ELEIÇÕES 2026 | BASTIDORES DO PODER

Política em modo truco: Alagoas entra no jogo pesado pelas duas cadeiras do Senado

Como num jogo de cartas, situação e oposição armam duplas, ensaiam blefes e disputam palmo a palmo as duas vagas ao Senado e o comando do Governo de Alagoas, em uma das eleições mais imprevisíveis dos últimos anos

Por Vladimir Barros Publicado em 02/01/2026 às 18:06

A sucessão de 2026 em Alagoas já começou — e o tabuleiro político se assemelha cada vez mais a uma mesa de truco, onde blefes, cartas escondidas e jogadas calculadas definem quem leva a rodada. Em disputa, duas cadeiras no Senado Federal, com duas grandes duplas se formando: situação contra oposição.

De um lado está o grupo governista, liderado pelo senador Renan Calheiros, que busca o quinto mandato no Senado. Experiente, influente e dono de uma das maiores autoridades políticas da chamada “Casa Azul” do Congresso Nacional, Renan é, paradoxalmente, o nome mais forte e o alvo a ser batido por todos os adversários.

Para sustentar sua hegemonia, Renan sabe que não pode jogar sozinho. A estratégia passa pela formação de uma chapa robusta, capaz de enfrentar o desgaste natural de décadas no poder. Nesse movimento, entra em cena o filho, Renan Filho, apontado como o governador mais bem avaliado dos últimos 30 anos e peça central na articulação para disputar novamente o Governo de Alagoas, compondo a chamada dobradinha Renan pai–Renan filho, Senado e Governo.

A segunda vaga ao Senado, dentro da base governista, ainda está em aberto, mas os nomes mais cotados são o atual governador Paulo Dantas e o vice-governador Ronaldo Lessa. Qualquer um deles formaria, ao lado de Renan Calheiros, uma dupla pesada, pensada para manter o controle político do MDB e aliados sobre o Estado — hegemonia que já dura quase 16 anos. Ainda corre por fora, com chances remotas o deputado Paulão.

Do outro lado da mesa, a oposição também organiza suas cartas. O grupo é capitaneado pelo deputado federal Arthur Lira, que articula um bloco competitivo para tentar romper o domínio do MDB. Entre os nomes que circulam para compor a dupla oposicionista ao Senado estão Alfredo Gaspar de Mendonça, Davi Davino Filho e a própria Marina Cândia.

Mas a carta mais sensível da oposição atende pelo nome de JHC. Atual prefeito da capital, ele deverá deixar o cargo no dia 30 de março, prazo-limite para a desincompatibilização eleitoral, e surge como o candidato mais competitivo ao Governo do Estado fora da órbita do MDB. Sua possível candidatura é vista como a maior ameaça real à continuidade do grupo do MDB de Renan no comando de Alagoas.

É justamente aí que o jogo esquenta. Diante da possibilidade de enfrentar Renan Filho no Governo, JHC sinaliza que não ficará sem resposta. Nos bastidores, a movimentação de lançar sua esposa, Marina Cândia, como candidata ao Senado é interpretada como um “truco” político direto contra Renan Calheiros — um troco estratégico que embaralha o jogo e força o adversário a mostrar suas cartas antes da hora.

Até as convenções partidárias, previstas para julho, Alagoas viverá um período intenso de indefinições, especulações e rearranjos. Quem será governo, quem será Senado, quem blefa e quem tem jogo real ainda está em aberto. Como no truco, vence não apenas quem tem as melhores cartas, mas quem sabe a hora certa de pedir seis, nove ou doze.

E, ao que tudo indica, a partida mal começou.