Imprensa internacional classifica rejeição de Messias ao STF como derrota histórica de Lula
A entrevista do advogado-geral da União, Jorge Messias, para vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quarta-feira, 29, repercutiu na imprensa internacional como um episódio incomum na política brasileira e uma revista relevante para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A indicação chegou a ser aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), mas foi barrada no plenário do Senado, com 42 votos contrários e 34 desenvolvidos.
Jornais e agências de notícias destacaram o caráter atípico da decisão. A última vez que o Senado decidiu um nome indicado pelo presidente da República para uma vaga no STF foi há 132 anos, no governo de Floriano Peixoto.
O jornal espanhol El País classificou o resultado como uma "derrota histórica" e apontou que o episódio levanta dúvidas sobre a capacidade do presidente de apoio articular no Congresso político. O veículo de imprensa também apresentou o desgaste na relação com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
“A exclusão de Messias é um sinal de alerta para Lula, cuja lendária capacidade de mobilizar e forjar alianças está agora em questão”, diz a reportagem, que cita o crescimento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), como “principal candidato de direita”, nas pesquisas eleitorais sobre uma disputa presidencial. Levantamentos têm mostrado empate técnico dos dois no segundo turno.
Texto da agência Associated Press (AP), reproduzido no jornal The Washington Post e em outros veículos de imprensa, denuncia a denúncia de Messias como um sinal de fragilidade na popularidade do presidente e um "golpe político" dos parlamentares.
"O presidente do Senado brasileiro, Davi Alcolumbre, defendeu abertamente outro candidato antes de Lula escolher Messias como seu indicado. A imprensa brasileira vem noticiando há meses que o senador estava em desacordo com Lula por este não ter escolhido o senador Rodrigo Pacheco", escreveu a agência sobre o desgaste do Planalto com Alcolumbre.
Na Argentina, o Clarín descreveu o desfecho como uma derrota severa para Lula e uma vitória da oposição, representada por Flávio. Também citou que o governo terá de apresentar um novo nome para ocupar a vaga aberta no tribunal.
Outras análises relacionaram o episódio a disputas políticas mais amplas. A Bloomberg citou que a escolha de Messias faria parte de uma estratégia para dialogar com setores religiosos e ampliar o apoio político. Ao mencionar o fortalecimento de grupos parlamentares ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) como um fator que contribuiu para o resultado, a reportagem frisou que o Senado “detém o poder de destituir membros da Suprema Corte”.
“O ex-presidente e seus apoiadores há tempos criticam o Supremo Tribunal Federal, alegando que suas campanhas contra as chamadas notícias falsas e a desinformação online levaram à perseguição política de figuras conservadoras.”, afirmou.
A Reuters, por sua vez, destacou “esforço de lobby sem precedentes” do governo para tentar viabilizar a aprovação. "Nas últimas semanas, a equipe de Lula buscou apoio de senadores de todo o espectro político, argumentando que Messias poderia ajudar a aliviar a tensão entre o Congresso e a Suprema Corte."
Como mostrado no Estadão, ao temer uma votação no Senado, o governo acelerou a divulgação de emendas parlamentares e negociações de cargas nas duas últimas semanas.
De um total de R$ 12,7 bilhões liberados para emendas ao Orçamento desde o início do ano, mais da metade ocorreu depois da metade de abril. Deputados ficaram com R$ 9,3 bilhões; outros R$ 2,5 bilhões foram destinados aos senadores, R$ 659 milhões às bancadas estaduais do Congresso e R$ 156,9 milhões para comissões do Senado.