Renovação Solidária sofre intervenção política nacional e muda de lado a pulso em Alagoas
Documento revela que direção nacional agiu diante de “impasse político e institucional” provocado por disputa interna; um dia depois de ata estadual fechar com MDB, comando nacional aprovou Arthur Lira ao Senado, JHC ao Governo e vice indicado pelo PL
A crise interna na Federação Renovação Solidária, formada por PRD e Solidariedade, ganhou uma dimensão nacional e provocou uma completa mudança na posição política da legenda em Alagoas.
Uma ata da Comissão Executiva Nacional da Federação Renovação Solidária, enviada à Justiça Eleitoral nesta quinta-feira (6), às 21h21, mostra que o comando nacional assumiu diretamente as deliberações eleitorais em Alagoas diante do que o próprio documento classifica como um “relevante impasse político e institucional” no funcionamento da direção estadual.
Na prática, trata-se de uma atuação substitutiva da Executiva Nacional sobre as decisões eleitorais de Alagoas, com características de intervenção política. O documento, entretanto, não utiliza literalmente a palavra “intervenção”. Juridicamente, a formulação mais precisa é dizer que a direção nacional chamou para si as deliberações diante do impasse existente na instância estadual.
E o resultado foi uma guinada de 180 graus.
Apenas um dia antes, a direção estadual da própria Renovação Solidária havia aprovado aliança com o MDB e declarado expressamente que essa decisão significava excluir o apoio à Federação União Progressista.
Agora, a Executiva Nacional coloca a Renovação Solidária na coligação “Alagoas Forte”, apoia JHC para governador, Arthur Lira para senador, entrega a segunda vaga ao Senado à Federação PSDB/Cidadania e estabelece que o vice-governador será indicado pelo PL.
Nacional cita disputa judicial e “impasse político e institucional”
A ata explica detalhadamente a razão da atuação nacional.
Segundo o documento, a Comissão Provisória Estadual havia realizado convenção no dia 24 de julho e delegado poderes à própria direção estadual para complementar posteriormente as decisões eleitorais.
O problema surgiu com a ação ajuizada pelo diretório estadual do Solidariedade e por seu presidente, Adeilson Teixeira Bezerra, questionando a validade daquela convenção e a própria composição da Comissão Provisória Estadual da federação.
A controvérsia tramita no Mandado de Segurança nº 0600472-78.2026.6.02.0000, no Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas.
A Executiva Nacional registra, ipsis litteris, que a disputa:
“ocasionou relevante impasse político e institucional quanto ao regular funcionamento e à representação do órgão estadual da Federação Renovação Solidária no Estado de Alagoas”.
E acrescenta que a situação colocava em risco a adoção, dentro do prazo, das providências necessárias aos registros eleitorais de 2026.
É esse trecho que sustenta a interpretação de que houve uma atuação nacional de caráter interventivo.
Estatuto foi usado para justificar atuação nacional
O documento cita expressamente o artigo 38 do Estatuto da Federação Renovação Solidária.
Segundo a ata, esse dispositivo permite a atuação da Comissão Executiva Nacional ou do órgão hierarquicamente superior quando, em razão de decisão da Justiça Eleitoral ou de impasse político, não existir órgão partidário em condições de exercer regularmente suas atribuições na circunscrição.
Logo depois de apresentar essa justificativa estatutária, a ata registra:
“Diante desse cenário, a Comissão Executiva Nacional da Federação Renovação Solidária deliberou realizar a convenção eleitoral”.
Ou seja: não foi a direção alagoana que tomou as novas decisões. Foi a Executiva Nacional.
A reunião foi presidida pelo presidente nacional da federação, Ovasco Roma Altimari Resende, tendo Paulo Pereira da Silva como vice-presidente nacional e secretário dos trabalhos.
Nacional muda completamente a decisão tomada em Alagoas
É aqui que a situação fica ainda mais relevante politicamente.
Na convenção estadual realizada em 4 de agosto, a Renovação Solidária havia decidido celebrar coligação majoritária com o MDB.
E não deixou margem para dúvida.
A ata estadual dizia expressamente:
“Fica claro que a coligação com o MDB significa excluí o apoio à Federação União Progressista.”
A decisão havia sido aprovada por unanimidade.
Um dia depois, em 5 de agosto, a Executiva Nacional tomou direção exatamente oposta.
Passou a reproduzir, praticamente, o desenho da aliança organizada pela Federação União Progressista de Arthur Lira.
Arthur Lira ganha apoio para o Senado
A Executiva Nacional decidiu que a Renovação Solidária não apresentará candidatura própria ao Senado.
Para a primeira vaga, aprovou apoio a Arthur Lira, da Federação União Progressista.
A ata ainda aprova toda a chapa de Lira:
Senador: Arthur Lira;
1º suplente: Luiz Romero Cavalcante Farias, do PL;
2ª suplente: Célia Rocha.
Para a segunda vaga ao Senado, a escolha ficará a cargo da Federação PSDB/Cidadania.
É justamente o mesmo desenho que havia sido registrado pela Executiva da União Progressista.
JHC é condição para apoio ao Governo
Para governador, a decisão nacional é ainda mais explícita.
A Renovação Solidária aprovou que o cargo seja indicado pela Federação PSDB/Cidadania, mas estabeleceu uma condição: o candidato terá de ser João Henrique Holanda Caldas, JHC.
O documento diz que a adesão da federação está “expressamente condicionada” a que a indicação recaia “exclusivamente” sobre JHC.
