Atas expõem conflito na chapa de JHC: PDT indica Ronaldo Lessa para vice, mas União Progressista reserva vaga ao PL
Documentos enviados à Justiça Eleitoral no mesmo dia apresentam composições diferentes para a vice-governadoria; ata do PDT foi transmitida às 11h40 e a da federação comandada por Arthur Lira, às 18h27
Dois documentos partidários encaminhados à Justiça Eleitoral nesta quinta-feira (6) revelam um conflito importante na montagem da chapa majoritária que pretende sustentar a candidatura de JHC ao Governo de Alagoas nas eleições de 2026.
A ata da Convenção Estadual do PDT, presidido em Alagoas pelo atual vice-governador Ronaldo Lessa, registra expressamente que o partido recebeu proposta de coligação da Federação PSDB/Cidadania e que caberia ao PDT indicar o candidato a vice-governador.
O nome escolhido foi o do próprio Ronaldo Lessa.
Horas depois, entretanto, a Federação União Progressista — formada por União Brasil e PP e comandada no Estado por Arthur Lira — transmitiu uma nova ata à Justiça Eleitoral com uma composição diferente.
No documento da União Progressista, JHC também aparece como nome para governador, mas a vaga de vice-governador é expressamente reservada ao Partido Liberal (PL).
Está criado, portanto, um conflito documental entre partidos que, segundo a própria ata mais recente da União Progressista, deverão integrar a mesma coligação.
PDT registrou Ronaldo Lessa como vice
A convenção do PDT foi realizada na manhã de 5 de agosto, das 9h às 12h, na sede estadual da legenda, em Maceió.
Na ata, Ronaldo Lessa informou aos convencionais que a Federação PSDB/Cidadania havia apresentado proposta de coligação para a eleição de governador e que o PDT teria a responsabilidade de indicar o candidato a vice.
O documento cita nominalmente João Henrique Holanda Caldas, JHC, como nome de consenso para o Governo.
Em seguida, a convenção aprovou por aclamação a proposta e indicou Ronaldo Augusto Lessa Santos para concorrer ao cargo de vice-governador.
O sistema registra que essa ata foi enviada à Justiça Eleitoral nesta quinta-feira (6), às 11h40.
Sete horas depois, outra ata entrega vice ao PL
O problema surge com a ata da Comissão Executiva Estadual da Federação União Progressista.
O documento, referente a reunião realizada na noite do dia 5 e transmitido à Justiça Eleitoral nesta quinta-feira às 18h27, registra outra composição para a mesma chapa.
A União Progressista decidiu integrar uma ampla coligação formada por União/PP, Federação Renovação Solidária, PL, Federação PSDB Cidadania, PDT e Podemos.
O documento é específico ao tratar do Governo.
A Federação PSDB/Cidadania ficará responsável pela indicação do candidato a governador, com a participação da União Progressista condicionada a que o nome escolhido seja exclusivamente JHC.
Logo depois, a ata afirma:
“O cargo de Vice-governador será indicado pelo Partido Liberal (PL).”
A ata da União Progressista foi transmitida às 18h27 do dia 6 de agosto, portanto quase sete horas depois da transmissão do documento do PDT.
Quem será o vice de JHC?
É justamente aí que se estabelece a divergência.
Pela ata do PDT, a vaga pertence ao partido e Ronaldo Lessa foi escolhido para ocupá-la.
Pela ata da Federação União Progressista, integrada à mesma articulação política, a vaga pertence ao PL.
Os dois documentos não podem ser executados simultaneamente nesses termos, porque uma chapa para governador possui apenas um candidato a vice.
A divergência terá, portanto, de ser solucionada politicamente e refletida nos atos definitivos de registro da coligação e das candidaturas perante a Justiça Eleitoral.
O fato de a ata da União Progressista ter sido transmitida posteriormente é politicamente relevante, especialmente porque ela já incorpora uma reconfiguração mais recente da aliança. Isso, porém, não permite concluir apenas pela comparação dos documentos que a decisão do PDT tenha sido automaticamente anulada.
Ata de Arthur Lira já traz novo desenho da aliança
A ata da União Progressista apresenta sinais claros de que foi produzida para atualizar decisões tomadas anteriormente.
A reunião da Comissão Executiva ocorreu em 5 de agosto justamente para exercer poderes delegados pela convenção realizada no dia 2 e alterar pontos da composição majoritária.
Uma dessas mudanças foi provocada pela saída de Alfredo Gaspar da disputa pelo Senado.
A convenção da União Progressista realizada em 2 de agosto havia aprovado apoio ao então candidato do PL para a segunda vaga ao Senado.
Já a ata posterior registra que o candidato do PL “não mais concorrerá” ao cargo e transfere a segunda vaga ao Senado para a Federação PSDB/Cidadania.
Nesse novo desenho, o PL aparece contemplado justamente com a indicação do vice de JHC.
Ronaldo Lessa diante de uma nova situação política
A divergência coloca também Ronaldo Lessa numa posição política peculiar.
O PDT realizou sua convenção, homologou seu nome para vice e formalizou documentalmente a intenção de participar da chapa de JHC nessa condição.
Horas depois, entretanto, outro integrante da aliança registrou que o posto será ocupado por um nome indicado pelo PL.
A própria ata do PDT prevê a possibilidade de ajustes. Os convencionais concederam poderes a Ronaldo Lessa, na condição de presidente estadual, para retificar a ata, alterar a composição da coligação e incluir, substituir ou registrar candidatos, respeitando os prazos da legislação eleitoral.
Isso abre caminho formal para que o PDT adapte sua decisão caso um novo acordo político tenha sido alcançado depois da convenção.
Coligação terá de esclarecer a composição
Até que os partidos envolvidos promovam eventual retificação ou apresentem os registros definitivos, os documentos disponíveis deixam uma pergunta objetiva:
afinal, quem será o candidato a vice-governador de JHC: Ronaldo Lessa, indicado pelo PDT, ou um nome escolhido pelo PL?
O que os documentos permitem afirmar, neste momento, é que há duas deliberações partidárias distintas e incompatíveis sobre a mesma vaga.
E a mais recente delas, transmitida às 18h27 desta quinta-feira, coloca expressamente o vice de JHC nas mãos do Partido Liberal.