Debate na Câmara defende redução gradual do uso de combustíveis fósseis
Comissão de Meio Ambiente analisa projeto sobre economia de baixo carbono, desmatamento zero e transição energética justa
Ambientalistas e representantes do governo federal defenderam, nesta terça-feira (16), na Câmara dos Deputados, mudanças econômicas e culturais para a substituição gradual de combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e gás natural, por fontes de menor impacto no aquecimento do planeta.
A discussão ocorreu na Comissão de Meio Ambiente, que analisa o PL 6615/25, sobre o chamado “mapa do caminho” para a transição energética justa, a economia de baixo carbono e o desmatamento zero. Também há iniciativas nacionais em andamento na Presidência da República e articulações globais no âmbito da Conferência da ONU sobre Mudança do Clima.
Integrante do Instituto ClimaInfo, o físico Shigueo Watanabe destacou a complexidade do tema. “O petróleo, de uma certa maneira, é como se fosse um sangue que alimenta a economia. A gente vai ter que fazer uma transfusão de sangue andando”, comparou. “O mapa do caminho é uma transição da sociedade e da economia para um outro lugar. Isso é uma política de Estado”, afirmou.
O projeto de lei é de autoria do deputado Nilto Tatto (PT-SP), que organizou a audiência pública na Câmara.
Relatora da proposta e ex-ministra do Meio Ambiente, a deputada Marina Silva (Rede-SP) afirmou que o “mapa do caminho” envolve uma mudança no perfil da Petrobras. “Uma empresa do porte da Petrobras tem que deixar de ser uma empresa de produção de petróleo e passar ser uma empresa de produção de energia, porque aí faz a diferença”, disse.
Redução da demanda
O secretário nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia, Marlon Arraes Jardim, apontou a permanência da importância dos combustíveis fósseis no cenário global. Segundo ele, ainda existem cerca de 2 bilhões de motores de combustão interna no mundo, sendo 1,5 bilhão de veículos leves e 500 mil veículos pesados, ferramentas e motores estacionários, que consomem 36 bilhões de barris de petróleo por ano.
Jardim defendeu a atuação do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) no processo de transição e a busca pela redução gradual da demanda por combustíveis fósseis. “Ao trabalhar a redução de demanda, a redução da oferta é uma consequência”, afirmou.
O secretário também elogiou os investimentos do Brasil em biocombustíveis e lembrou que o programa de etanol, criado há mais de 50 anos, foi responsável pela economia de 3 bilhões de barris de petróleo, 225 bilhões de dólares para os cofres públicos e 1,4 bilhão de toneladas de CO2 a menos emitidas na atmosfera.
Mapa global
Durante a audiência, ambientalistas reclamaram do atraso na divulgação do “mapa do caminho” nacional, previsto pelo governo para fevereiro. Já o mapa global foi apresentado neste mês pela presidência brasileira da COP30.
Stela Herschmann, especialista do Observatório do Clima, afirmou que o texto traz avanços importantes a serem consolidados até a COP31, marcada para novembro, na Turquia.
“Flexível, prático e voltado para a implementação. Ele vai propor um framework que vai avaliar a dependência dos países em relação aos combustíveis fósseis e o quão pronto cada país está para fazer essa transição, considerando indicadores energéticos, econômicos, institucionais e sociais”, explicou.
Propaganda
Com foco na mudança de comportamento da sociedade, a ONG Clima de Política apresentou detalhes da campanha internacional “Fora publicidade fóssil”, lançada em abril durante a primeira Conferência da ONU sobre Transição Justa, na Colômbia.
O coordenador da campanha, Guilherme Tampieri, afirmou que, assim como ocorreu no passado com o cigarro, não se pode mais anunciar aquilo que se pretende superar.
“Por que a propaganda de um negócio que mata 8 milhões de pessoas por ano, como o tabaco, é proibida no Brasil e a de um outro negócio, que mata quase 7 milhões de pessoas no mundo todo, não é proibida?”, questionou. “Hoje, aproximadamente 7 milhões de pessoas morrem no mundo por conta da má qualidade do ar.”
Também em abril, o deputado Nilto Tatto apresentou o PL 1748/26, que prevê restrições à publicidade de produtos e serviços ligados à exploração, refino, distribuição e comercialização de carvão, petróleo e gás natural.