uma situação concreta que coloca à prova esse discurso político.
Secretário herdado de JHC foi mantido por Rodrigo
João Felipe Alves Borges comandava a Secretaria da Fazenda durante a administração do ex-prefeito JHC e foi mantido no primeiro escalão quando Rodrigo Cunha assumiu definitivamente a Prefeitura, após a saída de JHC em abril deste ano.
Na composição administrativa divulgada após a troca de comando, João Felipe permaneceu expressamente relacionado como secretário municipal da Fazenda.
Não se trata, portanto, apenas de um secretário pertencente à administração anterior.
Ao decidir mantê-lo no cargo, Rodrigo Cunha incorporou João Felipe à sua própria administração.
E é nessa condição -secretário da Fazenda da atual gestão - que João Felipe aparece agora entre os alvos da operação federal.
Alvo de busca da Polícia Federal
A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou oito mandados de busca e apreensão relacionados à investigação sobre os investimentos do Iprev no Banco Master.
Seis pessoas foram nominalmente atingidas, entre elas João Felipe Alves Borges. Também foram realizadas buscas nas sedes do Iprev e da consultoria Crédito & Mercado.
Segundo a decisão, João Felipe integrava o Conselho de Administração do Iprev no período das aplicações investigadas. O colegiado possuía atribuições relacionadas às diretrizes e à política de investimentos do instituto.
A Polícia Federal procura esclarecer sua participação nas deliberações relacionadas às aplicações e autorizou a busca por mensagens, agendas, documentos, arquivos digitais, dados de computadores, celulares e comunicações que possam ajudar a reconstruir o processo decisório.
STF determina indisponibilidade patrimonial
João Felipe também foi incluído entre os seis investigados alcançados pela ordem de sequestro, bloqueio e indisponibilidade de bens determinada por André Mendonça.
O limite estabelecido é de R$ 97 milhões globalmente para o conjunto dos seis investigados, e não R$ 97 milhões individualmente para cada um deles.
A investigação envolve duas aplicações em Letras Financeiras subordinadas do Banco Master: R$ 80 milhões em dezembro de 2023 e outros R$ 17 milhões em maio de 2024.
As medidas patrimoniais têm natureza cautelar.
João Felipe não foi condenado, e sua inclusão na investigação não significa que esteja comprovada responsabilidade criminal. É justamente o aprofundamento das investigações que deverá determinar se houve crime e qual foi a eventual participação de cada pessoa.
André Mendonça não afastou secretário
Existe outro ponto importante.
A Polícia Federal pediu também o afastamento de investigados de suas funções públicas ou atividades econômicas. André Mendonça não acolheu essa parte do pedido.
O ministro considerou que, naquele momento, não existiam elementos concretos suficientes para demonstrar risco atual de interferência na investigação que justificasse o afastamento cautelar.
Assim, o STF não determinou que João Felipe deixe a Secretaria da Fazenda.
Isso significa que, do ponto de vista judicial, ele pode permanecer no cargo.
Mas a decisão de mantê-lo ou não passa agora também pelo campo administrativo e político.
E a caneta, nesse caso, está com Rodrigo Cunha.
A bandeira anticorrupção diante de um caso concreto
É exatamente nesse ponto que a história política do atual prefeito ganha relevância.
Quando tomou posse como senador em 2019, Rodrigo Cunha aparecia em comunicação oficial do Senado como um parlamentar que pretendia colocar o combate à corrupção entre as prioridades do mandato.
A reportagem da Rádio Senado foi ainda mais direta: dizia que o combate à corrupção era sua “principal pauta” e mencionava transparência e controle social como suas bandeiras.
Dois anos antes, na Assembleia Legislativa, Rodrigo já defendia publicamente as operações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal contra a corrupção e cobrava transparência na aplicação dos recursos públicos.
Ao longo de sua trajetória eleitoral, essa posição ajudou a construir a imagem de um político identificado com renovação, fiscalização e enfrentamento a práticas tradicionais da política alagoana.
Agora, entretanto, Rodrigo Cunha não está na oposição, no parlamento ou diante de um microfone cobrando providências de outro governante.
Ele é o prefeito.
E um dos integrantes de seu primeiro escalão acaba de ser alvo de uma operação da Polícia Federal autorizada pelo Supremo Tribunal Federal.
O dilema de Rodrigo Cunha
Isso coloca diante do prefeito uma decisão politicamente delicada.
De um lado, João Felipe não foi condenado e sequer foi afastado preventivamente pelo STF. A presunção de inocência deve ser respeitada.
De outro, não se está diante apenas de uma investigação abstrata.
O secretário da Fazenda foi nominalmente alvo de mandado de busca e apreensão, integrava uma das instâncias de governança do Iprev no período investigado e foi incluído entre os seis investigados submetidos à ordem de indisponibilidade patrimonial de até R$ 97 milhões.
É uma circunstância que ultrapassa o debate exclusivamente jurídico e produz inevitavelmente uma questão de natureza política e administrativa.
O prefeito poderá entender que a inexistência de condenação e a negativa judicial de afastamento justificam a permanência do secretário.
Poderá também considerar que a gravidade institucional da investigação recomenda o afastamento, ainda que temporário, até que os fatos sejam esclarecidos.
Qualquer uma dessas escolhas terá consequência política.
O que Rodrigo cobraria se estivesse na oposição?
A pergunta é especialmente pertinente porque, durante anos, Rodrigo Cunha esteve do outro lado dessa equação.
Foi parlamentar fiscalizando governos.
Defendeu a Lava Jato.
Cobrou transparência dos poderes.
Apresentou o combate à corrupção como bandeira de mandato.
Agora o caso ocorre dentro da administração que ele próprio comanda.
Por isso, mais do que saber o que o STF decidiu — a decisão já é conhecida —, Maceió precisa saber qual será a decisão política de Rodrigo Cunha.
O prefeito manterá no comando de uma das secretarias mais estratégicas do município um auxiliar que está formalmente submetido a investigação federal, busca e apreensão e constrição patrimonial?
Ou entenderá que a mesma postura de rigor e transparência que defendia quando era deputado e senador deve ser aplicada agora dentro do seu próprio governo?
Silêncio também será uma resposta
João Felipe continua secretário porque o STF não determinou seu afastamento. A permanência, entretanto, depende politicamente da confiança do prefeito.
É por isso que o episódio se tornou também um teste para Rodrigo Cunha.
Não se trata de antecipar culpa de João Felipe, tarefa que cabe às autoridades e que somente poderá ser definida com o devido processo legal.
Trata-se de outra questão: qual padrão político e administrativo o prefeito pretende adotar diante de um integrante do seu governo atingido por uma investigação dessa magnitude?
Rodrigo Cunha construiu sua carreira dizendo o que deveria ser feito quando fatos semelhantes alcançavam outros governos.
Agora, pela primeira vez como chefe do Executivo de Maceió, terá que demonstrar como suas bandeiras de combate à corrupção, transparência e controle dos recursos públicos funcionam quando a crise chega ao seu próprio primeiro escalão.
E a pergunta permanece: Rodrigo Cunha manterá João Felipe Alves Borges à frente da Secretaria da Fazenda?
A Tribuna do Sertão deixa o espaço aberto para que o prefeito, a Prefeitura de Maceió e o secretário João Felipe Alves Borges apresentem seus posicionamentos sobre a operação e sobre a permanência do secretário no cargo.