Pressão do PL sobre chapa de JHC reacende impasse: haverá palanque para Flávio Bolsonaro em Alagoas?
Alfredo Gaspar já condicionou aliança a um palanque forte para o candidato presidencial do PL; meses depois, legenda exige vice de JHC, mas ata das 23h58 não menciona eleição presidencial
A nova pressão do Partido Liberal sobre a composição da chapa de JHC ao Governo de Alagoas recoloca no centro da disputa eleitoral uma pergunta que parecia ter sido empurrada para depois: JHC dará ou não palanque a Flávio Bolsonaro na eleição presidencial?
A ata transmitida pelo PL à Justiça Eleitoral às 23h58 de quinta-feira (6) não fala em eleição presidencial e não estabelece qualquer obrigação formal de apoio a Flávio.
O documento trata exclusivamente da eleição estadual.
Mas impõe duas condições importantes para a participação do partido na aliança: JHC deve ser o candidato ao Governo e o PL terá o direito de indicar o candidato a vice-governador. A escolha da vice é classificada no texto como condição de “validade e eficácia” da coligação.
O problema é que, politicamente, a discussão sobre a participação do PL na chapa de JHC já havia sido vinculada anteriormente ao projeto presidencial de Flávio Bolsonaro.
ALFREDO JÁ CONDICIONOU ALIANÇA AO PALANQUE NACIONAL
Em 17 de maio, quando ainda era tratado como candidato ao Senado por Alagoas, Alfredo Gaspar afirmou publicamente que um acordo com JHC dependeria da posição do então pré-candidato ao Governo em relação à disputa presidencial.
Na ocasião, Gaspar defendeu uma união das oposições estaduais, mas disse que o objetivo era construir “um palanque forte para Flávio Bolsonaro”. Também afirmou que, se isso não fosse possível, o PL poderia seguir outro caminho na eleição alagoana.
A declaração estabeleceu, naquele momento, uma ligação clara entre dois acordos: o estadual e o presidencial.
Duas semanas depois, porém, as negociações pareciam avançar sem que JHC tivesse assumido compromisso público com Flávio.
Reportagem publicada em 1º de junho registrou que as conversas entre JHC e Alfredo Gaspar continuavam mesmo sem uma adesão pública do tucano à candidatura presidencial do PL.
Um interlocutor de JHC afirmou então que os acordos políticos ficariam restritos a Alagoas e apresentou o ex-prefeito como resistente a imposições externas ao entendimento estadual.
O assunto não foi definitivamente resolvido.
JHC DEIXOU O PL EM MEIO À DISPUTA POR AUTONOMIA
A discussão ganha peso adicional porque JHC deixou o próprio Partido Liberal no início de abril e se filiou ao PSDB.
A mudança foi acompanhada pela senadora Eudócia Caldas e por Marina Cândia e ocorreu em meio ao rompimento político com Arthur Lira.
À época, interlocutores apontavam que uma das razões do desgaste era justamente a disputa em torno da montagem da chapa majoritária de Alagoas. Reportagem da Agência Estado publicada pelo UOL registrou que a crise envolvia articulações para pressionar JHC a disputar o Governo, deixando as vagas ao Senado para o campo político ligado a Lira.
Poucos dias antes, a Folha também havia noticiado que Arthur Lira dera um ultimato a JHC para que definisse sua posição na composição eleitoral.
Quatro meses depois, JHC volta a negociar uma aliança com os mesmos grupos, agora filiado ao PSDB.
E as novas atas mostram que o conflito sobre quem define os espaços da chapa ainda existe.
PSDB RESERVA VICE; PL EXIGE O CARGO
Na convenção do PSDB/Cidadania, a federação aprovou que teria candidatos tanto a governador quanto a vice-governador e delegou à sua Executiva, presidida por JHC, a definição dos nomes.
A União Progressista e o PL adotaram posição diferente.
Ambos condicionam a aliança ao nome de JHC para governador e reservam ao Partido Liberal a indicação da vice.
A disputa estadual, portanto, está documentada.
O que ainda não está documentado é qualquer compromisso de JHC com Flávio Bolsonaro.
UMA COISA NÃO SIGNIFICA AUTOMATICAMENTE A OUTRA
A indicação da vice pelo PL não significa, juridicamente, que JHC tenha aceitado apoiar Flávio Bolsonaro.
Essa condição não aparece na ata das 23h58.
É preciso separar os dois fatos.
O primeiro é documental: o PL exige indicar o vice na chapa estadual.
O segundo é político: dirigentes do partido já afirmaram que desejam ligar a aliança em Alagoas ao palanque presidencial de Flávio Bolsonaro.
Por isso, a montagem da chapa estadual pode terminar exigindo de JHC uma definição que ele conseguiu adiar durante parte da pré-campanha.
Ele poderá aceitar o PL na chapa estadual e manter liberdade na eleição presidencial?
Ou o partido voltará a exigir, como Alfredo Gaspar já fez publicamente, que a aliança estadual seja acompanhada pelo apoio a Flávio?
A resposta terá consequências também para Ronaldo Lessa.
O atual vice-governador, presidente estadual do PDT e historicamente ligado ao campo político da esquerda, foi indicado por seu partido para permanecer na vice de JHC. Na ata do PL das 23h58, entretanto, o PDT sequer aparece entre os integrantes da coligação.
JHC, portanto, está diante de duas negociações que começam a se encontrar.
Uma define quem estará ao seu lado na chapa estadual.
A outra definirá em qual palanque presidencial ele estará — ou se tentará permanecer sem um alinhamento nacional explícito.
Por enquanto, a ata do PL responde apenas à primeira.
A segunda pergunta continua sem resposta pública definitiva: JHC aceitará apenas a vice indicada pelo PL ou a aliança acabará levando também ao palanque de Flávio Bolsonaro?