Proposta de Sistema Nacional de Saúde do Trabalhador pode reduzir mortes e doenças no trabalho
Especialistas defendem integração de dados e políticas públicas para enfrentar acidentes e adoecimentos laborais no país.
Especialistas ouvidos pela Comissão de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados defenderam a criação do Sistema Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (Sinast). O objetivo do sistema é integrar dados e políticas públicas para combater mortes e adoecimentos evitáveis no ambiente de trabalho.
A deputada Sâmia Bomfim (Psol-SP), autora do pedido de audiência, destacou a importância da medida diante da precarização das relações trabalhistas. Segundo ela, trabalhadores de aplicativos estão entre os mais afetados. “A lógica das entregas ocorre sem responsabilidade das plataformas para garantir segurança e qualidade de vida”, afirmou.
Integração de dados
Um dos principais desafios apontados no debate, realizado na última terça-feira (14), é a falta de integração entre órgãos do governo. Atualmente, dados do Sistema Único de Saúde (SUS), da Previdência Social e do Ministério do Trabalho não são compartilhados de forma eficiente.
O coordenador-geral de Vigilância em Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde, Luís Henrique da Costa Leão, defendeu que o Sinast organize a atuação entre diferentes áreas do governo. “Cuidar da saúde do trabalhador é cuidar do Brasil. Negligenciar a saúde de quem trabalha é negligenciar o país”, ressaltou.
Leão informou ainda que o governo pretende estruturar, ainda neste ano, um programa nacional de vigilância e prevenção de mortes no trabalho.
Perícia médica
O Ministério Público do Trabalho (MPT) criticou a baixa efetividade do Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário (NTEP), instrumento que relaciona doenças ao trabalho.
De acordo com o coordenador da área no MPT, Raimundo Lioma Ribeiro Júnior, a concessão de benefícios por acidente de trabalho caiu 54% entre 2008 e 2023. “O maior problema hoje é a subnotificação de casos entre trabalhadores com carteira assinada”, destacou.
A presidente da Associação Brasileira de Magistrados do Trabalho (ABMT), Cláudia Márcia de Carvalho Soares, ressaltou que a subnotificação gera prejuízos econômicos e aumenta a judicialização. Ela também chamou atenção para a saúde mental: “Hoje, os transtornos mentais já são a terceira maior causa de afastamento do trabalho.”
Funcionamento do Sinast
A pesquisadora do Ministério do Trabalho, Maria Maeno, explicou que o Sinast se inspira no modelo do Sistema Nacional de Segurança Alimentar, criado em 2006 para erradicação da fome com alimentos nutritivos.
Pela proposta, a coordenação ficará a cargo do Ministério da Saúde, com participação da Presidência da República e da Secretaria de Governo. A ideia já foi aprovada em diversas conferências nacionais de saúde do trabalhador.
A proposta prevê:
- Participação de mais de 20 ministérios;
- Foco na atuação sobre processos de trabalho que geram mortes e doenças;
- Presença em estados e municípios.
Para a conselheira nacional de saúde Eurídice Ferreira de Almeida, o sistema precisa de financiamento adequado para ser implementado. “As propostas precisam sair do papel”, enfatizou.