Vladimir Barros

Jornalista filiado ao Sindjornal/FENAJ, é membro efetivo da Associação Alagoana de Imprensa (AAI) e editor do jornal Tribuna do Sertão. Advogado militante, formado pela Universidade Federal de Alagoas, com pós-graduação em Direito Processual e Docência Superior. É também membro da Academia Palmeirense de Letras e fundador da Rádio Cacique FM de Palmeira dos Índios.

Vladimir Barros

A vida bate, mas eu continuo

Publicado em 27/02/2026 às 02:47
Imagem gerada por IA

A vida não pede licença. Ela não manda mensagem antes, não agenda horário, não respeita o “agora não dá”. A vida chega. E quando chega, muitas vezes chega como quem abre a porta com o ombro: derrubando a paz da sala, espalhando as certezas no chão, fazendo barulho no coração.

A gente cresce ouvindo que o mundo é duro. Só que “duro” é uma palavra tímida. Duro é um chão frio de madrugada, quando a gente acorda com a cabeça cheia e o corpo pesado. Duro é quando o telefone toca e, antes de atender, você já sabe que a notícia não vem leve. Duro é quando o dinheiro acaba antes do mês. Duro é quando a injustiça aparece com roupa de normalidade, e o errado tem um sorriso confiante. Duro é quando o amor, que deveria ser abrigo, vira tempestade. Duro é quando você percebe que a sua força não é infinita — e mesmo assim precisa fazer mais uma vez.

Mas o tema não é “a vida bate”. Isso todo mundo já sabe, mesmo os que fingem que não. O tema é o que vem depois do impacto.

Porque existe uma diferença enorme entre ser derrotado e ser interrompido. Tem gente que cai e decide que caiu para sempre. E tem gente que cai e entende que cair é um capítulo, não um ponto final. Não porque é otimista de manual, desses que distribuem “gratidão” como se fosse troco. Mas porque aprendeu, na prática, que o segredo não é evitar a pancada - isso raramente está sob nosso controle - e sim escolher o que fazer com ela.

A vida bate, sim. E bate com criatividade.

Bate no trabalho, quando você entrega o melhor e recebe o silêncio. Bate na saúde, quando o corpo - que parecia parceiro - começa a exigir explicações. Bate na família, quando o amor vem misturado com preocupação e responsabilidade. Bate nos planos, quando o futuro, que parecia uma estrada reta, revela curvas, buracos e atalhos fechados. Bate no ego, quando você descobre que não é tão invulnerável quanto gostava de imaginar. Bate na fé, quando você olha pro céu e parece que o céu está ocupado demais.

E, no meio disso tudo, aparece a pergunta que a vida faz sem palavras: “E agora?”

É aqui que a frase ganha corpo.

Não se trata de bater duro. Não é uma competição para ver quem sofreu mais. Sofrimento não deveria ser medalha — e, no entanto, às vezes a gente trata como se fosse. “Eu aguentei”, “eu passei”, “eu sobrevivi”… Como se sobreviver fosse o único troféu disponível. Mas a frase aponta para outra coisa: a medida do que você aguenta e, principalmente, do que você consegue manter de si mesmo enquanto aguenta.

Porque aguentar, por si só, pode virar prisão.

Tem gente que aguenta tudo - e perde a doçura. Aguenta tudo - e perde a capacidade de confiar. Aguenta tudo - e vira amargo, desconfiado, fechado, como uma casa com as janelas pregadas. Aguenta tudo - e aprende a rir do próprio sonho como forma de defesa. Aguenta tudo - e, quando vê, virou sobrevivente de uma vida que já não vive.

O que a frase nos provoca é diferente: “Aguentar e seguir em frente.” Não é aguentar e congelar. Não é aguentar e endurecer por dentro. Não é aguentar e desistir lentamente. É aguentar e continuar tentando - com movimento, com propósito, com teimosia de quem ainda acredita que existe amanhã.

E tentar, no mundo real, não é cinema. Tentar é discreto.

