Jogo de empurra expõe cadeia de poder nas emendas: Arthur Lira cita DNOCS, mas silencia sobre suas indicações
Deputado atribui falhas ao DNOCS, órgão que em Alagoas era comandado por Arlindo Garrote, ex-prefeito de Estrela de Alagoas e aliado indicado pelo próprio Arthur Lira
A resposta do deputado federal Arthur Lira à reportagem exibida pelo Fantástico, da Rede Globo, abriu um novo flanco no escândalo envolvendo emendas parlamentares e obras problemáticas em Alagoas. Ao ser questionado sobre irregularidades em pavimentações em Rio Largo e Estrela de Alagoas, o parlamentar afirmou que a responsabilidade pela execução das obras cabe ao DNOCS. O que Lira não disse — e que a reportagem também não explicitou — é que a indicação política para o comando do DNOCS em Alagoas partiu dele próprio.
O detalhe não é menor. À época das obras denunciadas, o DNOCS no estado era comandado por Arlindo Garrote, ex-prefeito justamente de Estrela de Alagoas, município onde a reportagem mostrou estradas rurais com milhões em recursos públicos e resultados precários: terraplanagem sem asfalto, trechos incompletos, obras paradas e máquinas desaparecidas após as eleições. A poeira ficou; o asfalto, não.
Ao empurrar a responsabilidade para o DNOCS, Arthur Lira tenta construir uma narrativa de distanciamento administrativo. Mas os fatos apontam para uma engrenagem política fechada: as emendas são indicadas pelo parlamentar; o órgão executor é dirigido por um aliado político indicado por ele; e as obras problemáticas surgem exatamente na cidade governada anteriormente por esse mesmo aliado. O “não é comigo” esbarra na lógica básica da responsabilidade política.
A cadeia não se encerra aí. Após deixar o DNOCS, Arlindo Garrote foi alçado a um posto estratégico em Brasília: hoje ocupa uma vice-presidência em uma diretoria da Caixa Econômica Federal, também por indicação de Arthur Lira. O percurso revela um padrão recorrente: aliados transitam entre prefeituras, órgãos federais e estatais, enquanto obras financiadas com dinheiro público acumulam problemas e investigações.
Em Rio Largo, outro caso exposto pelo Fantástico, a lógica se repete. Recursos vultosos de emendas parlamentares resultaram em vias pavimentadas às pressas, com asfalto que afundou em diversos pontos. A explicação oficial fala em entraves técnicos e pendências administrativas. A população, porém, convive com buracos, serviços precários e a sensação de que o dinheiro evaporou no caminho entre Brasília e o chão das cidades.
A tentativa de Arthur Lira de transferir a responsabilidade integralmente ao DNOCS ignora o elemento central da denúncia: o controle político sobre a máquina pública. Quando quem indica o recurso também indica quem executa, a separação entre autoria e responsabilidade se torna artificial. É o velho jogo de empurra institucional, que protege o topo da cadeia e deixa o prejuízo com os municípios e seus moradores.
A Polícia Federal e os órgãos de controle afirmam querer “abrir a caixa-preta” das emendas parlamentares — especialmente do chamado orçamento secreto. Os casos de Estrela de Alagoas e Rio Largo mostram por quê. Mais do que falhas pontuais de execução, o que está em xeque é um modelo em que poder político, cargos estratégicos e recursos públicos circulam no mesmo círculo fechado.
Enquanto Arthur Lira aponta o DNOCS como responsável, o DNOCS aparece comandado por seus indicados. E enquanto aliados sobem na hierarquia federal, estradas afundam no interior de Alagoas. A pergunta que fica, após a denúncia do Fantástico, é simples e incômoda: se ninguém no topo é responsável, quem responde pelo asfalto que não veio e pelo dinheiro que já foi?