E ressalta que a aprovação não se estende a qualquer outro nome. Caso o PSDB/Cidadania escolha outra pessoa, a Renovação Solidária não aderirá à coligação.
Vice fica com o PL
Na mesma deliberação, a Executiva Nacional estabeleceu:
“O cargo de Vice-governador será indicado pelo Partido Liberal (PL).”
Esse ponto também reproduz o arranjo constante da ata posterior da Federação União Progressista e deixa a Renovação Solidária alinhada integralmente ao bloco de JHC.
“Alagoas Forte” é aprovada
A Executiva Nacional também aprovou o nome da coligação:
ALAGOAS FORTE.
E definiu Daniele Barros de Menezes Oliveira como representante da coligação perante a Justiça Eleitoral.
É a mesma denominação registrada pela Federação União Progressista para o bloco em torno de JHC.
A coincidência entre os dois documentos, portanto, não é pequena: governador, vice, primeira vaga ao Senado, segunda vaga ao Senado e denominação da coligação passam a seguir o mesmo desenho.
Nacional também mexeu na chapa de federal
A atuação da Executiva Nacional não ficou restrita à majoritária.
Foram aprovados dez candidatos a deputado federal.
São eles: Eucenia Vieira – 2512; Heloane Costa – 7777; Coronel Joana Darc – 2555; Val Amelio – 7700; Cícero Conceição – 7710; Gervásio Neto – 2525; Coronel Ivon – 2500; Dr. João Neto – 7720; Marcelo Gouveia – 2522; e Marcos Ferreira – 7711.
Há alterações em relação às decisões estaduais anteriores.
Na ata estadual de 4 de agosto, por exemplo, apareciam Afranio e Lau da Causa Animal entre os candidatos a federal. Na decisão nacional, eles deixam de aparecer e entram Val Amelio e Marcos Ferreira.
Também houve mudança nos números de algumas candidaturas, como Cícero Conceição e Dr. João Neto.
Portanto, a intervenção política da direção nacional atingiu não apenas a escolha do palanque majoritário, mas também a composição proporcional.
Gervásio Neto é mantido
Entre os nomes preservados está Gervásio Neto, candidato a deputado federal pelo PRD com o número 2525.
O ex-candidato a prefeito de Palmeira dos Índios permanece, assim, na disputa pela Câmara dos Deputados.
Helô — identificada na nova ata pelo nome de urna Heloane Costa — também permanece, com o número 7777.
Wadson Régis e Jaudeni permanecem para estadual
Na chapa para deputado estadual, a Executiva Nacional homologou uma relação extensa de candidatos.
Entre os nomes estão Wadson Régis – 77777, Jaudeni Coutinho – 77444, Everaldo Raposo – 77567, Fernandinho Enfermeiro – 77123, Willames do Centro – 77789, Romulo Medeiros – 77111, Tonhão do Bloco – 77465, Danilo da Mídia – 25321, Prof. Edilson – 25125, Coronel/PRF Lyara – 25444, entre outros.
Nacional nomeia novo representante eleitoral
Outro movimento relevante foi a escolha de Jorcelino José Braga como representante da Federação Renovação Solidária perante o TRE, o TSE e os demais órgãos da Justiça Eleitoral durante o processo eleitoral de 2026.
Ele é integrante da própria direção nacional que participou da reunião.
Esse ponto reforça a centralização das decisões no comando nacional diante da crise alagoana.
Mas direção estadual volta a receber poderes
Curiosamente, depois de assumir diretamente as principais definições, a Executiva Nacional voltou a conceder amplos poderes à Comissão Provisória Estadual.
A direção local ficou permanentemente convocada e recebeu autorização para:
rever as deliberações;
realizar outra coligação;
deixar a coligação atual e integrar outra;
retirar candidaturas;
e até escolher novos candidatos para cargos já definidos.
Ou seja, o quadro permanece juridicamente aberto até o encerramento dos registros.
Foi uma intervenção?
Na essência política, sim: houve uma atuação substitutiva do comando nacional sobre a direção estadual e suas decisões.
Mas é importante usar a expressão com precisão.
A ata não declara formalmente “fica decretada intervenção no diretório de Alagoas”, nem informa expressamente a dissolução da Comissão Provisória Estadual.
O que ela faz é reconhecer um “impasse político e institucional”, invocar um dispositivo estatutário que autoriza a instância nacional a agir quando o órgão estadual não consegue exercer regularmente suas atribuições e, a partir daí, a própria Executiva Nacional realiza as deliberações eleitorais de Alagoas.
E os efeitos políticos são típicos de uma intervenção: uma decisão tomada em Alagoas pelo MDB no dia 4 foi substituída, no dia 5, por uma decisão nacional que colocou a federação no palanque de JHC e Arthur Lira.
A sequência dos documentos é reveladora:
4 de agosto: direção estadual fecha com MDB e afirma expressamente que isso exclui apoio à União Progressista.
5 de agosto: Executiva Nacional assume as deliberações, invoca o impasse estadual e aprova JHC, Arthur Lira, vice do PL e a coligação “Alagoas Forte”.
6 de agosto, 21h21: a decisão nacional é transmitida à Justiça Eleitoral.
O que aconteceu dentro da Renovação Solidária, portanto, vai muito além de uma simples retificação de ata.
A direção estadual escolheu um lado. A Nacional entrou no jogo e escolheu o outro.