Tentar é levantar da cama mesmo sem vontade. É tomar banho como quem faz um pacto com o dia. É responder “tô bem” quando não está, mas sem usar isso como mentira eterna; só como ponte, para atravessar aquela hora. É levar a criança na escola com a alma pesada e, ainda assim, amarrar o cadarço dela com cuidado. É trabalhar quando a cabeça queria sumir. É assinar papel, resolver problema, fazer reunião, atender gente, enquanto por dentro você está remendando o que ninguém vê.

Tentar também é aprender a cair de outro jeito.

No começo, a gente cai com barulho, quebra as coisas, quebra a si mesmo. Depois, a gente cai e já sabe onde dói, já sabe onde precisa segurar, já sabe que chorar não é derrota, é descarga. Depois, a gente cai e percebe que pode pedir ajuda sem se sentir menor. Porque uma das mentiras mais cruéis que ensinaram pra gente foi essa: “Seja forte.” Como se força fosse silêncio. Como se força fosse isolamento. Como se admitir cansaço fosse pecado.

E não é.

Às vezes, seguir em frente é uma ligação. É uma conversa com alguém que não resolve o problema, mas impede você de se afogar nele. É procurar um médico, um terapeuta, um advogado, um amigo - alguém que traga luz onde você só enxerga parede. É parar de fingir que dá conta de tudo. Porque a vida não bate só no corpo e na rotina; ela bate na vaidade também. Bate naquela imagem de “eu controlo tudo”. E é aí que a gente aprende o que é maturidade: não é dominar o mundo. É aprender a atravessá-lo com menos ilusão e mais coragem.

Coragem, aqui, não é ausência de medo. É presença de ação.

E eu gosto de pensar que o verdadeiro sentido de “vencer” nessa frase não é ganhar dos outros. Nem ganhar da vida como se a vida fosse inimiga. Vencer, nessa lógica, é não permitir que a pancada defina seu destino. É não transformar um dia ruim em identidade. É não deixar que um “não” vire “nunca”. É olhar para o prejuízo - financeiro, emocional, físico, existencial - e dizer: “Ok. Doeu. Mas eu ainda estou aqui. E enquanto eu estiver, eu tento.”

Há um tipo de vitória que só a gente percebe.

É aquela noite em que você quase desistiu, mas lavou a louça. Parece pequeno, mas não é. É a madrugada em que o pensamento ficou escuro, mas você respirou fundo e esperou o amanhecer. É o mês em que você apertou tudo, mas pagou o essencial. É o dia em que a tristeza te visitou, mas você não entregou as chaves da casa para ela. É quando você se olha no espelho e, mesmo cansado, reconhece: “Eu não virei o que a dor queria que eu virasse.”

Isso é vitória.

E aqui, no nosso cotidiano brasileiro - com suas filas, suas urgências, suas injustiças e seus milagres pequenos - essa frase ganha uma força especial. Porque a gente vive num país em que a vida bate em muita gente antes mesmo de começar. Bate na infância de quem cresce sem oportunidade. Bate na juventude de quem precisa escolher entre estudar e comer. Bate no trabalhador que sustenta tudo e recebe pouco. Bate na mulher que carrega o mundo e ainda é cobrada como se carregasse pouco. Bate na gente que faz o certo e paga caro por isso.

Ainda assim, o povo tenta.

E esse “tentar” é a oração mais bonita que existe, mesmo para quem não tem religião.

No fim, quando alguém diz “é assim que se vence”, eu não escuto como slogan. Eu escuto como consolo e como desafio. Como quem diz: a vida pode bater, e vai. Mas você não é só o que te acontece. Você é o que você escolhe fazer depois do que te acontece.

E se hoje você está no chão, talvez a vitória seja simples e gigantesca ao mesmo tempo: não transformar o chão em morada. Respirar. Levantar devagar. E tentar de novo - nem que seja só por hoje.

Porque no mundo real, vencer é isso: aguentar, seguir em frente e continuar tentando, mesmo quando ninguém está vendo.