XADREZ POLÍTICO

Palanque de JHC vira nuvem: dança com Célia, abraço em Alfredo e o dilema de Lessa

Com Lessa afastado por pneumonia, JHC dança com Célia Rocha e acena a Alfredo Gaspar, expondo as contradições de um palanque que tenta unir lulistas, bolsonaristas e antigos adversários.

Por Redação Publicado em 31/05/2026 às 16:13
JHC vai a Maribondo e aparece ao lado de Célia Rocha, sinaliza aproximação com Alfredo Gaspar em Anadia, enquanto Lessa se afasta temporariamente das agendas por pneumonia

A política em Alagoas voltou a se mover como nuvem em dia de vento forte: muda de forma, muda de direção e, quando o eleitor tenta entender o desenho, ele já virou outra coisa.

No mesmo fim de semana em que Ronaldo Lessa anunciou afastamento temporário das atividades políticas por causa de uma pneumonia, JHC circulou pelo interior em duas cenas politicamente simbólicas. Em Maribondo, apareceu ao lado de Célia Rocha em clima festivo, dançando forró. Em Anadia, cidade vizinha, surgiu ao lado de Alfredo Gaspar, presidente do PL em Alagoas, deputado federal e uma das principais expressões do bolsonarismo no Estado.

A movimentação pode parecer apenas agenda de interior. Não é.

Ela revela o tamanho da contradição que começa a se formar no palanque de JHC para 2026.

De um lado, Ronaldo Lessa, nome histórico da esquerda alagoana, ex-governador, ex-vice-governador e figura identificada com o campo lulista. De outro, Alfredo Gaspar, hoje no PL, partido de Jair Bolsonaro, com forte ligação com a direita extremista e com setores que desejam levar para a disputa estadual o palanque bolsonarista.

No meio disso tudo, JHC tenta montar uma engenharia eleitoral capaz de juntar PSDB, PL, setores de centro, antigos aliados da esquerda, lideranças municipais, Célia Rocha, Alfredo Gaspar, Eudócia Caldas, Marx Beltrão e quem mais couber no caminhão político da pré-campanha.

A pergunta é inevitável: como conciliar um palanque tão misturado, tão mesclado e tão carregado de ideias antagônicas?

Ronaldo Lessa, ao se afastar temporariamente por recomendação médica, deixa momentaneamente o centro da cena. Mas a política não esperou sua recuperação. Enquanto Lessa cuida da saúde, o tabuleiro andou. E andou para a direita.

A aparição pública entre JHC e Alfredo Gaspar, em Anadia, não é um gesto sem consequência. É uma fotografia política com endereço certo: o PL entrou de vez na conversa.

A presença da senadora Eudócia Caldas, mãe de JHC, e do deputado federal Marx Beltrão no mesmo ambiente reforça a leitura de que a articulação deixou de ser apenas conversa de bastidor e passou a ser sinalização pública. O que antes era tratado como possibilidade agora começa a ganhar corpo diante das câmeras, dos aliados e dos adversários.

Mas, junto com a aproximação, surgem perguntas incômodas.

Ronaldo Lessa continuará sendo tratado como possível vice em uma chapa que abre espaço para Alfredo Gaspar e para o bolsonarismo? O PL aceitará dividir palanque com um nome historicamente ligado à esquerda? Lessa, ao voltar da pneumonia, encontrará o mesmo lugar político que deixou ou será recebido por uma nova configuração já costurada à sua revelia?

E mais: JHC manterá a palavra, atribuída ao ambiente político de sua aproximação com Lessa, de que teria que votar em Lula? Como explicar isso em um palanque com Alfredo Gaspar, presidente do PL em Alagoas, partido que atua nacionalmente como principal força de oposição ao lulismo?

Essa é a encruzilhada.

Se JHC acena para Lessa, tenta ocupar o centro e reduzir resistências em setores progressistas. Se abraça Alfredo, busca o tempo de televisão, a estrutura do PL, a força do bolsonarismo e a musculatura eleitoral da direita. O problema é que, em política, nem sempre os palanques se somam sem produzir ruído. Às vezes, eles se chocam.

