Vladimir Barros
Jornalista filiado ao Sindjornal/FENAJ, é membro efetivo da Associação Alagoana de Imprensa (AAI) e editor do jornal Tribuna do Sertão. Advogado militante, formado pela Universidade Federal de Alagoas, com pós-graduação em Direito Processual e Docência Superior. É também membro da Academia Palmeirense de Letras e fundador da Rádio Cacique FM de Palmeira dos Índios.Quando a política vira perseguição
Há momentos em que não dá mais para suavizar as palavras.
Não dá para tratar como divergência aquilo que já se transformou em ambiente doentio. Não dá para fingir normalidade quando o que se vê é perseguição, medo e um tipo de política pequena que envergonha qualquer cidade que já teve grandeza.
Palmeira dos Índios vive um desses momentos.
O clima é pesado. É visível. Está nas conversas, nos bastidores, nas redes, nos corredores das repartições e, agora, até nas falas públicas de quem ocupa cargo de relevância. A vice-prefeita veio a público dizer que sofre perseguição. Mais grave: que isso atinge até o seu trabalho pessoal, no Hospital Santa Rita.
Quando a política invade até o sustento de alguém, o problema deixou de ser político.
Passou a ser moral.
E não é um caso isolado.
Há servidores que falam em voz baixa. Há contratados que vivem com receio. Há profissionais que evitam se posicionar porque sabem que qualquer palavra pode custar o emprego. Não o emprego estável - mas aquele vínculo precário, muitas vezes a única renda de uma família, que pode ser retirado com um simples gesto de quem detém poder.
Isso não é gestão.
Isso é controle.
E controle pelo medo nunca produziu desenvolvimento. Só produz submissão.
O mais preocupante é que esse modelo não está restrito a uma única cidade. Ele se repete em vários municípios do interior. Um tipo de coronelismo moderno, onde figuras políticas — muitas vezes fora do cargo formal — continuam dando as cartas, influenciando decisões, distribuindo espaços e, sobretudo, mantendo uma rede de dependência baseada em cargos contratados.
É uma engrenagem perversa.
De um lado, pessoas que precisam trabalhar para sobreviver.
Do outro, estruturas políticas que utilizam essa necessidade como instrumento de fidelidade forçada.
Quem depende, cala.
Quem cala, permanece.
E quem permanece sustenta o sistema.
É assim que certos grupos se mantêm no poder por anos.
Não pela força da gestão.
Mas pela fragilidade das pessoas.
E isso corrói a dignidade de uma cidade.
Enquanto isso, basta olhar ao redor.
Arapiraca cresce. Se organiza. Dá sinais de maturidade política. Investe, se planeja, avança. Não é perfeita - nenhuma cidade é -, mas mostra que é possível fazer diferente.
Mostra que política pode ser instrumento de desenvolvimento, não de perseguição.
Mostra que gestão pode ser feita com visão, não com ressentimento.
E aí vem a pergunta inevitável:
Por que Palmeira dos Índios, com toda sua história, aceita viver esse ambiente de briga mesquinha, de disputa pequena, de tensão permanente?
Uma cidade que já foi referência não pode se acostumar com isso.
Não pode aceitar que a política desça a esse nível.
Não pode normalizar o uso do poder para perseguir, intimidar ou silenciar.
Porque quando isso acontece, não é apenas a política que se degrada.
É a própria cidade.
É o seu ambiente social.
É a sua autoestima coletiva.
É a sua capacidade de crescer.
É o seu futuro.
E é preciso dizer com clareza: isso precisa acabar.
Não como um desejo abstrato.
Mas como uma necessidade concreta.
É preciso que as instituições funcionem.
Que o Ministério Público observe.
Que a Justiça atue quando necessário.
Que os mecanismos legais deixem de ser apenas teoria e passem a proteger, de fato, quem sofre esse tipo de prática.
Mas não basta esperar apenas pelas instituições.
É preciso também coragem.
Coragem de quem ocupa cargos.
Coragem de quem tem liderança.
Coragem de quem ainda acredita que política pode ser algo maior do que isso que está sendo visto.
Porque sempre há alguém que precisa dar o primeiro passo.
Sempre há alguém que precisa dizer que não aceita.
Sempre há alguém que precisa enfrentar o ambiente, mesmo quando parece que todos já se acostumaram.
É disso que nasce a mudança.
Não de discursos prontos.
Mas de atitudes firmes.
Palmeira dos Índios não nasceu para viver sob medo.
Não nasceu para ser controlada por estruturas que se alimentam da dependência alheia.
Não nasceu para assistir, de cabeça baixa, a degradação da sua vida pública.
É uma cidade com história, com identidade, com gente capaz.
Mas precisa decidir o que quer ser.
Se continuará refém de práticas que apequenam a política.
Ou se vai reagir.
Porque, no fim das contas, toda cidade chega a um ponto em que precisa escolher.
E essa escolha não é feita apenas por quem governa.
É feita por quem vive.
Por quem trabalha.
Por quem depende da cidade para construir a própria vida.
Talvez o mais triste de tudo não seja o que está acontecendo.
Mas o risco de se acostumar com isso.
E é exatamente aí que mora o maior perigo.
Porque quando uma cidade passa a aceitar a política do medo como normal, ela deixa de ser comunidade.
Passa a ser território.
E território, quase sempre, tem dono.
Mas cidade de verdade não tem dono.
Tem povo.
E povo não foi feito para viver sob pressão.
Foi feito para viver com dignidade.