Base de Flávio Bolsonaro diverge sobre resposta a operação contra Jaques Wagner
Aliados discutem se devem ampliar ataques a Lula ou adotar cautela para evitar que o caso Master volte a atingir a pré-campanha do PL
Aliados do senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divergem sobre a estratégia de reação à operação da Polícia Federal (PF) realizada nesta quinta-feira, 18, que teve como alvo Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado.
Uma parte do grupo defende um ataque direto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com a tentativa de associar o episódio ao adversário político. Outra ala, porém, recomenda cautela no discurso, sob o argumento de que o tema pode levar a crise novamente para dentro da campanha do PL.
A preocupação ocorre porque a pré-campanha de Flávio ainda tenta superar o desgaste provocado pela divulgação de áudios em que ele pediu R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, apontado como protagonista da maior fraude financeira da história do País, para financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A revelação fez o senador cair nas pesquisas de intenção de voto, ampliou a distância de Lula na liderança da corrida eleitoral e, segundo aliados, pode voltar a ser explorada pela esquerda.
Horas depois de Wagner ser alvo de busca e apreensão na nona fase da Operação Compliance Zero, em novo desdobramento das investigações sobre o Banco Master, o PL lançou a campanha "PTMaster". A sigla afirmou que "mais um elo" entre o partido de Lula e o escândalo havia sido exposto.
A PF apura se o senador petista, apontado como "interlocutor relevante" de interesses do Master, recebeu pagamentos de propina de Vorcaro por meio de um apartamento de R$ 2,5 milhões em Salvador e de repasses de R$ 3,5 milhões a uma empresa ligada a um familiar. Agentes apreenderam 55 mil dólares e 33,5 mil euros em espécie em endereços de Wagner.
Flávio passou o dia tratando do caso em entrevistas, discursos e publicações nas redes sociais. Em uma postagem no X, antigo Twitter, afirmou que "escândalo envolvendo o PT é como a incompetência do governo Lula: não tem como esconder". Ao longo do dia, fez outras quatro publicações sobre o tema.
No lançamento de seu plano de propostas para a área da segurança pública, em São Paulo, o senador declarou que "o PT da Bahia acaba de ser implodido pela Polícia Federal" e classificou a investigação daquela manhã como "um alento de que a impunidade vai ser combatida". No fim da tarde, voltou ao assunto em entrevista à Jovem Pan News.
"Nós sempre soubemos que a origem de todo esse escândalo do Master era exatamente o PT da Bahia. É a origem, o cerne de todo esse esquema que desaguou na questão do Banco Master. Esperamos que a Polícia Federal traga à tona tudo isso que está sendo investigado", declarou. Em seguida, voltou a defender a abertura de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para investigar corrupção envolvendo a instituição de Vorcaro. Como mostrou o Estadão, Flávio não assinou três das cinco CPIs sobre o Master que poderia apoiar.
No fim da noite, Flávio publicou um vídeo em que reagiu a uma declaração antiga de Wagner, na qual o petista rebate acusações de relação entre o Master e o PT da Bahia. "Pode ter certeza, o Jaques Master não deve ser o único petista enrolado. Lula é Master e Master é Lula", escreveu, em trocadilho com o nome do colega senador.
A ala mais cautelosa da campanha teme que a exposição de Flávio volte a ser explorada com novas revelações sobre o caso. Além da relação próxima entre o senador do PL e o banqueiro — em uma troca de mensagens, Flávio chamou Vorcaro de "irmão" —, lideranças de seu grupo político também aparecem envolvidas no esquema, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL).
A campanha de Flávio tenta recuperar a confiança de Nogueira, que está irritado com a insistência do presidenciável em pedir mais investigações contra o Master e com a falta de solidariedade ao ex-ministro de Bolsonaro após ele ser alvo de uma operação da PF dias atrás.
Enquanto isso, o PL aposta na associação entre o partido no poder e o caso Master. Depois de o partido de Lula criar o bordão "BolsoMaster" para fazer o vínculo inverso, a legenda de Bolsonaro já publicou cinco peças com a expressão "PTMaster".
"Eles dizem que não há ligação. Mas, a cada nova fase da operação, novos nomes ligados ao PT voltam ao centro das investigações. O caso "PTMaster" é a prova de que, mesmo mudando os personagens, a corrupção sempre carrega um nome do partido", publicou a legenda em suas redes sociais.
A comunicação da pré-campanha de Flávio, assim como outras, enfrenta ainda um obstáculo para levar sua mensagem ao eleitorado: a Copa do Mundo. Segundo o texto original, o engajamento caiu com o início dos jogos e a estreia da seleção brasileira, e a estratégia passou a incluir referências ao futebol para tratar de política.
"O Brasil já mandou o recado! Queremos a taça da Copa do Mundo. CPMI do Master. Jaques Wagner, o "galego" de Lula, na cadeia!!", publicou o PL na quinta-feira, em tentativa de aproveitar o clima da Copa para abordar o tema político.