POLÍTICA E JUVENTUDE

Estudo aponta efeitos das redes sociais na relação de jovens com a política

Pesquisa qualitativa ouviu 24 brasileiros de 21 a 34 anos e identificou isolamento, personalização do debate e polarização

Por Agência Brasil Publicado em 30/06/2026 às 09:24
Estudo analisa impacto das redes sociais na relação de jovens brasileiros com a política

Um estudo com jovens brasileiros de 21 a 34 anos aponta que a intermediação das redes sociais na relação da juventude com a política tem provocado mudanças significativas. Entre os efeitos observados estão isolamento, personificação do debate e polarização.

A pesquisa qualitativa reuniu 24 jovens em 2022, moradores de metrópoles brasileiras de diferentes regiões, tanto em capitais quanto no interior. O levantamento abordou temas ligados à política, polarização e redes sociais. A faixa etária média corresponde a um grupo em que estão 29% dos participantes do país.

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Segundo a pesquisadora Catharina Vale, da Universidade Católica Portuguesa, o estudo obtido que jovens dessa faixa etária demonstram não conhecer uma vivência política sem a intermediação das redes sociais. Por isso, seriam mais suscetíveis às mudanças provocadas por esse tipo de mídia.

Curadoria

Um dos principais efeitos identificados é a seleção deliberada do conteúdo político de forma individualizada e personalizada. "Foi nessa observação que eu proponho o conceito que eu chamo de curaria do eu. Que é essa prática esses usuários justamente para promover uma proteção", afirmou Catharina.

De acordo com a pesquisadora, a “curadoria do eu” é resultado da ansiedade e do cansaço produzido por um tipo de meio de comunicação pensado para relações comerciais, embora seja oferecido como mídia social.

“Nos depoimentos ouvi falas muito marcantes que demonstram esse cansaço, como 'brigar cansa' ou 'eu não queria enlouquecer'”, disse Catharina.

O mecanismo de proteção também apareceu com frequência nas declarações dos jovens ouvidos. "São falas que regularem essa prática de cancelar, ou de ter consciência de que vive em uma bolha e é feliz assim. Como por exemplo: 'esse tipo de conteúdo não chega pra mim', 'eu faço curadoria e sei que meu algoritmo também faz'", destacou.

Na avaliação de Catharina, a “curadoria do eu” empobrece o debate entre esse público e afeta a coletividade e a democracia.

“Isso nos isola enquanto indivíduo e individualmente a gente vai encontrando essa massa mais homogênea. Menos espaço para debate, com menos espaço para discussão e para ser diferente. E é nesse cenário que a política vai sendo construída”, afirmou a pesquisadora.

Essa homogeneização, segundo o estudo, tende aos extremos e contribui para a polarização. Dentro desses grandes grupos, cada jovem age individualmente e personaliza suas relações políticas.

“Eu não me importo de qual partido vem o meu candidato a vereador, o meu candidato à presidência, não importa quem é essa pessoa, qual é a trajetória dela. O que acaba sendo valorizado são as práticas das redes sociais, aquelas que privilegiam o contato aparentemente direto de pessoa para pessoa”, explicou Catharina.

Mudança

De acordo com Catharina Vale, essa transformação pode ser observada a partir das Jornadas de Junho, série de mobilizações em massa ocorridas simultaneamente em centenas de cidades brasileiras, em 2013.

As manifestações coincidem com o surgimento das redes sociais e com o início do acesso do público jovem a esse tipo de mídia. “Quando a gente chega na web 2.0, que começa a possibilitar rede social, dados, microdados, essa troca, atuação de algoritmo, é quando essa relação da mídia com a política começa a ganhar outro corpo, começa a ter outra forma. E a partir de 2013 é quando a gente percebe isso no Brasil de forma mais evidente”, afirmou a pesquisadora.

Para Catharina, essas mudanças foram se intensificando ao longo dos anos e tiveram efeitos nas eleições seguintes, podendo resultar em uma grande transformação na forma de fazer política no Brasil.

“Tem um potencial de transformar, mas principalmente de transformar a política pelas próximas décadas, porque é esse novo fazer político que vai acompanhar o Brasil pelas próximas 20, 30, 40, 50 décadas à frente da gente”, concluiu.