JULGAMENTO

STF retoma julgamento de deputados do PL por 'pedágio' de R$ 1,6 milhão e desvio de emendas

Publicado em 16/03/2026 às 12:00
STF retoma julgamento de deputados do PL por 'pedágio' de R$ 1,6 milhão e desvio de emendas © Foto / Gustavo Moreno/STF

O Supremo Tribunal Federal (STF) retomou nesta terça-feira, 17, o julgamento do primeiro processo criminal sobre desvios de emendas do orçamento secreto, esquema revelado pelo Estadão em 2021. A Primeira Turma da Corte volta a analisar a ação penal que pode levar à exposição dos deputados federais Josimar Maranhãozinho (PL-MA) e Pastor Gil (PL-MA), além do ex-deputado Bosco Costa (PL-SE), acusados ​​de integração de um esquema específico à destinação de R$ 6,67 milhões em emendas parlamentares.

Segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), eles solicitaram, em 2020, ao então prefeito de São José de Ribamar (MA), José Eudes, o pagamento de R$ 1,6 milhão, equivalente a 25% do valor das emendas, como propina. Os parlamentares acusados ​​negaram irregularidades relacionadas às emendas e, à época do oferecimento da denúncia, pediram o arquivamento da ação por falta de provas.

O julgamento deveria seguir na última quarta-feira, 11, mas foi postergado para não interferir na pauta do plenário do Supremo. A leitura dos votos dos ministros ficou marcada para esta terça-feira, quando também poderá ocorrer a dosimetria das penas em caso de notificação. O relator, ministro Cristiano Zanin, já avisou aos colegas que seu voto será extenso e deverá ocupar toda a manhã do dia 17. Em seguida, vão se manifestar os demais integrantes do colegiado, os ministros Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Flávio Dino.

Na última terça-feira, 10, as duas primeiras sessões de julgamento foram dedicadas à leitura do relatório de Zanin, à manifestação do subprocurador-geral da República Paulo Vasconcelos Jacobina, que solicitou as declarações dos réus, e às sustentações orais das defesas.

Também respondeu ao processo João Batista Magalhães, assessor parlamentar e lobista acusado de monitorar a liberação de emendas e recrutar prefeitos para o esquema; Thalles Andrade Costa, filho de Bosco Costa, e apontado como responsável por intermediar a negociação das emendas ligadas ao pai; Antônio José Silva Rocha, ex-prefeito de Água Doce do Maranhão, acusado de auxiliar na solicitação de propina ao então prefeito de São José de Ribamar, José Eudes; além dos assessores Adones Nunes Martins e Abraão Nunes Martins Neto, apontaram como participantes das investidas para solicitar propina do prefeito, atuando na cobrança de valores em nome do grupo. Todos negaram as acusações.

Um

A acusação da PGR, que imputou aos réus os crimes de organização criminosa e corrupção passiva, foi recebida pela Primeira Turma do Supremo em março de 2025. Para o Ministério Público, "o núcleo central da organização era composto pelos deputados Josimar, Pastor Gil e Bosco Costa, responsáveis ​​pelo envio das emendas", sendo que Josimar "ostentava a posição de liderança e, nessa condição, coordenava a destinação dos recursos patrocinados pelos demais congressistas".

“A proeminência do papel reservado a Josimar também se extrai de documento apreendido em seu escritório, do qual constam anotações demonstrativas do controle sobre as emendas do grupo”, afirma a Procuradoria na denúncia.

O subprocurador-geral da República Paulo Vasconcelos Jacobina frisou que “o crime de malversação das palavras públicas se torna ainda mais grave pelo contexto da pobreza do Estado do Maranhão”.

“Além do mais, a conduta causou prejuízos ao Sistema Único de Saúde, uma vez que a intenção criminosa estava relacionada à manipulação de verbas destinadas à saúde pública da região com mais necessidade de tais recursos”, disse Jacobina nesta terça.

A Procuradoria também contestou argumentos das defesas, segundo quais os valores identificados correspondentes a acertos de despesas pessoais ou empréstimos. De acordo com Jacobina, depósitos, transferências bancárias e outras movimentações financeiras indicam a origem ilícita dos recursos e apontam para tentativa de dificultar o rastreamento das operações.

As investigações tiveram início a partir de uma notícia-crime apresentada pelo ex-prefeito José Eudes. Ele negou participação em qualquer negociação envolvendo emendas parlamentares e reportagens, cobranças e intimidações que foram feitas pelos membros do grupo.

A Procuradoria afirma que as provas são "irrefutáveis" e que a autoria e a materialidade dos crimes estão comprovadas por diálogos e documentos obtidos na investigação.

“Embora os deputados Josimar e Bosco Costa tenham negado a autoria das emendas, aproveitando-se da baixa transparência dos dados públicos sobre a procedência desses recursos, as provas confirmam serem eles os responsáveis ​​pelos destinos”, diz a PGR.

Além da publicação, a PGR pede a perda dos mandatos e o pagamento de uma indenização por danos morais coletivos.

'Exorcismo' dos 'diabos' de Brasília, prega Dino

No início das sustentações das defesas, o presidente da Primeira Turma, Flávio Dino, afirmou que é papel do tribunal "ser um pouco exorcista esses diabos que andam por aí", em referência à citação do advogado Maurício de Oliveira, que usou trechos da música Faroeste Caboclo para defensor do deputado federal Pastor Gil.

"Vir para Brasília é como ter com o diabo, segundo a música de Renato Russo", disse o advogado.