Vladimir Barros
Jornalista filiado ao Sindjornal/FENAJ, é membro efetivo da Associação Alagoana de Imprensa (AAI) e editor do jornal Tribuna do Sertão. Advogado militante, formado pela Universidade Federal de Alagoas, com pós-graduação em Direito Processual e Docência Superior. É também membro da Academia Palmeirense de Letras e fundador da Rádio Cacique FM de Palmeira dos Índios.Quando a República perde a vergonha
Há crises que quebram bancos. Há crises que derrubam governos. E há crises muito mais perigosas: aquelas que quebram a confiança de um povo em suas instituições.
O escândalo do Banco Master parece caminhar perigosamente nessa terceira direção.
A cada nova revelação envolvendo Daniel Vorcaro, o que aparece diante dos brasileiros já não é apenas a história de um banqueiro poderoso, de negócios financeiros suspeitos ou de relações cultivadas nos salões de Brasília. O que emerge é o retrato perturbador de uma República na qual dinheiro, influência e poder parecem ter circulado com uma desenvoltura incompatível com a saúde das instituições.
As investigações e documentos já tornados públicos colocaram sob os holofotes relações de Vorcaro com personagens de diferentes campos políticos e diferentes Poderes. Direita, esquerda, centro. Governo, oposição. Congresso, Executivo, Judiciário. O caso tornou-se grande demais para caber numa disputa partidária.
E talvez aí esteja sua dimensão mais assustadora.
O Master não parece ter escolhido uma ideologia. Escolheu o poder.
É essa sensação que começa a corroer a confiança nacional: a de que determinadas fortunas não procuram governos; procuram portas. Não procuram partidos; procuram influência. Não perguntam quem está no poder. Perguntam quanto custa chegar perto dele.
E quando o dinheiro consegue circular pelos corredores da República, o cidadão comum começa inevitavelmente a fazer uma pergunta devastadora:
quem fiscaliza os poderosos quando os poderosos passam a integrar o próprio enredo que deveria ser fiscalizado?
O Brasil já conviveu com escândalos envolvendo presidentes, ministros, parlamentares, governadores, empreiteiros e empresários. Sobreviveu a mensalões, petrolões, anões do orçamento, sanguessugas e tantas outras páginas constrangedoras de nossa história republicana.
Mas existe uma fronteira particularmente perigosa.
É quando a suspeita chega à Justiça.
O Supremo Tribunal Federal não é apenas mais um órgão público. É a última instância do Judiciário brasileiro e guardião da Constituição. Quando Executivo e Legislativo entram em conflito, é ao Supremo que a República recorre. Quando direitos fundamentais são ameaçados, é dele que se espera proteção. Quando as paixões políticas ultrapassam os limites constitucionais, espera-se que onze ministros tenham a serenidade que falta às ruas.
Por isso, o que acontece agora dentro do STF é tão grave.
Ministros divergem publicamente. Decisões são questionadas dentro da própria Corte. Surgem discussões sobre acesso a provas, extensão de sigilos, competência para investigar, imparcialidade e limites da atuação de integrantes do tribunal.
É indispensável fazer uma ressalva: suspeita não é culpa. Menção em investigação não significa participação em crime. Relação pessoal ou profissional não constitui, por si só, ilícito. Num Estado de Direito, ninguém — ministro, senador, banqueiro ou cidadão comum — pode ser condenado antes das provas e do devido processo legal.
Mas existe algo que antecede a condenação penal.
A confiança pública.
E confiança, diferentemente de uma sentença, não depende de trânsito em julgado.
Ela pode desaparecer antes.
É exatamente esse o patrimônio que está em risco.
Quando ministros da mais alta Corte entram em confronto em torno de uma investigação que alcança o coração do poder político e econômico brasileiro, o problema deixa de pertencer aos gabinetes de Brasília.
Passa a pertencer ao país inteiro.
Porque uma democracia não funciona apenas com Constituição, códigos, tribunais e eleições.
Funciona também com uma matéria-prima invisível: credibilidade.
O cidadão precisa acreditar que o policial investiga sem receber ordens clandestinas. Que o promotor acusa sem escolher protegidos. Que o juiz julga sem olhar o nome das partes. Que o parlamentar legisla pensando no interesse público. Que o governante administra sem transformar o Estado numa extensão de relações privadas.
Quando essa crença desaparece, permanece a estrutura da democracia, mas começa a morrer sua alma.
Talvez seja essa a maior tragédia do caso Master.
Não são apenas os bilhões envolvidos.
Não são apenas os personagens poderosos.
Não são apenas as mensagens, contratos, encontros, fundos, operações financeiras ou relações que as investigações procuram esclarecer.
É a impressão de que Daniel Vorcaro conseguiu chegar perto demais de gente poderosa demais.
E uma República saudável deveria manter uma distância muito clara entre aqueles que possuem dinheiro e aqueles que possuem o poder de decidir sobre a vida de milhões de brasileiros.
O Brasil precisa conhecer toda a verdade.
Toda.
Sem vazamentos seletivos. Sem investigações escolhidas conforme o personagem. Sem proteção corporativa. Sem guerra de versões entre ministros. Sem direita tentando esconder os seus e esquerda tentando esconder os dela. E também sem transformar suspeitas em condenações antecipadas.
Se houver inocentes, que sejam publicamente inocentados.
Se houver culpados, que respondam.
Se houver ministros a esclarecer relações, que esclareçam.
Se houver políticos envolvidos, que sejam investigados independentemente do partido.
Se houver empresários que compraram influência, que se descubra quem vendeu.
Porque a República não pode terminar onde começa a lista de contatos de um banqueiro.
Há muito mais em jogo do que Daniel Vorcaro e o Banco Master.
Está em jogo a autoridade moral das instituições brasileiras.
E esse patrimônio é infinitamente mais valioso do que qualquer banco.
Bancos podem ser liquidados. Empresas podem falir. Fortunas podem desaparecer e governos podem terminar.
Instituições também sobrevivem a crises.
Mas existe uma coisa que nenhuma democracia deveria permitir que fosse à falência:
a confiança do seu povo na República.