JHC busca o poder no interior pelos braços da velha política que critica frequentemente
Deputado confirma que é pré-candidato ao Senado e aponta JHC como nome ao governo, mas gesto de aproximação ocorre dias depois de o PL acionar a Justiça Eleitoral para pedir a perda dos mandatos de três vereadores que foram ao PSDB
JHC tenta vestir a roupa da novidade. Mas, quando pisa no interior, o figurino muda. O discurso continua novo; o método, nem tanto.
Nas últimas semanas, o ex-prefeito de Maceió e hoje principal nome do PSDB em Alagoas intensificou a agenda de articulação pelo Estado. O problema para sua narrativa é que, na hora de procurar musculatura política fora da capital, JHC tem ido bater exatamente nas portas mais antigas do sistema que costuma contrastar com a imagem de renovação que tenta projetar.
Em Arapiraca, o gesto foi explícito: Célia Rocha oficializou filiação ao PSDB e declarou apoio ao projeto político de JHC. Trata-se de uma liderança histórica, ex-prefeita por três mandatos e ex-deputada federal, com peso real na memória política do Agreste. Nada disso diminui sua trajetória. Mas tudo isso desmonta, peça por peça, a embalagem de “nova política” quando o suposto novo precisa se escorar tão rapidamente em sobrenomes, grupos e lideranças que há décadas frequentam o coração da política alagoana.
Em Delmiro Gouveia, a cena se repetiu. JHC apareceu em agenda com o ex-prefeito Lula Cabeleira, nome tradicional da política sertaneja, e o encontro foi divulgado como demonstração de avanço de apoios no interior. Depois, o episódio ganhou ruído adicional: Lula Cabeleira negou apoio formal e disse votar em Renan Filho. O detalhe não enfraquece apenas a fotografia daquele dia; enfraquece também a tentativa de transformar qualquer aproximação com velhas lideranças em certificado automático de adesão política.
É aí que surge a imagem do moço velho da política.
Moço na idade, na estética, na comunicação, no uso das redes, na embalagem publicitária. Velho na prática de percorrer o interior em busca das mesmas engrenagens que movem eleições há décadas: ex-prefeitos influentes, caciques locais, famílias tradicionais e operadores regionais de voto. O roteiro é antigo, conhecido, testado e eficiente. Mas novo, definitivamente, não é. Essa leitura decorre das alianças e movimentos públicos recentes de sua pré-campanha.
E aqui está o ponto central: a crítica não é contra os políticos experientes. Não há demérito em ter trajetória, capilaridade ou história. A incoerência está em vender ruptura enquanto se negocia continuidade; em falar como quem vai desmontar a velha máquina, mas agir como quem precisa dela funcionando em plena rotação. Essa é a contradição que suas agendas mais recentes expõem.
Na política real, alianças com lideranças tradicionais são comuns e muitas vezes decisivas. O interior não se conquista com slogan, mas com estrutura, presença e lastro. O que chama atenção no caso de JHC é a distância entre a propaganda e a prática. Quando o discurso promete um caminho novo, mas o trajeto é guiado pelos velhos mapas, o eleitor tem o direito de perguntar onde termina a estratégia e onde começa a encenação.
As redes sociais ajudam a amplificar essa ambiguidade. Cada foto com uma liderança local é postada como sinal de crescimento. Só que a mesma imagem que tenta provar força também revela dependência. Quanto mais JHC insiste na ideia de que representa o novo, mais as alianças com nomes tradicionais funcionam como prova de que, no fundo, sua pré-campanha aprende rápido a linguagem da política de sempre.
No fim das contas, JHC parece descobrir o que tantos outros já descobriram antes dele: no interior de Alagoas, a retórica da renovação rende manchete, mas quem abre porteira eleitoral ainda são as velhas engrenagens. E quando um pré-candidato que fala em mudança corre para se abraçar a essas estruturas, deixa de parecer apenas jovem. Passa a parecer jovem por fora e antigo por dentro.
Ou, para resumir em linguagem mais direta do tabuleiro alagoano: JHC quer ser o rosto do novo sem abrir mão do colo do velho.