O caso de Célia Rocha também entra nessa dança.

Em Maribondo, a ex-prefeita de Arapiraca apareceu ao lado de JHC em clima de festa, dançando forró e reforçando especulações sobre seu desejo de ocupar espaço majoritário na chapa, possivelmente como vice. Mas a mesma pergunta se impõe: Célia dança com JHC ou corre o risco de dançar sozinha mais uma vez na tentativa de emplacar seu nome em uma composição que muda a cada semana?

A política alagoana é pródiga em movimentos desse tipo. Nomes são lançados, testados, inflados, usados como balão de ensaio e, muitas vezes, deixados no acostamento quando a composição real aparece.

Célia sabe disso. Lessa também sabe. Alfredo sabe mais ainda.

No caso de Alfredo Gaspar, a pergunta é objetiva: o que ele ganha nessa aproximação?

Publicamente, a aliança pode parecer vantajosa para todos. Mas, olhando friamente, quem mais parece acumular ativos é JHC. Com Alfredo, aproxima-se do PL e amplia seu tempo de televisão. Com Eudócia Caldas eventualmente cotada para a suplência, fortalece a própria família no jogo do Senado. Com Marx Beltrão ao lado, acena para estruturas regionais importantes. Com Célia Rocha, tenta penetrar em Arapiraca e no Agreste. Com Lessa, tenta vender uma imagem de amplitude.

Mas amplitude demais pode virar confusão.

Afinal, que projeto é esse? Um projeto bolsonarista? Um projeto de centro? Um projeto lulista com vice de esquerda? Uma frente pragmática contra o grupo de Renan Filho? Uma aliança puramente eleitoral sem identidade programática? Ou apenas uma tentativa de juntar todos os descontentes no mesmo palanque, ainda que eles pensem de forma oposta sobre Lula, Bolsonaro, democracia, costumes, economia e gestão pública?

A eleição de 2026 em Alagoas começa a mostrar um traço cada vez mais evidente: o pragmatismo está atropelando a coerência.

Alianças que, em outro tempo, seriam improváveis, agora surgem como naturais, desde que somem tempo de TV, votos regionais, estrutura partidária e capacidade de desgaste contra o adversário.

O problema é que o eleitor também observa.

O eleitor vê Lessa defendendo Lula. Vê Alfredo representando o PL. Vê JHC tentando falar com todos. Vê Célia esperando espaço. Vê Eudócia sendo projetada para a suplência. Vê Marx Beltrão aparecendo no tabuleiro. E começa a perguntar: quem manda nesse palanque? Qual é o rumo? Qual é a ideia? Qual é o compromisso?

Uma campanha majoritária precisa de narrativa. Precisa dizer ao eleitor por que existe. Precisa responder qual projeto pretende governar Alagoas.

Se a única explicação for “juntar forças para ganhar”, a aliança pode até crescer no papel, mas nascerá com um problema de identidade.

Ronaldo Lessa, quando voltar da pneumonia, terá talvez a pergunta mais difícil a responder: permanecerá em um palanque que caminha para abrigar o bolsonarismo de Alfredo Gaspar?

E Alfredo aceitará dividir espaço com Lessa, um nome que carrega a história da esquerda em Alagoas?

E JHC, afinal, pedirá voto para quem no plano nacional: Lula, Flávio Bolsonaro ou cada plateia ouvirá uma versão diferente?

A nuvem política de Alagoas continua mudando de formato. Em Maribondo, pareceu forró. Em Anadia, virou acordo com o PL. No discurso, pode ser centro. Na prática, pode ser direita. Na memória de Lessa, talvez ainda seja Lula. No cálculo de JHC, tudo parece caber.

Mas a campanha vai exigir respostas.

Porque uma coisa é dançar forró no interior. Outra, bem diferente, é manter no mesmo salão político Ronaldo Lessa, Alfredo Gaspar, Célia Rocha, Eudócia Caldas, Marx Beltrão e JHC sem que alguém pise no pé de alguém.

E em Alagoas, quando a música muda, muita gente descobre tarde demais que estava dançando sozinha.