“Teimosinho” Rodrigo Cunha tenta virar Podemos para JHC, mas convenção pró-MDB já estava registrada
Ata de 31 de julho reconhece Mosart Amaral como presidente da Comissão Provisória e aprova por unanimidade aliança com o MDB; cinco dias depois, Rodrigo, já qualificado como presidente destituído, apresentou documento em direção oposta
A disputa pelo comando do Podemos em Alagoas ganhou um novo capítulo — e a cronologia dos documentos registrados na Justiça Eleitoral ajuda a compreender a dimensão do conflito.
Antes de Rodrigo Cunha, já identificado em outra ata como presidente destituído da Comissão Provisória Estadual, apresentar um documento tentando colocar o Podemos na coligação da Federação PSDB/Cidadania, o partido já havia realizado e registrado uma convenção estadual sob a presidência de Mosart da Silva Amaral, com decisão expressa de apoiar o bloco liderado pelo MDB.
A primeira convenção ocorreu em 31 de julho de 2026, das 9h às 14h, no Edifício Ocean Tower, na Pajuçara, em Maceió.
O documento identifica Mosart da Silva Amaral como presidente da Comissão Provisória Estadual do Podemos e informa que a reunião ocorreu após convocação publicada no Diário Oficial de Alagoas em 22 de julho.
Mais importante: essa ata foi enviada ao sistema da Justiça Eleitoral no próprio dia 31 de julho, às 14h34.
Ou seja, quando Rodrigo Cunha posteriormente apresentou sua própria ata, já existia no sistema eleitoral uma convenção do Podemos de Alagoas apontando para direção política completamente diferente.
Podemos de Mosart escolheu o MDB
A deliberação da convenção de 31 de julho é objetiva.
Os convencionais decidiram que o Podemos faria coligação para governador, vice-governador e as duas vagas ao Senado com:
MDB, PSD, PSB, Federação Brasil da Esperança — PT, PV e PCdoB —, Federação Renovação Solidária — Solidariedade e PRD — e Avante.
Ficou estabelecido ainda que caberia à convenção estadual do MDB escolher e homologar os candidatos aos cargos majoritários.
Na prática, era a entrada do Podemos no bloco de Renan Filho, Renan Calheiros e Dr. Wanderley.
A decisão foi aprovada por aclamação e por unanimidade dos convencionais presentes.
Partido não lançou candidatos proporcionais
A mesma convenção tomou outra decisão importante: o Podemos não apresentaria candidatos a deputado federal nem a deputado estadual nas eleições de 2026.
A deliberação aparece tanto na discussão quanto no resultado final aprovado pela convenção.
Por isso, o documento registrado na Justiça Eleitoral não apresenta nominata proporcional própria.
Convenção tinha sete nomes na lista de presença
A lista de presença registra sete participantes.
Entre eles aparecem Mosart da Silva Amaral, que presidiu a convenção, e Carlos Eduardo Moura do Nascimento, responsável por secretariar os trabalhos, além de Ana Carolina de Freitas Albuquerque Cavaliere, Bernar Leitão Praxedes, Breno Leitão Praxedes, Claysonn Thiago Peixoto de Melo e Victor de Goes Dourado Gomes.
O documento registra oficialmente Mosart como presidente dos trabalhos e Carlos Eduardo como secretário.
E então aparece Rodrigo Cunha
Dias depois, surgiu outra ata.
Desta vez, uma convenção realizada em 5 de agosto, presidida por Rodrigo Santos Cunha.
Mas o próprio documento apresentado por esse grupo faz uma ressalva incomum: identifica Rodrigo como “Presidente Destituído da Comissão Provisória Estadual do PODEMOS em Alagoas” e reconhece que a controvérsia sobre a destituição estava submetida ao Judiciário.
Essa segunda ata aponta o Podemos para outra direção: aliança com a Federação PSDB/Cidadania, justamente o bloco político comandado por JHC.
Tem-se, portanto, dois documentos com orientações políticas opostas.
O “teimosinho” do Podemos?
Politicamente, Rodrigo Cunha parece decidido a não aceitar pacificamente a perda do comando partidário.
Mesmo depois de uma convenção presidida por Mosart Amaral ter sido realizada e registrada em 31 de julho, com apoio ao MDB, o grupo ligado a Rodrigo voltou ao sistema dias depois e apresentou uma nova deliberação direcionando o partido para o PSDB/Cidadania.
A insistência justifica, no ambiente político, a alcunha de “teimosinho”.
Mas juridicamente é necessário separar ironia de fato: a validade da destituição está submetida à Justiça Eleitoral, e será ela, em última instância, que poderá definir qual órgão tinha legitimidade para representar o Podemos e quais atos produzirão efeitos no processo eleitoral.
Ata anterior já estava no sistema
A cronologia é talvez o aspecto mais relevante.
31 de julho, 9h: começa a convenção presidida por Mosart Amaral.
31 de julho, 14h: termina a convenção.
31 de julho, 14h34: a ata é enviada à Justiça Eleitoral.
5 de agosto: o grupo de Rodrigo Cunha realiza outra convenção, apesar de a própria documentação classificá-lo como presidente destituído.
Portanto, a ata pró-MDB não apareceu depois para responder a Rodrigo Cunha. Ela já estava registrada vários dias antes.
Esse detalhe enfraquece qualquer impressão de que houvesse um vazio partidário absoluto no momento da atuação do grupo destituído.
Havia uma Comissão Provisória, havia um presidente identificado no documento, havia convenção realizada e havia decisão eleitoral encaminhada ao sistema.
Duas atas e dois caminhos
Pela ata de Mosart Amaral, o Podemos segue com o MDB.
Pela ata apresentada posteriormente pelo grupo de Rodrigo Cunha, o Podemos caminharia com o PSDB/Cidadania.
E há outra diferença fundamental: enquanto o documento de 31 de julho simplesmente apresenta Mosart como presidente da Comissão Provisória Estadual, o documento posterior precisa registrar expressamente que Rodrigo exerce a condição de presidente destituído e que existe uma disputa judicial sobre a questão.
O resultado é uma sobreposição de atos que deverá ser enfrentada pela Justiça Eleitoral no momento de analisar a regularidade partidária e o DRAP das coligações.
Quem representa, afinal, o Podemos?
É essa a pergunta que ficará para o TRE de Alagoas.
Mas um fato documental já está estabelecido:
antes de Rodrigo Cunha tentar registrar o Podemos no bloco de JHC, o partido já tinha uma ata registrada na Justiça Eleitoral,presidida por Mosart Amaral, aprovando por unanimidade sua entrada na coligação do MDB.
Rodrigo Cunha pode continuar insistindo.
Mas, desta vez, o “teimosinho” encontrou no sistema eleitoral uma ata que chegou primeiro.