DIPLOMACIA

Lula vai ao G7 com agenda marcada por tarifas dos EUA e veto europeu a produtos brasileiros

Presidente participa da cúpula na França como convidado; reuniões bilaterais com Trump e Ursula von der Leyen ainda não foram confirmadas

Por Agência Brasil Publicado em 14/06/2026 às 08:32
Lula participa da Cúpula do G7 na França em meio a temas comerciais com EUA e União Europeia

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarca neste domingo (13) para Évian-les-Bains, na França, onde participará, como convidado, da Cúpula do G7. O fórum reúne sete das maiores economias industrializadas do mundo.

Será a 10ª participação de Lula no encontro ao longo de seus três mandatos. Integram o G7, como membros plenos, Canadá, Estados Unidos, Reino Unido, França, Itália, Alemanha e Japão. A União Europeia também participa como membro institucional.

A presença de Lula aumenta a expectativa sobre possíveis interações com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em meio a um novo momento de tensão entre os dois países. Há duas semanas, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) indicou a taxação de 25% sobre parte das importações brasileiras.

O relatório do USTR é resultado de uma investigação iniciada há um ano pelo governo Trump contra supostas “práticas desleais” do Brasil no comércio com os EUA. Entre os pontos usados para justificar a medida, o órgão acusa o Pix de prejudicar “injustamente” empresas estadunidenses que prestam serviços de pagamento eletrônico, como operadoras de cartões de crédito, entre elas MasterCard e Visa, além do WhatsApp Pay.

Até o momento, não há confirmação de uma reunião bilateral entre Lula e Trump. Caso ocorra um encontro entre os dois líderes na França, ele acontecerá pouco mais de um mês depois da última reunião entre ambos, realizada na Casa Branca, em Washington, no início de maio.

Na ocasião, segundo Lula, equipes dos dois governos foram orientadas a apresentar uma proposta para resolver o impasse sobre tarifas de exportação e a investigação comercial do USTR, o que ainda não ocorreu.

“Isso [encontro entre Lula e Trump] não está definido. Com os Estados Unidos os contatos seguem, por enquanto é o que eu posso dizer, e que estão em andamento de uma forma intensa, desde sempre, e isso continua acontecendo”, afirmou o embaixador Philip Fox-Drummond Gough, secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Ministério das Relações Exteriores (MRE), em entrevista a jornalistas nesta quarta-feira (10).

Este também deve ser o primeiro contato entre Lula e Trump após o governo norte-americano passar a designar formalmente as facções criminosas brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês).

O governo brasileiro vinha tentando evitar essa designação nos últimos meses, por avaliar que ela poderia abrir caminho para uma ação militar dos EUA no Brasil ou para a aplicação de sanções severas em setores econômicos e financeiros.

Veto à carne brasileira

Outro ponto de atenção na viagem de Lula ao G7 envolve a relação com a União Europeia. Há uma semana, o bloco oficializou a decisão de proibir a importação de carnes, tripas, peixe e mel produzidos no Brasil. O veto deve entrar em vigor em 3 de setembro.

Anunciada há quase um mês, poucos dias após a entrada em vigor provisória do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, a decisão de retirar o Brasil da lista de países autorizados a exportar esses produtos para o bloco europeu foi confirmada em documento oficial publicado no Diário Oficial de 5 de junho.

Também não há definição sobre um possível encontro de Lula com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

“Obviamente que eu acho que o recado principal que nós queremos passar aos europeus é que ficamos assim um pouco surpresos da maneira como foi. Nós estamos vendo algumas medidas da União Europeia que nos causam alguma preocupação. E o tom da discussão, se houver, ou em outros momentos, não necessariamente no G7, vai ser esse, com uma certa preocupação por esses últimos desdobramentos e ver o que a gente pode fazer para resolver as questões”, apontou o embaixador Philip Fox-Drummond Gough, que acompanha diretamente as tratativas.

Brasil e Japão

Enquanto as reuniões bilaterais de Lula durante a cúpula do G7 ainda não estão confirmadas, um encontro já previsto na agenda será com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi. Ela se tornou a primeira mulher a ocupar o principal cargo do Executivo no país asiático, tomando posse em outubro de 2025.

Será o primeiro encontro oficial entre os dois. Há expectativa de abertura de negociações em torno de um futuro acordo entre o Japão e o Mercosul, formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

A cúpula do G7 deste ano, presidida pela França, será realizada de 15 a 17 de junho. Além do Brasil, o grupo convidou líderes de outros países importantes, como Índia, Quênia, Coreia do Sul e Egito. Outra provável reunião bilateral de Lula deverá ocorrer com o anfitrião do evento, o presidente francês Emmanuel Macron.

Sessões deliberativas

O Itamaraty confirmou a participação de Lula em três eventos durante o G7.

O primeiro será no dia 16, em uma sessão de líderes na qual o presidente brasileiro discursará sobre parcerias internacionais para o desenvolvimento. A expectativa é que Lula cobre a ampliação da Assistência Oficial ao Desenvolvimento (AOD). A chamada AOD, em inglês Official Development Assistance (ODA), refere-se a repasses financeiros feitos pelos países mais industrializados para promover o bem-estar e o desenvolvimento econômico de países em situação de maior vulnerabilidade.

No dia 17, em outra sessão de líderes, Lula tratará do crescimento econômico equilibrado. Na ocasião, deverá falar com ênfase sobre a necessidade de reforma da governança global, especialmente de instituições como a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a Organização das Nações Unidas (ONU).

Ainda no dia 17, a comitiva brasileira participará de um almoço que terá como tema central a Inteligência Artificial (IA).