Vladimir Barros

Jornalista filiado ao Sindjornal/FENAJ, é membro efetivo da Associação Alagoana de Imprensa (AAI) e editor do jornal Tribuna do Sertão. Advogado militante, formado pela Universidade Federal de Alagoas, com pós-graduação em Direito Processual e Docência Superior. É também membro da Academia Palmeirense de Letras e fundador da Rádio Cacique FM de Palmeira dos Índios.

Vladimir Barros

Quem mata a cobra mata a ninhada: o erro de tratar Bolsonaro preso como o fim do bolsonarismo

Publicado em 08/10/2026 às 15:41
Bolsonaro e filhos Reprodução

Há uma cena marcante no filme O Homem da Capa Preta, inspirado na história real de Tenório Cavalcanti, que remonta à sua juventude no povoado Bonifácio, em Palmeira dos Índios, Alagoas.

O pai de Tenório havia sido assassinado em consequência de uma desavença familiar, após ser acusado de manter um relacionamento amoroso com a mulher do assassino. Tempos depois, o algoz aparece montado a cavalo diante do jovem Tenório e, do alto de sua montaria, sentencia:

“Quem mata a cobra mata a ninhada.”

Mas não consegue cumprir a ameaça. Tenório reage e o mata com uma enxadada.

A cena, inspirada na trajetória de Tenório Cavalcanti, oferece uma metáfora sobre o poder e a sobrevivência de seus herdeiros.

Em 2018, com Lula preso e impedido de disputar a Presidência, Jair Bolsonaro derrotou Fernando Haddad e chegou ao Palácio do Planalto. Quatro anos depois, foi derrotado pelo próprio Lula, que retornou à Presidência.

A tentativa de golpe de Estado para impedir a transição democrática fracassou. Bolsonaro acabou condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses de prisão.

Mas a derrota eleitoral e a condenação judicial não encerraram o bolsonarismo.

A eleição de 2026 revelou a permanência política da família Bolsonaro. Flávio chegou ao segundo turno presidencial contra Lula. Carlos Bolsonaro foi eleito senador por Santa Catarina. Michelle Bolsonaro, esposa do ex-presidente, conquistou uma cadeira no Senado pelo Distrito Federal. Jair Renan, filho mais novo, e Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, foram eleitos deputados federais.

O Partido Liberal também ampliou sua representação no Congresso Nacional, elegendo 121 deputados federais e 19 senadores.

O resultado demonstra que o movimento organizado em torno de Jair Bolsonaro permanece eleitoralmente expressivo, apesar dos acontecimentos que marcaram o fim de seu governo e sua prisão.

O PT, por sua vez, retornou ao poder em 2023, mas não conseguiu superar politicamente o bolsonarismo. Mesmo diante da condenação de seu principal adversário, Lula chega ao segundo turno enfrentando um integrante da mesma família que derrotou quatro anos antes.

A eleição ocorre num ambiente de polarização, acusações de corrupção e disputas sobre o legado dos governos petistas e bolsonaristas. A persistência desses conflitos mostra que a vitória de um campo político não significa o desaparecimento do outro.

A extrema-direita continua presente na vida política brasileira, embora o conjunto do eleitorado conservador reúna diferentes correntes e posições.

O episódio de Tenório Cavalcanti pertence a um Brasil em que a violência privada frequentemente decidia disputas de poder. Na democracia, a continuidade ou a derrota de um projeto político deve ser determinada pelas urnas e pelas instituições constitucionais.

Mas a velha sentença permanece como metáfora da sucessão política.

Jair Bolsonaro perdeu a Presidência, foi condenado e está preso. Seus familiares, entretanto, conquistaram novos mandatos, e Flávio Bolsonaro disputa o comando do país.

O segundo turno decidirá quem governará o Brasil pelos próximos quatro anos. A permanência do bolsonarismo, porém, mesmo que em mandatos menores já está demonstrada pelos resultados eleitorais.

O PT conseguiu derrotar Jair Bolsonaro nas urnas em 2022, mas não eliminou a força eleitoral do movimento que ele construiu.

E é nesse ponto que a frase dirigida ao jovem Tenório Cavalcanti, no povoado Bonifácio, retorna com toda a sua força simbólica:

“Quem mata a cobra mata a ninhada.”

Na política democrática, a lição não é eliminar adversários, mas compreender que derrotar uma liderança não basta para superar suas ideias e sua influência eleitoral.