Do berçário à CAE: Renan apresenta o “bebê reborn” da política alagoana
Sem elevar o tom, após sofrer ataques, senador ironizou defesa materna de JHC, chama o ex-prefeito de “ventríloquo” e diz que pré-candidato permanece em silêncio sobre as operações envolvendo o Banco Master
A política alagoana ganhou nesta terça-feira, 9 de junho, um novo e inusitado personagem. Não nasceu nas urnas, não apareceu em convenção partidária e tampouco concedeu entrevista. Foi apresentado no plenário da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado pelo senador Renan Calheiros (MDB): o “bebê reborn” da política de Alagoas.
A expressão foi utilizada por Renan ao responder aos ataques da senadora Eudócia Caldas (PSDB), que, em uma tentativa de defender o filho, o ex-prefeito de Maceió e pré-candidato ao Governo de Alagoas, João Henrique Caldas, afirmou que “não ensinou o filho a roubar”.
Sem gritos, gestos largos ou alteração no tom de voz, Renan aguardou o momento de responder. E o fez recorrendo a uma mistura de ironia, crítica política e linguagem saída diretamente das prateleiras de uma loja de bonecos realistas.
“O caso que nós estamos vendo aqui é um caso de filhotismo às avessas”, afirmou.
Segundo Renan, a senadora estaria promovendo um “esforço hercúleo” para defender um filho que, até agora, não teria se pronunciado sobre os questionamentos relacionados às operações envolvendo o Banco Master.
“Neste esforço hercúleo para defender um filho que não fala. Ele, como um reborn, um ventríloquo, nunca disse nada sobre as operações do Master. Nunca falou nada, de modo que eu não tenho nenhuma pergunta a fazer à senhora como senadora e como mãe”, disparou Renan.
A resposta transformou o embate político em uma cena quase teatral. De um lado, a mãe tentando afastar o filho da linha de fogo do maior escândalo bancário do país. Do outro, o presidente da CAE descrevendo o adversário como um boneco cuidadosamente carregado no colo, protegido dos questionamentos e incapaz de falar por conta própria.
Na metáfora construída por Renan, o “reborn” político tem aparência de candidato, é apresentado aos eleitores, levado de cidade em cidade, colocado para fotografias e tratado como protagonista. Na hora de responder às perguntas mais incômodas, porém, permanece imóvel e silencioso.
A comparação com um ventríloquo também chamou atenção. Tradicionalmente, o ventríloquo é quem fala sem movimentar os lábios, dando voz ao boneco. No cenário desenhado pelo senador, entretanto, os papéis parecem invertidos: enquanto o filho permanece calado, é a mãe quem ocupa o microfone para defendê-lo.
A audiência da Comissão de Assuntos Econômicos havia sido convocada para ouvir o presidente do Banco de Brasília, Nelson Antônio de Souza, sobre a situação financeira da instituição e as operações realizadas com o Banco Master. O encontro acabou ganhando contornos de prévia da campanha eleitoral alagoana de 2026.
Além de colegas no Senado, Renan e Eudócia representam grupos que deverão estar em campos opostos na disputa pelo Governo de Alagoas. JHC deverá enfrentar o ex-ministro dos Transportes Renan Filho, filiado ao MDB e filho de Renan Calheiros.
Durante o embate, Eudócia afirmou que estaria sendo subestimada, “principalmente por ser uma senadora mulher”. A declaração, no entanto, não respondeu ao principal ponto levantado pelo adversário: por que JHC, diretamente interessado na disputa política e citado reiteradamente nas discussões, ainda não apresentou pessoalmente sua versão sobre os questionamentos envolvendo o Banco Master?
Ao recorrer à defesa materna, Eudócia pretendia proteger o filho. Politicamente, porém, a estratégia abriu espaço para que Renan construísse uma das imagens mais pitorescas da campanha eleitoral: a de um pré-candidato embalado no colo, defendido pela mãe e mantido em silêncio diante das perguntas.
No fim, a audiência que deveria tratar apenas de bilhões, carteiras financeiras, auditorias, prejuízos e responsabilidades bancárias terminou também com um passeio pelo imaginário infantil.
No berçário político alagoano inaugurado por Renan, surgiu o bebê reborn: não chora, não responde, não se explica — mas tem sempre alguém disposto a falar por ele.