Decisão de Flávio Bolsonaro surpreende aliados com escolha de vice
Deputado Alfredo Gaspar é criticado por ligações a polêmicas e por não cumprir expectativa de ter uma vice mulher.
A escolha do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) desagradou integrantes da própria campanha do senador, que dizem ter sido pegos de surpresa com a decisão.
Aliados criticam o fato de Flávio ter defendido publicamente a escolha de uma mulher para o posto e agora optar por um homem acusado de estupro de vulnerável, o que vem sendo explorado pelos adversários do senador.
O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) e a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) apresentaram uma notícia-crime contra Gaspar, acusando-o de ter estuprado uma adolescente de 13 anos há oito anos, que teria engravidado. Gaspar, entretanto, nega as acusações. A notícia-crime é utilizada para levar uma denúncia ao Ministério Público ou à Polícia Federal (PF). A partir desse registro, as autoridades decidem se há elementos para abrir formalmente um inquérito.
O caso tramita sob sigilo. O Estadão apurou que a PF pediu autorização ao Supremo Tribunal Federal (STF) para abrir um inquérito e investigar a denúncia. O relator do procedimento, Gilmar Mendes, solicitou uma manifestação da Procuradoria-Geral da República antes de decidir sobre o pedido. Desde então, não houve novos andamentos no processo.
Além do inquérito, Gaspar também é alvo de investigação no Tribunal de Contas da União (TCU) por irregularidades no envio e execução de uma emenda Pix de cerca de R$ 6,3 milhões, indicada por ele ao município de São José da Laje, em Alagoas. Técnicos do tribunal identificaram que a prefeitura transferiu recursos da conta específica da emenda para outras contas municipais, prejudicando a rastreabilidade do dinheiro e não apresentou o relatório de gestão exigido. Cuando a investigação foi aberta, ele negou irregularidades.
Entre os aliados de Flávio Bolsonaro, incluindo integrantes da campanha, a avaliação é de que os dois casos devem ser amplamente explorados pelos adversários do senador na disputa presidencial.
Um interlocutor próximo ao senador afirmou que a escolha é "questionável", especialmente considerando a expectativa de ter uma vice mulher. Outro, também sob reserva, disse que o nome de Gaspar é "péssimo" e que não agrega votos a Flávio, além das acusações. Um membro da campanha expressou não ter compreendido a decisão.
As justificativas para a escolha de Gaspar ressaltam sua ligação com a pauta de segurança pública — ele foi secretário de Segurança Pública em Alagoas — e sua atuação combativa na CPMI do INSS, onde, como relator, pediu a prisão preventiva do empresário Fabio Luis da Silva, conhecido como Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Nos bastidores, integrantes da campanha afirmam que a escolha de Alfredo Gaspar pegou parte do grupo de surpresa. A expectativa estava voltada para a indicação de uma mulher e, diante das dificuldades para atrair nomes de outras legendas, começaram a considerar opções do próprio PL, como as deputadas Júlia Zanatta e Bia Kicis. A avaliação era que uma composição feminina ajudaria a reduzir a resistência à candidatura de Flávio Bolsonaro entre as eleitoras, especialmente após a crise envolvendo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Na última sexta-feira, Flávio chegou a convidar a senadora Tereza Cristina (PP-MS) para ser sua companheira de chapa. A parlamentar aceitou, mas a composição esbarrou na decisão do PP de manter a neutralidade na disputa presidencial. Em seguida, o União Brasil, que forma uma federação com o Progressistas, também confirmou que não apoiaria formalmente nenhum candidato ao Palácio do Planalto.
No início desta semana, a campanha ainda tentou viabilizar o nome da ex-presidente da Caixa, Daniella Marques, filiada ao Republicanos. No entanto, o presidente da legenda, deputado Marcos Pereira, anunciou que o partido permaneceria neutro na eleição presidencial.
Diante dos impasses, uma ala do entorno de Flávio passou a defender como última alternativa o nome da presidente do Podemos, deputada Renata Abreu (SP). Essa possibilidade, entretanto, não avançou após a legenda decidir pela neutralidade na disputa.
Outro ponto levantado como negativo é que a escolha de Gaspar pouco contribui para a estratégia inicial da pré-campanha de apresentar Flávio como um nome moderado e mais palatável ao eleitorado independente, considerado decisivo nestas eleições.
A leitura nos bastidores é de que o senador precisa ganhar fôlego entre eleitores de centro e de centro-direita, o que favoreceria a indicação de um vice de perfil menos ideológico e com maior capacidade de ampliar a candidatura para além do público bolsonarista. Para esse grupo, Gaspar não reúne essas características e acrescenta pouco ao esforço de reposicionamento de Flávio.