BASTIDORES/ELEIÇÕES

Ronaldo Lessa: profissão vice, destino coadjuvante. O triste roteiro político de um democrata

Por Redação Publicado em 23/04/2026 às 12:36
Ronaldo e JHC; aliança selada defronte a seu apartamento à beira mar da Pajuçara Reprodução / Instagram

Ex-governador, ex-deputado federal e atual vice de Paulo Dantas abandona o grupo governista e retorna ao ninho tucano de JHC, ampliando a sensação de ostracismo, pragmatismo e decadência de uma trajetória antes marcada por protagonismo e respeito ao servidor público

Na madrugada desta quinta-feira, 23 de abril, a política de Alagoas assistiu a mais uma guinada tão surpreendente quanto reveladora. O vice-governador Ronaldo Lessa, atual companheiro de chapa de Paulo Dantas e integrante formal do grupo político antagônico ao de JHC, reapareceu, inopinadamente, como é de seu costume, novamente ao lado do ex-prefeito de Maceió e pré-candidato ao governo do Estado.

A imagem, feita diante da roda-gigante da Pajuçara - ironicamente plantada quase à vista da janela de seu big apartamento de R$ 5 milhões à beira mar —, não foi apenas um registro para redes sociais. Foi um recado político. Ronaldo Lessa voltou para os braços do tucano. Voltou para o ninho de JHC. E voltou não como protagonista, mas sob a sombra da especulação de sempre: a de ser possivelmente, pela terceira vez, vice.

Vice-prefeito de JHC em 2020. Vice-governador de Paulo Dantas em 2022. E agora, ao que tudo indica, novamente cotado para vice-governador, desta vez na chapa de JHC. Ronaldo Lessa, profissão vice?

É uma pergunta dura, mas inevitável. E também um retrato melancólico de uma trajetória que já foi grande. Poucos nomes da velha guarda alagoana carregavam o peso histórico e político de Ronaldo Lessa. Foi governador por duas vezes, deputado federal, homem de luta, figura associada à resistência democrática, ao respeito ao servidor público, às minorias e à defesa de políticas públicas que deixaram marcas administrativas relevantes no Estado. Foi também um dos poucos políticos de sua geração a carregar, com alguma coerência, a bandeira dos concursos públicos e da valorização funcional.
Mas esse Ronaldo Lessa parece cada vez mais distante.

O que se vê agora é outro personagem: um líder em franca decadência político-eleitoral, agarrado a composições que lhe garantam sobrevivência, visibilidade e permanência em alguma estrutura de poder. Um homem que já ocupou o centro do palco e hoje parece se contentar com o quartinho no fundo do quintal, desde que ainda haja cargo, salário e alguma moldura institucional que o mantenha em evidência.

Sua volta para JHC não é apenas uma reaproximação. É a confissão pública de um esvaziamento. Quando foi vice-prefeito do então jovem e midiático prefeito de Maceió, boa parte do eleitorado acreditou que a presença de Lessa daria densidade política, equilíbrio administrativo e experiência a uma gestão vendida como moderna. Ledo engano. O que se viu foi um vice sem autonomia, sem comando, sem espaço real de poder. Um verdadeiro fantoche na mão do instagramável, mantido em gabinete simples, sem prestígio político correspondente à sua história, sem a estrutura que muitos imaginavam que lhe seria destinada, sem sequer o controle de áreas que seus próprios aliados consideravam naturais à sua influência.

Nem mesmo os eleitores e militantes que trabalharam apostando em sua presença como contrapeso político colheram qualquer resultado. Ficaram a ver navios.

Magoado, Lessa rompeu. Buscou novo lugar ao sol - ou à sombra - no grupo dos Calheiros e de Paulo Dantas. Aceitou ser vice-governador em 2022 e foi eleito. Mais uma vez, retornava não ao protagonismo, mas a uma posição secundária. Mais uma vez, abria mão do papel central para ocupar um posto de status, mas sem comando efetivo.

Agora, repete o roteiro.


A guinada também expõe sua fragilidade partidária. O PDT sob seu comando não conseguiu, nesta eleição, formar chapa competitiva nem para deputado federal nem para deputado estadual. Para um político com sua biografia, o fracasso é eloquente. Sua maior estrela partidária, Kátia Born, já se movimentava em outra direção, acomodada no governo estadual e aconselhada pelo próprio Lessa a não tentar novos voos. Enquanto isso, o partido murchava, a influência encolhia e a musculatura eleitoral desaparecia.

Foi nesse cenário de enfraquecimento que Ronaldo Lessa decidiu, mais uma vez, surpreender. Só que a surpresa, agora, não tem sabor de ousadia. Tem gosto de resignação. De adesão. De pragmatismo cru. Não há, nesse movimento, sinal visível de projeto ideológico, coerência programática ou fidelidade a campo político. O que há, claramente, é um jogo de interesses, dinheiro e poder.

E isso pesa ainda mais quando se observa quem é Ronaldo Lessa e o que ele já representou.

Um homem que, na juventude, lutou contra a ditadura, que construiu carreira ancorada em símbolos de resistência e compromisso público, termina por sucumbir aos encantos do cargo secundário, do posto decorativo, da vice-política como meio de permanência. É triste. E é pequeno diante da dimensão histórica que já teve.

A política, por óbvio, é feita de alianças, reposicionamentos e cálculos. Mas há momentos em que a tática cobra um preço alto na imagem pública. E este parece ser um deles. Ao voltar para o lado de JHC, depois de ter rompido, reclamado da falta de prestígio e migrado para o grupo adversário, Lessa consolida a impressão de que trocou o protagonismo pelo conforto da acomodação.

Da trajetória admirável ao ostracismo. Do comando à figura acessória. Da política de convicções à política como profissão. Da densidade histórica à mediocridade institucional de quem aceita, pela terceira vez, ser vice como destino.

Na República das Alagoas, surge assim mais um capítulo do velho teatro de adesões improváveis. E Ronaldo Lessa, que já foi um dos poucos nomes respeitados pela coerência, corre o risco de ser lembrado não pelo que construiu, mas pelo modo como decidiu terminar: sempre por perto do poder, mas cada vez mais longe de si mesmo.